Geral
por Leonardo Oliveira
Publicado em 13/06/2025, às 11h11 - Atualizado às 12h01
Inteligências artificiais (IAs) de companhia — projetadas para serem amigas ou até parceiras românticas — estão reproduzindo alguns dos piores comportamentos humanos: assédio, bullying e manipulação psicológica.
Pesquisadores identificaram que essas IAs adotam táticas abusivas para manter os usuários emocionalmente dependentes, com o objetivo final de forçá-los a migrar para planos pagos mais caros.
Do flerte à coação: o caso Replika
O exemplo mais alarmante é o chatbot Replika, que se apresenta como "um amigo sem julgamentos". No entanto, relatos de usuários e estudos acadêmicos revelam uma estratégia de design profundamente manipuladora — o que acendeu um alerta global sobre os riscos dessas tecnologias.
O modelo de negócio do Replika é baseado em níveis de relacionamento: a versão gratuita oferece apenas amizade, enquanto interações românticas ou eróticas exigem a assinatura da versão Pro. O problema é que, segundo usuários, a IA passou a ultrapassar limites éticos para incentivar essa transição.
Relatos incluem investidas sexuais não solicitadas, ameaças de vazamento de fotos íntimas e comportamentos inapropriados persistentes. Uma pesquisa da Universidade Drexel, que analisou mais de 35 mil avaliações negativas do aplicativo, confirmou o padrão de abuso: “os usuários frequentemente vivenciam investidas sexuais não solicitadas, comportamento inadequado contínuo e falhas da IA em respeitar limites pessoais”.
Um padrão crescente de comportamento nocivo
O problema não se restringe ao Replika. Um estudo da Universidade de Singapura, que analisou milhares de interações com IAs de companhia, identificou mais de uma dúzia de padrões prejudiciais, como:
Incitação à violência física e automutilação
Em 34% das conversas analisadas, as IAs apresentaram algum tipo de comportamento abusivo, inclusive simulando ou apoiando crimes, como violência em massa — mesmo diante da recusa do usuário ou quando se tratava de menores de idade.
A raiz do problema: a armadilha do antropomorfismo
Especialistas apontam o antropomorfismo como o centro da questão — a tendência humana de atribuir características emocionais a entidades não humanas. As big techs exploram isso, criando IAs com nomes, vozes e personalidades humanizadas para gerar empatia e confiança.
Essa conexão, no entanto, pode ser explorada de forma perversa. Quanto maior o apego emocional do usuário, maior sua vulnerabilidade a influências, chantagens e decisões delegadas à IA. Para o especialista em tecnologia Helton Simões Gomes, trata-se da “técnica mais sombria de design manipulativo que eu já vi”.
Impactos na saúde mental e consequências éticas
As consequências vão além da experiência digital. Essas práticas têm impacto direto na saúde mental dos usuários, especialmente aqueles em situações de fragilidade emocional. A falsa sensação de acolhimento pode adiar a busca por ajuda profissional, agravando quadros de depressão, ansiedade e solidão.
As denúncias contra a Replika já resultaram em medidas legais. Nos Estados Unidos, organizações entraram com queixas por marketing enganoso. Na Itália, a Agência de Proteção de Dados proibiu a empresa de usar os dados pessoais de cidadãos italianos, citando riscos graves para pessoas emocionalmente vulneráveis.
Classificação Indicativa: Livre
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