Colunas / Na Sombra do Poder
Fábio Vilas-Boas, então secretário estadual da Saúde, atravessou a Baía de Todos-os-Santos com a galera rumo ao restaurante Preta, na Ilha dos Frades. O problema é que o restaurante estava fechado por causa das condições climáticas e de uma recomendação da Capitania dos Portos. Sem conseguir acesso pela porta, Vilas-Boas resolveu inovar no conceito de reserva: pulou uma mureta e entrou no estabelecimento fechado. As câmeras registraram o momento da incursão.
Perdeu a linha
A aventura, porém, não terminou ali. Depois da invasão, veio o xingamento de Fábio para a chef Angeluci Figueiredo, com direito a chamar a dona do restaurante de “vagabunda”. O episódio ganhou as redes, virou crise política e, dois dias depois, acabou com o pedido de exoneração do então secretário. No fim das contas, o ex-gestor conseguiu entrar no restaurante, mas terminou a carreira política de maneira melancólica.

A bicuda de ACM
ACM, o original, também teve seus dias de pavio curto com a imprensa. Em 15 de novembro de 1986, o então ministro das Comunicações foi votar em Salvador e encontrou uma recepção nada amigável: vaias e gritos de “Waldir!”, em referência ao candidato de oposição Waldir Pires. O repórter Antônio Fraga, da TV Itapoan, fez o que jornalista faz: perguntou sobre as vaias. ACM não gostou. Mandou o repórter “respeitar o ministro”, disparou um palavrão e puxou o microfone. Quando Fraga já se afastava, veio o chute. A cena foi registrada pelas câmeras e atravessou décadas como um dos episódios mais emblemáticos da relação nada pacífica do velho ACM com a imprensa. Quase quatro décadas depois, a política mudou, os personagens mudaram, mas a velha receita continua conhecida: pergunta incômoda, político irritado e jornalista que vira alvo.
Bual’amour em Chamas
Nos anos 80 e 90, a Bual’amour era o templo da perdição soteropolitana. Porta seletiva, corda de veludo e um filtro que só deixava passar quem tinha o sobrenome ou a roupa certa. Lá dentro, a elite se via e se deixava ver. Muitos romances e muitas traições nasciam nos sofás e nos cantos escuros da pista. Foi exatamente ali que um antigo empreiteiro famoso, acostumado a mandar nos governos da época e tratado como garanhão pelos seus pares, viveu uma de suas noites mais dantescas. Ele flagrou a amante aos beijos com um playboy da Pituba no sofá da casa. A cena foi tão escancarada que o DJ famoso parou de tocar e a pista ficou em silêncio. Irritado, o empreiteiro quis tirar satisfação com amante, mas o caldo quente da saideira, que estava com a amante, virou arma e foi arremessado no rosto do empreiteiro. O playboy saiu corrido Bual’amour e a amante até hoje sussurra o evento em rodas de amigas.
A Vitória de Cintra e o Papel da Imprensa
Em dezembro de 2001, o desembargador Carlos Alberto Dultra Cintra foi eleito presidente do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), derrotando o desembargador Amadiz Barreto por 18 votos a 10. A vitória encerrou uma hegemonia de aproximadamente dez anos de candidatos alinhados ao grupo político do então senador Antônio Carlos Magalhães e inaugurou uma fase de maior independência da Corte em relação ao Executivo e ao Legislativo. Cintra chegou à presidência prometendo uma “faxina ética” e o fim da submissão do Judiciário aos caciques políticos estaduais. Nesse processo, o jornal A Tarde desempenhou papel fundamental. Em um cenário de polarização da imprensa baiana, no qual o grupo carlista controlava veículos de grande alcance, como a Rede Bahia e o Correio da Bahia, o periódico da família Simões funcionou como canal crítico e contraponto midiático. A cobertura de A Tarde quebrou o monopólio da narrativa dominante, deu visibilidade ao desejo de autonomia dentro do TJBA e registrou com destaque a derrota do candidato apoiado por ACM. Nos anos seguintes, o jornal também amplificou as respostas institucionais do tribunal e as representações judiciais movidas por desembargadores contra críticas públicas do senador, ajudando a sustentar a legitimidade do movimento de independência da Corte perante a opinião pública. A eleição de 2001, portanto, não foi apenas um resultado interno do Judiciário. Foi um momento de ruptura política e institucional que contou com a imprensa como elemento decisivo na consolidação da nova correlação de forças.

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