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Carta de despedida do marido de Ney Matogrosso, morto pelo HIV, é revelada após mais de 30 anos; confira

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Ney Matogrosso e Marco de Maria tiveram um relacionamento de cerca de 13 anos  |   Bnews - Divulgação Reprodução
Alex Torres

por Alex Torres

Publicado em 01/07/2025, às 11h44 - Atualizado às 11h59



O cantor Ney Matogrosso já revelou em algumas entrevistas que o grande amor da sua vida foi o médico Marco de Maria, que morreu aos 32 anos, após uma longa luta contra a Aids. Eles tiveram um relacionamento de cerca de 13 anos.

No período mais crítico da doença, inclusive, Ney teria levado Marco para morar com ele em seu apartamento e teria cuidado do médico. O cantor relata que, em diversos momentos, precisou ajudar o companheiro a realizar atividades básicas do dia a dia, como se alimentar e até tomar banho, por conta da evolução da doença.

Após passar uma temporada com o irmão e Ney em Praia Grande, Marco deixou cartas que registravam seus últimos sentimentos. Os escritos são mencionados na biografia "Ney Matogrosso — A Biografia", escrito por Julio Maria.

Saudade do tempo em que eu era possibilidade, o mar era possibilidade, minhas fantasias eram possibilidade, e eu era livre. Agora vejo a amendoeira, não mais a que eu subia, mas uma amendoeira onde não posso subir e construir cabanas. Vejo um mar tão longe de mim e das minhas corajosas investidas de golfinho”, escreveu Marco, já bastante debilitado. 

O médico morreu na madrugada do dia 16 de fevereiro de 1993, após resistir a três paradas cardiorrespiratórias. Ney deitou-se ao lado do companheiro e sussurrou sua última mensagem: "Marco, chega. Não se esforce mais. Você já sofreu muito. O amor da gente continua", disse o cantor, que revelou que Marco respondeu com um leve movimento de cabeça, antes de partir.

VEJA A CARTA NA ÍNTEGRA:

"Saudade de quando o verde penetrante da amendoeira ao sol servia de abrigo para minhas cabanas e minhas fantasias, do tempo em que eu olhava o mar de cima e, de tardezinha, quando o sol não machucava mais, eu e meu amigo nadávamos e nadávamos, íamos longe nesse mar, éramos levados pelas correntezas e saíamos da água muito longe do lugar onde tínhamos entrado. Íamos os dois, um confiando na confiança do outro, um ancorando o outro. Saudade do tempo em que eu era possibilidade, o mar era possibilidade, minhas fantasias eram possibilidade, e eu era livre. Agora vejo a amendoeira, não mais a que eu subia, mas uma amendoeira onde não posso subir e construir cabanas. Vejo um mar tão longe de mim e das minhas corajosas investidas de golfinho. O tempo me vendo passar, e o espaço pequeno demais para aventuras reais. Os amigos cada vez mais distantes, os dias menos excitantes e sem a bicicletinha que se impregnava de areia salgada das praias que eu e meu amigo costumávamos visitar! Não há mais vento noroeste que impedia a gente de andar e respirar; não há mais para mim microalgas nas noites de lua cheia nem banhos de mar em água morna dos verões em que eu pulava a janela de madrugada e corria para a praia; e nos temporais eu corria na chuva julgando aquele o ato de maior liberdade para qualquer ser. Que saudade da liberdade! E depois da chuva, procurar cobras nos montes de mato que a maré devolvia e procurar algo muito precioso que o tempo poderia me ofertar. Saudade de voltar para casa, fechar as janelas para os insetos não entrarem e dormir feliz. E amanhã cedo acordar para todas as possibilidades".

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