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Sobre Maria Lúcia, a secretária que anotava no caderno

Publicado em 24/03/2016, às 06h27   Malu Fontes*



Hoje estou na pegada diário, mas como não sei fazer bem e com a graça de Gilberto Rios, nem vou tentar. Acordei sob a notícia da morte de uma colega de faculdade (Clarissa Pinho Braga), do seu velório e de sua cremação (tudo isso ocorrido entre as 6:30 e as 15:30). Precisei da solidariedade sempre de plantão de Ana Carolina Araújo para poder me despedir dela e o fiz pela duração de um tempo menor do que eu gostaria, pois às 14h tinha que estar em outro lugar, fazendo o meu trabalho, indiferente a tudo que tava se revolvendo lá dentro, aos meus rebuliços internos, sobre minha vida, meus filhos, minhas saudades e minhas projeções trágicas sobre a existência e a vida como sopro, copiando Oscar Niemeyer. 
Tenho dependência química de notícias e hoje consumi pouquíssimas, quase nenhuma. Voltei para casa no fim do dia, faltando ossos e mobilidade suficientes para o pilates fundamental com Juliana Rocha e com uma náusea física, imobilizante, que não sei de onde veio. Talvez da força do luto. E aqui estou elaborando meu luto, ouvindo notícias ao fundo, pensando na vida e na morte, mas simultaneamente, com um grilo falante no cérebro gritando para eu não perder a motivação de escrever sobre Maria Lúcia, aquela que já elegi como a minha personagem dileta da Lava-Jato.
Uma narrativa sobre Maria Lúcia passou a me habitar e quer sair, feito feto prematuro, mas não sai, já que criatividade, concentração e capacidade de expressão estão escoradas nos cantos das minhas sinapses e já que não tenho dados. Até Renato Russo passou a me sacudir, feito fantasma vivo, em nome de Maria Lúcia, entoando no meu ouvido, como refrão chiclete na minha cabeça, um dos versos do clássico-épico Faroeste Caboclo: "eu vou-me embora/eu vou ver Maria Lúcia...".
Sim, tem gente que não sabe quem é Maria Lúcia. Mas eu sei e quero-a na minha trama particular do escândalo da vez. Ela é a secretária protagonista do escândalo dentro do escândalo. Da Lava-Jato para a lista da Odebrecht, que é, em síntese, a lista do caderno de Maria Lúcia, uma secretária discreta, mas com poderes tão gigantescos que soam improváveis, a detentora de segredos que fazem tremer poderosos do Brasil inteiro.
Ela não frequentava o Grand Monde, não usava as roupas da Vogue e é improvável que tenha se hospedado um dia sequer num 5 estrelas com lençóis de seda ou de centenas de fios egípcios em algum lugar do velho, mas sempre chique, Circuito Elizabeth Arden. 
Não me perguntem por que tamanho interesse em Maria Lúcia. Mera identificação temática, digamos. Me comovo com sua dedicação, retração, discrição e devoção ao trabalho. Dizem as informações que há 9 anos Maria Lúcia não tirava férias. Nem poderia. Sua função era a de guardiã dos segredos da República. Colocar alguém em seu lugar? Como? Não se podia. Substituí-la era dar a mais alguém o acesso ao inacessível, ao inacessável. E como dar descanso a Maria Lúcia se os nomes mais importantes da República, de todos os cantos do Brasil, precisavam de seu trabalho, de suas ordens para fazer os dinheiros errados caírem nas contas certas? Enquanto os homens e mulheres alimentados pelo caderno miraculoso e multiplicador de dólares de Maria Lúcia frequentavam colunas sociais, cruzavam os céus do mundo, compravam Louboutins e Salvatores Ferragamos, acessórios Louis Vuiton, tailleur Chanel, jóias Tiffany's ou meros enxovais de bebês em Miami, ela voltava diariamente para sua moradia modestíssima, no bairro de Pernambués, muito longe dos endereços nobres onde um japonês da Federal tocou a campainha ou empurrou o pé na porta antes de raiar o sol. Não tinha barcos, mansão, fazendas, bois. Certamente não tinha. Se sim, torna-se ainda mais emblemática pela discrição. Já houve um Eriberto, motorista, um Francenildo, caseiro. Mas nunca houve uma Maria Lúcia. Os dois nunca tiveram poder algum de manipular nada. Só olhos e ouvidos. Maria Lúcia reina absoluta no panteão dos funcionários de escalão invisível  que tudo sabem do topo da pirâmide e tudo fazem por ela, para ela, atendendo às ordens e aos interesses nada republicanos dela. 
Pois é. Tudo isso para dizer que agora eu tenho um sonho recém-nascido: estar com e escrever um perfil de Maria Lúcia. Nem quero saber do seu caderno. A imprensa inteira me fala dele e nada dela. Quero saber de sua vida, como na música: "Como vai você? Eu preciso saber/ da sua vida...". 
Monga fantasia do dia: se você conhece Maria Lúcia, me dê um presente: nos apresente. Eu não quero nada do caderno dela. Quero saber o que de mais comum acontecia em sua vida, toda ela, além e aquém dos 9 anos sem férias, vendo tantas caras importantes nas TVs, nos jornais, nas revistas, na internet, e sabendo tanto, sabendo tudo, com um óculos poderoso que só as testemunhas silenciosas da história têm. Quero voltar a ela. Quero voltar a Maria Lúcia. Me ajuda?
Malu Fontes, Salvador, 23 de março de 2016. O dia em que fiquei absolutamente sozinha, por um capricho do relógio, numa capela com uma amiga dentro de um caixão, horas antes de ser cremada; o dia em que Paulo Victor, PV, tornou-se Doutor pelo Pós-Com da UFBA.

*Malu Fontes, jornalista e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Classificação Indicativa: Livre

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