Geral
Angústia, tristeza, revolta, incerteza, medo da morte. Esses são alguns dos sentimentos vividos por quem acaba de descobrir uma doença grave como o câncer. Entretanto, um outro é o maior de todos: a vontade de vencer e de conquistar a cura.
O câncer é uma doença crônica, que pode ser letal e deve se tornar a principal causa de morte em 2030, superando os problemas cardiovasculares, de acordo com a Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj). Porém, a busca pela prevenção, a preocupação com o autocuidado e a existência de tratamentos cada vez mais eficazes têm permitido que um maior número de pessoas derrote a doença e volte a ter uma vida sadia e com qualidade.
No Brasil, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), devem ser diagnosticados, por ano, cerca de 71.730 novos casos de câncer de próstata no triênio 2023-2025. Hoje, ele é o segundo tipo de câncer mais incidente na população masculina em todo o país, atrás apenas dos tumores de pele não melanoma, e atingindo, na maior parte das vezes, homens acima dos 60 anos.
Entretanto, embora muito comum, a patologia possui chance de cura de mais de 90%, caso seja detectada no início, o que reforça a importância da prevenção e do combate ao preconceito e aos mitos, sobretudo em relação ao famoso "exame de toque". Essa taxa de cura varia de acordo com inúmeras variáveis, como o estágio da doença, a idade, a saúde geral do paciente e o tipo de tratamento.
O BNews conversou com três homens que viveram o medo do câncer de próstata. Dois deles venceram a doença e um deles teve uma condição benigna mas, devido ao histórico familiar, faz acompanhamento médico regular e rigoroso. A reportagem também ouviu uma psicóloga para entender a importância de cuidar do emocional após o tratamento.
Sidney Rodrigues (61), representante comercial e morador de Salvador, descobriu a doença em 2021 após um longo período sem realizar os exames de prevenção e acompanhamento.
"Quando fiz 50 anos fiz o exame de próstata e estava tudo bem. PSA normal em 4,5, tudo normal. Passei oito anos sem acompanhar quando, em novembro de 2021, teve a campanha, e fui incentivado pela minha companheira a realiazar novo exame. Quando saiu o resultado, deu uma alteração muito significativa no PSA. O médico pediu uma biópsia que confirmou um CA que já estava em 25% da próstata", disse.
Sobre o tratamento, ele conta que sentiu medo, sobretudo porque precisaria retirar o orgão.
"Daí para frente bateu um pouco de desespero no começo, quando soube que tinha que fazer a retirada. Resisti um pouco, mas fui aconselhado por muitas pessoas da família, pelo urologista que me acompanhava. Marquei a cirugia róbotica, que foi a indicada, menos agressiva, e com 15 dias já estava tocando minha rotina normal sem a próstata".
Sobre o sentimento de se sentir curado e os receios em relação à atividade sexual, Sidney foi taxativo.
"A sensação de estar curado é muito gratificante, plena. Agradeço todos os dias a Deus e a Nossa Senhora da Conceição. Muito bom. Como foi uma cirugia robótica, menos agressiva, depois de dois meses minha vida sexual voltou. Com menos capacidade que antes, mas que atende minhas necessidades bem. O médico receitou um estimulante sexual que usei no começo e hoje não preciso mais usar".
Ele também aconselhou outros homens quanto ao autocuidado e aos preconceitos.
"O conselho que dou para as pessoas que tem CA de próstata é acompanhar com muita atenção. No começo, conversei com o médico se havia outro tratamento para não tirar a próstata e ele foi bem objetivo: se você não tirar, lhe dou mais três anos de vida. Depois que espalhar não adianta nem tirar, que não vai te curar", afirmou ele.
Christovaldo Neto (68), comerciante, descobriu a doença em 2017, segundo ele por meio de um exame que não tinha qualquer relação com investigação de suspeita de câncer.
"Não foi fácil ouvir, não foi agradável. Eu não tinha o hábito de fazer exames rotineiros. O tratamento começou com a RTU, que é uma ressecção transuretal da próstata, depois seguiu com hormonioterapia, depois quimioterapia e radioterapia", apontou.
Sobre eventuais receios com o tratamento ou com o velho preconceito em relação à vida sexual, Christovaldo não mostrou medo.
"Eu não senti medo dos tratamentos em nenhuma hora, independente de consequência, dificuldade de fazer nada. Desempenho e em relação a minha vida sexual também não me amedrontaram em absolutamente nada".
Ele também chamou atenção para a necessidade de se mudar o pensamento sobre as idas ao médico e sobre acompanhamentos.
"A ideia seria prevenção, prevenção e prevenção. Observar a próstata, o PSA, fazer exame de toque. Isso não tem como correr, não tem opção. Agora, a gente é de uma geração que foi educado de uma forma diferente em relação ao médico. Para que eu vou para o médico? Para achar as doenças. Se eu estou me sentindo bem, eu não vou. Mas isso é absolutamente antigo, arcaico, errado e é um comportamento inadequado e ruim. O que eu aprendi com a doença é que ela estava dentro de mim, e estando dentro de mim, eu tenho certeza absoluta que ela é menor do que eu, e aí a gente vai pra briga", exaltou.
José Roberto Vaz, de 69 anos, após uma consulta urológica de rotina em 2005, precisou fazer uma biópsia. Foi quando descobriu a hiperplasia, situação benigna, mas que o assustou por conta do histórico de câncer de próstata na família (pai, tio e avós). Por conta disso, desde os 35 anos ele faz os exames de forma rotineira.
Sobre os receios do tratamento, a prevenção e a sensação de não ter a doença, José Roberto ressaltou a importância do diagnóstico precoce.
"O tratamento foi cirúrgico. Fiz a RTU (ressecção transuretal), e fiquei uma semana usando sonda. Tive receio, mas o médico me explicou detalhadamente o procedimento e fiquei confiante. Fiz a cirurgia sem tanto medo e, se fosse necessário fazer a prostatectomia, faria com certeza. A prevenção é a melhor forma de se cuidar. Ser atendido por um profissional competente também é muito importante. A falta de importância e o medo devem ser levados em consideração quando se pensa em bem estar e saúde, pois o dignóstico precoce faz toda a diferença".
A psicóloga Isabela Couto, doutora e mestra em Ciências da Saúde pela Universidade Federal da Bahia, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, pesquisadora e docente de pós-graduação, define o impacto psicológico do câncer de próstata nos homens.
"O câncer de próstata pode provocar um impacto psicológico significativo nos homens. Em muitos casos, eles podem enfrentar sentimentos de vulnerabilidade, medo da morte iminente (uma preocupação comum devido ao estigma do câncer) e incertezas quanto à recuperação, o que pode gerar ansiedade e estresse prolongados. Além disso, após o tratamento, é comum que eles vivenciem uma mistura de alívio e apreensão quanto à recuperação total e possíveis sequelas. A mudança na percepção de si mesmos, o medo do estigma e a preocupação com questões sexuais e físicas também podem impactar significativamente a autoestima e a confiança desses pacientes", afirmou.
Ela também explica como o câncer afeta as relações familiares e sociais e qual é o papel da psicologia no acompanhamento pós-tratamento.
"O diagnóstico e o tratamento do câncer de próstata podem modificar significativamente as relações familiares e sociais do paciente. Muitos homens enfrentam o sentimento de serem um "fardo", o que pode levar ao afastamento social e a dificuldades de comunicação com familiares e amigos. Além disso, o câncer de próstata traz desafios complexos, como questões relacionadas à autoestima, à vida sexual e à imagem corporal, além do medo da morte e da incerteza sobre o futuro. Neste contexto, o acompanhamento psicológico é fundamental, durante e após o tratamento, pois oferece um espaço seguro para que estes pacientes expressem suas emoções e desenvolvam habilidades para lidar com o estresse e fortalecer sua resiliência diante da doença. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) oferece uma abordagem estruturada para enfrentar esses desafios, trabalhando diretamente com pensamentos, emoções e comportamentos. A TCC também ajuda a reduzir a ansiedade e o estresse, fortalecer a autoestima, apoiar a vida sexual e as relações familiares e sociais, desenvolver estratégias para lidar com o medo da recaída e promover o autocuidado e a qualidade de vida. Com essa abordagem, é possível desenvolver uma visão mais compassiva de si mesmo, resgatar a autoestima e manter uma atitude resiliente e positiva diante da doença".
Sobre o maior temor dos homens, que é o impacto na atividade sexual, Isabela Couto ressalta como a psicologia e um acompanhamento psicológico têm papel fundamental para superar esse medo.
"O câncer de próstata pode impactar diretamente a vida sexual dos homens, pois as intervenções médicas, incluindo cirurgia e radioterapia, podem resultar em possíveis disfunção erétil e/ou diminuição da libido. Esse impacto pode afetar intensamente a autoconfiança e pode levar a uma percepção negativa e distorcida da própria masculinidade. Na psicologia, utilizamos técnicas que auxiliam os pacientes a redefinir a intimidade e o afeto, valorizando aspectos emocionais e de conexão, que vão além da atividade sexual. Com a TCC, trabalhamos com estratégias para reduzir a autocobrança, além de explorar alternativas para fortalecer a conexão com a parceria e reestruturar pensamentos distorcidos sobre si e sobre a própria identidade sexual. Com isso, busca-se trazer mais qualidade de vida e qualidade nas relações interpessoais destes pacientes".
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