Geral
O relatório final do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), divulgado nesta quinta-feira (23), detalhou como uma sequência de falhas técnicas, operacionais e de fiscalização contribuiu para a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024.
A investigação concluiu que a aeronave enfrentou gelo severo durante todo o voo, teve falha no sistema de degelo e perdeu sustentação após a tripulação ignorar alertas críticos e executar procedimentos incorretos.
Falhas em cadeia levaram à perda de controle
O documento lista 39 conclusões e aponta que o avião entrou em condições severas de formação de gelo ainda na subida, cenário que persistiu até a queda. Ao mesmo tempo, houve falha no sistema responsável por remover o gelo da asa direita.
Durante o voo, o sistema da aeronave emitiu pelo menos oito alertas de baixa velocidade e desempenho degradado. Mesmo assim, os pilotos não executaram os procedimentos de emergência previstos.
O relatório também registra falta de atenção na cabine. Conversas pessoais, sem relação com a operação, desviaram o foco do monitoramento dos instrumentos.
Quando o avião perdeu sustentação, entrando em estol, o copiloto reagiu de forma contrária ao manual, puxando o manche em vez de empurrá-lo, o que agravou a perda de controle.
Problemas de manutenção e cultura operacional
A investigação apontou que o ATR 72-500 foi liberado para voar com falha no sistema de degelo que não foi registrada no diário de bordo, impedindo a correção do problema.
O Cenipa identificou na Voepass uma cultura de “normalização de desvios”, com prática recorrente de não registrar panes ou reportá-las de forma informal para manter as aeronaves em operação.
Antes do voo, a aeronave apresentava ao menos 10 itens com falhas, incluindo problema no limpador de para-brisa. Segundo o investigador responsável, isso impediria a decolagem em condições de chuva.
"Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa", disse o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes.
"A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa", completou.
Fiscalização da Anac é citada
O relatório também aponta falhas na atuação da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Auditorias anteriores já haviam identificado não conformidades na manutenção e no registro de falhas, mas, segundo o Cenipa, essas informações não resultaram em ações capazes de mitigar os riscos.
De acordo com a investigação, o processo de gerenciamento de risco da agência “não foi suficiente para evitar o acidente”, permitindo a continuidade das operações da companhia mesmo com degradação dos níveis de segurança.
Em nota, a Anac informou que vai analisar as conclusões em até 120 dias.
Dinâmica da queda
Com a perda de controle, o avião entrou em parafuso chato — girando sobre o próprio eixo enquanto caía verticalmente — e completou cinco voltas antes de atingir o solo.
A velocidade de descida chegou a 14 mil pés por minuto, o equivalente a cerca de 4 quilômetros por minuto.
Recomendações para evitar novos acidentes
O Cenipa emitiu recomendações à EASA (European Union Aviation Safety Agency), responsável pela regulação aérea europeia, para que sejam repassadas à fabricante ATR. Entre elas estão mudanças nos alertas de desempenho, revisão de procedimentos em condições de gelo, melhorias na caixa-preta e no sistema de monitoramento da aeronave.
Também foram feitas orientações à Anac, incluindo revisão de checklists, melhoria na comunicação entre aeronaves e equipes de terra, aprimoramento da fiscalização e monitoramento da implementação das medidas pela autoridade europeia.
O que diz a Voepass
Em nota, a empresa afirmou:
"A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória.
Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.
A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas IATA.
A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação.
Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário".
Relembre o acidente
O voo 2283 caiu na tarde de 9 de agosto de 2024 em um condomínio de Vinhedo, durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). As 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e quatro tripulantes — morreram.
Após o acidente, o Cenipa iniciou a investigação técnica para identificar os fatores contribuintes, enquanto a Polícia Federal abriu inquérito para apurar eventuais responsabilidades criminais.
Classificação Indicativa: Livre
Despencou o preço
Smartwatch top
Notebook Poderoso
Imperdível
Qualidade JBL