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Sombra Retrô: Gangue dos granfinos

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Os bastidores do passado da sociedade baiana  |   Bnews - Divulgação Divulgação

Publicado em 04/09/2026, às 07h30 - Atualizado às 07h37   Redação



Gangue dos Granfinos

Fim dos anos 80. Uniforme de colégio caro de dia. Porto da Barra ao entardecer. Baiano de Tênis, Marista, Vieira: o pedigrí que a cidade ainda confundia com caráter. Eram bem-nascidos. Eram bem-criados. Eram o pesadelo que a classe média da Graça e da Barra levou anos para admitir que vinha de dentro de casa.
À noite, o baseado. Depois, o outro expediente: assalto. Roubar som de carro era festa. Também tinha estupro. Meninas da mesma faixa, do mesmo bairro, às vezes da mesma festa. O sobrenome protegia de manhã. A alcunha caçava de madrugada: Bolacha, Paquera, Morcegão, Abigail, Macoinha. A cidade murmurou os apelidos mais alto do que a polícia pronunciou os nomes.
Atravessaram a década assim — moleques de tênis branco e fama suja, atormentando quem achava que o perigo morava só no morro. O granfino era o disfarce. A vítima, a vizinha. O final de cada um não saiu em coluna social. Nem todo mundo sabe o destino de cada alcunha. Quase toda mulher daquela geração sabe por que o Porto da Barra, depois de certa hora, deixou de ser só cartão-postal. Quem viveu a Graça naqueles anos ainda reconhece o sorriso. E o silêncio que vinha depois da festa.

Traquinagens de playboy com álcool em gel

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Em Salvador, o frasco sumiu da prateleira e reapareceu a preço de joia. Farmácia da Pituba, da Barra, do Campo Grande: fila do lado de fora, carrinho lotado do lado de quem podia estocar. Codecon notificando abuso. Quem precisava de um tubo para o ponto ou o hospital assistia o porta-malas do SUV sair com o corredor vazio. O antisséptico virou troféu de CEP. O isolamento, para essa turma, nunca foi regra. Foi filtro. Cobertura no Horto. Casa na Graça. Varanda na Barra. O dispenser na entrada, a máscara no bolso, o story sem distância. Em Lauro de Freitas, chegou a ter festa com nome de pandemia. No Condor, a PM bateu na porta. O roteiro horto–barra–graça–vitória fingia que o vírus respeitava condomínio. No Réveillon, a farsa mudou de endereço. Trancoso, Arraial, Caraíva: jatinho na fila do céu, UTI lotada no chão. Dezenas de festas ilegais em casa de luxo. Duzentos numa piscina. Setecentos numa mansão alugada. Gel na bancada, aglomeração na sala. O decreto estadual proibia. O WhatsApp vendia cota.

A pandemia pedia distância. Eles pediram plateia. O álcool em gel era o adereço. A traquinagem, o método. A Bahia inteira via o boletim. Eles viam o pôr do sol. Quem fez fila na farmácia ainda lembra o preço. E o story de quem achou que vírus não atravessava cancela.

O oráculo

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O imortal Jorge Amado estava nos estertores e, dia a dia, a imprensa baiana esperava a inevitável notícia sobre a morte do escritor. Em 6 de agosto de 2001, uma segunda-feira já de final de plantão, pois era noite, chega às redações a notícia do falecimento. Todos vão ao saguão do Hospital Aliança à espera de alguém da família Amado para fazer o comunicado oficial. Mas, para a surpresa geral, quem surgiu para conversar com a imprensa foi o senador Antônio Carlos Magalhães. Falou sobre o amigo, elogiou a trajetória de Jorge, citou alguns de seus principais obras e da importância para a formação de uma ideia de baianidade.

Porém, coletiva vai, coletiva vem, surge uma pergunta que desconcertou o velho ACM. "O senhor leu Cavaleiro da Esperança?". Ao ouvi-la, o senador não titubeou: "li, sim; mas não foi a melhor obra de Jorge Amado". O referido livro tratava da trajetória de Carlos Prestes e rememorava ainda o passado comunista do escritor. Dizem que, ao sair do local após essa pergunta, algumas canelas encontraram o bico do sapato do senador.

Rendez-vous na Ilha

A fachada era família. A praia, passarela. A baía, o quarto. Há muito anos, um local na Ilha de Itaparica virou a República que o verão inventava. De manhã, ministro descia de lancha, apertava a mão na varanda e selava candidatura sob a amendoeira. De tarde, o mesmo convés mudava de pauta. Iate na Coroa. Whisky. Acompanhante que cruzava a baía com discrição de Estado. O que acontecia a bordo não saía no jornal. Saía no casamento. Chamavam de rendez-vous. Francês para não dizer o óbvio. O condomínio fingia recato. A âncora, não. O poder despachava na terra e se despedia na água. A mulher oficial ficava no terraço.

A outra subia a escada da lancha. Havia traição com hora marcada. Havia esposa que já sabia e ia mesmo assim — à festa, ao vizinho, ao amigo que “só ia até o barco”. A ilha era pequena. O segredo, menor. Salinas? Margaridas? Penha? Caixa Prego? Quem não cabia na rigidez da Penha ia a Mar Grande, ao inferninho, à pensão sem letreiro. Dois rendez-vous, uma só hipocrisia: a família na foto da praia, o encontro no casco. Os pescadores falavam em luz na baía. Nem toda luz era folclore. Quem veraneou naqueles janeiros ainda reconhece o motor da lancha à noite. E o silêncio no quarto da frente.

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Livros de ouro na prefeitura de JH

Na gestão JH, a educação de Salvador aprendeu uma matéria que não estava no currículo: livro pago, escola vazia. O Tribunal de Contas não batizou de “Livro de Ouro”. A coluna batiza. Porque ouro foi o que saiu do caixa. Papel foi o que não chegou à sala. Contrato milionário de livro didático, capacitação de professor, software pedagógico, licença que existia na nota e sumia na fiscalização. Serviço fantasma. Superfaturamento. Recurso que atravessava a Secretaria de Educação e não atravessava o portão da municipal. Duas mil quatrocentas e sessenta e cinco licenças pagas. Nenhuma apresentada ao TCM. Um milhão e quatrocentos e vinte mil reais para devolver do bolso — o pedaço que o tribunal conseguiu cravar no software. Ao lado, o Fundeb usado onde não devia: mais de dez milhões sob ação de improbidade. E o convênio-monumento da mesma pasta, a fundação com nome de sociólogo francês: mais de cem milhões previstos, prestação que não fecha, condenação na casa das dezenas de milhões. O livro era o detalhe. O método era o saque. Criança sem volume na mochila. Professor sem treino que o contrato prometeu. Gestor com multa, representação ao Ministério Público e dívida ativa que ainda persegue o sobrenome. O ouro não era dourado na capa. Era o preço de um material que a rede nunca viu. JH vendeu gestão. A auditoria vendeu o estoque. Quem estudou na municipal daqueles anos conhece o sumiço. Quem auditou, o valor. Livro de ouro: pesa no erário. Na prateleira da escola, não pesava nada.

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Classificação Indicativa: Livre

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