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Entenda o motivo da exaustão das mulheres de cuidarem emocionalmente dos homens

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As mulheres tornam-se terapeutas não oficiais, realizando todo o trabalho emocional  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Freepik
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 30/07/2025, às 12h39



Homens héteros que raramente se abrem com alguém além de suas namoradas ou esposas. Suas parceiras tornam-se terapeutas não oficiais, realizando todo o trabalho emocional.

A especialista em terapia para homens, Justin Lioi, assistente social clínico licenciado no Brooklyn, em Nova York, conta ao New York Times que quando recebe um novo paciente, uma das primeiras perguntas que faz é com quem eles têm conversado sobre o que está acontecendo na vida deles. E a resposta frequentemente recaem sobre elas.

O papel específico delas tem um nome. Trata-se do mankeeping (“cuidar dos homens”). Esse termo foi criado por uma pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Stanford, Angelica Puzio Ferrara, que viralizou na internet. Refere-se ao trabalho que mulheres fazem para atender às necessidades sociais e emocionais dos homens em suas vidas, apoiando os parceiros nos desafios cotidianos e nos conflitos internos e estimulando eles a encontrarem os amigos.

“O que venho observando na minha pesquisa é como as mulheres têm sido solicitadas ou esperadas a assumir mais trabalho para se tornarem uma peça central, senão a peça central, do sistema de apoio social de um homem”, afirma a pesquisadora, que pontua que esse tipo de dinâmica não acontece em todos os relacionamentos.

O mankeeping chegou a “destruir” namoros e levar mulheres ao celibato, de acordo com alguns artigos. 

Não é apenas intimidade

Um artigo publicado sobre mankeeping em 2024 por Angelica Ferrara, que pesquisa amizades masculinas no Instituto Clayman de Pesquisa de Gênero da Universidade Stanford, e o assistente de pesquisa Dylan Vergara, investigaram o motivo de alguns homens terem dificuldades em formar laços próximos.

Em uma pesquisa de 2021, 15% dos homens afirmaram não terem nenhum amigo próximo, em comparação a 3% em 1990. O mesmo relatório mostrou que, em 1990, quase metade dos jovens afirmaram procurar os amigos ao enfrentar um problema pessoal. Já vinte anos depois, pouco mais de 20% diziam o mesmo.

Ferrara afirma que as mulheres "tendiam a ter vários pontos de apoio aos quais recorriam diante de problemas", enquanto os homens "iam, na maioria das vezes, só até elas”. A pesquisadora enxerga o mankeeping como uma importante extensão do conceito de kinkeeping, que trata-se do trabalho de manter a família unida, algo que, de acordo com as pesquisas, recai desproporcionalmente sobre as mulheres.

Entrevistada pelo New York Times, Eve Colson Tilley, de 37 anos, conta que sentiu um profundo alívio ao se deparar com o conceito nas redes sociais. Ela mora em Los Angeles, e está feliz em um relacionamento de sete meses com o namorado, ao qual ela descreve como um homem maduro emocionalmente, atencioso e engraçado. 

Ela percebeu que oferece uma boa base de apoio emocional e social e, apesar de ambos serem advogados ocupados, ela tende a assumir a liderança nos planos. Tilley já esteve com os amigos próximos do namorado algumas vezes e ele já encontrou os dela várias vezes por semana. Seu papel como diretora social de fato do relacionamento envolve também questões mais sérias.

“Quando vamos conhecer os pais um do outro? Quando vamos fazer nossa primeira viagem juntos? E se toda essa responsabilidade de planejar recai sobre mim, então também sinto que a culpa, caso algo dê errado, será toda minha”, afirma a advogada.

Ela conta que o termo fez com que ela sentisse um desequilíbrio. A advogada cria conteúdo no Tiktok e compartilhou um vídeo sobre o tema. “Sinto que sou responsável por trazer a luz ao relacionamento”, desabafou.

O parceiro, Glenn, de 37 anos, disse que sua reação ao ouvir a namorada foi acreditar que aquilo parecia algo condizente com que ele já tinha percebido em outros relacionamentos heterossexuais e se perguntou se isso era ruim.

“Estamos em um momento em que mais mulheres estão falando sobre como estão exaustas com essa dinâmica”, explica Justin Pere, diretor de uma clínica de terapia em Seattle voltada para relacionamentos e questões masculinas.

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O problema do isolamento social dos homens

Os especialistas explicam que o termo não deve ser visto como uma crítica aos homens heterossexuais, mas um alerta sobre a importância de os homens investirem emocionalmente em suas amizades.

“A verdade é que ninguém consegue suprir todas as necessidades emocionais de outra pessoa”, afirma Tracy Dalgleish, psicóloga e terapeuta de casais em Ottawa. “Os homens também precisam desses canais. Eles precisam de conexão social. Precisam ser vulneráveis com outros homens”.

Justin Pere explica que não se trata de mudar radicalmente, mas de aprofundar amizades que “pode acontecer em pequenos passos, mais gerenciáveis”. Um exemplo que o diretor sugere é de compartilhar algo novo sobre si mesmo com um amigo que já possui, ou convide esse amigo para fazer algo fora do contexto habitual (um conceito de fortalecimento de amizade conhecido como repotting, ou replantio).

Se os clientes homens se mostram relutantes em se abrir dessa forma, Pere explica que desenvolver relacionamentos não se trata de substituir o relacionamento amoroso, mas de fortalecê-lo ao “ampliar a base emocional da sua vida por meio de amizades”.

Algumas dificuldades para fortalecer os laços são estruturais, segundo Richard Reeves, presidente do American Institute for Boys and Men (Instituto Americano para Meninos e Homens), e autor de Of Boys and Men (Sobre Meninos e Homens). Ele conta que muitas instituições e espaços onde os homens antes criavam vínculos naturalmente se deterioraram, como igrejas, grupos cívicos e até mesmo o ambiente de trabalho. 

“Antes, os homens podiam simplesmente estar nesses espaços institucionais, e a conexão acontecia em torno deles. Isso não acontece mais com tanta frequência. Os homens precisam fazer mais, serem mais assertivos. Estou percebendo isso até na minha própria vida”, afirmou.

Alívio

Para o casal Tilley e Glenn, conversar abertamente sobre mankeeping ajudou a aliviar a carga emocional dela. O namorado admitiu que, em parte, achava que a namorada simplesmente gostava de tomar as rédeas da vida social. Mas quando ela explicou como era cansativo ser a gestora emocional padrão no relacionamento, ele começou a entender por que as coisas pareciam desequilibradas.

“Tenho feito mais esforço para tentar equilibrar a balança”, admitiu.

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