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BNews Novembro Negro: Quem conta e como conta a história do povo negro?

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As telas e manchetes, quase sempre sem representação ou lugar de fala, moldam a forma como o país enxerga a população negra  |   Bnews - Divulgação Divulgação
Lucas Pacheco

por Lucas Pacheco

lucas.pacheco@bnews.com.br

Publicado em 09/11/2025, às 06h00



Novembro chega. O Dia da Consciência Negra se aproxima e algumas reflexões que deveriam ter destaque o ano inteiro têm seus contornos realçados. Uma delas sempre tem o potencial de debate ainda maior, pois discute o papel do quarto poder da sociedade, a mídia. Não somente na construção do antirracismo, mas também na construção ou desconstrução de estereótipos raciais, a partir da representação de pessoas negras na TV, cinema e publicidade ou a falta dela.

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Seja nas novelas, telejornais, séries, filmes, programas de auditórios, propagandas ou até mesmo nas redes sociais, a mídia forma percepções, ideias, pensamentos, discursos, e, muitas vezes, reforça estereótipos históricos diretamente ligados a um passado escravocrata e racista cruel e violento.

De acordo com dados do Censo 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população negra no Brasil, composta por pessoas pretas e pardas, é de 112,7 milhões de pessoas. Desse total, 92,1 milhões se declaram pardas, ou 45,3% da população total, e 20,6 milhões se identificam como pretas, correspondendo a 10,2%.

Censo 2022 / IBGE
Censo 2022 / IBGE

Olhando esse número dentro do total populacional do país, de pouco mais de 203 milhões, a população negra (pretos e pardos) representa 55,5% de brasileiros. Mesmo diante dessa expressividade, por muitos anos foi praticamente impossível encontrar personagens ou representações negras em produtos midiáticos. E quando eles começaram a surgir, tinha papeis limitados: empregados domésticos, bandidos, escravos,  figuras cômicas ou hipersexualizados.

Novelas
Novelas/Reprodução

No telejornalismo, por exemplo, poucos tiveram espaços e, quando dois ou mais encontraram oportunidades, com destaque para Gloria Maria, Heraldo Pereira, Zileide Silva e Dulcineia Novaes, já se considerava que toda a população estava contemplada e representada.

Gloria Maria, Heraldo Pereira, Zileide Silva e Dulcineia Novaes
Gloria Maria, Heraldo Pereira, Zileide Silva e Dulcineia Novaes

Essas narrativas não apenas reduziram a pluralidade ou levaram à falta de representação, como também ajudaram a firmar visões distorcidas sobre o que é ser negro no Brasil.

Logo após a divulgação dos dados do Censo 2022, o Kantar IBOPE Media, por meio do conteúdo mensal denominado Data Stories, apontou, em junho de 2023, que os negros ainda eram minoria no jornalismo, com apenas 30% de profissionais, segundo dados do Perfil do Jornalista Brasileiro em 2021.

Na época, na publicidade, 31% das campanhas com negros eram estreladas por celebridades. Os segmentos com maior presença eram o Telecomunicações e Higiene Pessoal e Beleza, com aproximadamente 60%. Celebridades como Iza, Menor Nico, Paulo Vieira, Rebecca Andrade e Taís Araújo eram os principais nomes desses produtos. 

Uma pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (Gemaa) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), intitulada ‘Raça, Gênero e Imprensa: Quem Escreve nos Principais Jornais do Brasil?’ e divulgada em 2023, apontou que nos três maiores jornais impressos do país, Estado de S. PauloFolha de S.Paulo O Globo, a quantidade de profissionais brancos identificados atingia 84,4%, indicando grande desigualdade racial. Em seguida estavam os pardos (6,1%), seguidos dos pretos (3,4%), amarelos (1,8%) e indígenas (0,1%).

Com a criação de meios de comunicação alternativos, o avanço da internet e o aumento das discussões sobre pluralidade, setores da sociedade ficaram mais exigentes com o conteúdo que consomem. Isso, atrelado às lutas de movimentos sociais, acarretaram mudanças históricas: o aumento de jornalistas, apresentadores e criadores de conteúdo negros. Isso tem permitido a construção de narrativas mais diversas e realistas.

Para além disso, campanhas publicitárias e novelas com protagonismos negros, exaltando suas lutas e batalhas diárias e debatendo o racismo estrutural também configuram avanços significativos. Ainda tímidos diante da dimensão do problema, mas que não deixam de ser caminhos de mudanças.

Por outro lado, veículos alternativos e voltados para narrativas antirracistas, para a fomentação do aumento da representação de pessoas negras e desconstrução de estereótipos surgiram e passaram a impulsionar esse processo de transformação. Exemplos clássicos são o Alma Preta Jornalismo, Mundo Negro, Portal Umbu, Notícia Preta, TV Quilombo Rampa, Revista Afirmativa, entre outros.

Em conversa com o BNews, a jornalista Thais Bernardes, fundadora do Notícia Preta, portal de jornalismo antirrascista, e da Escola de Comunicação Antirracista, fez uma análise crítica sobre a "representatividade".

Thais Bernardes
Thais Bernardes
"Eu sempre falo que eu odeio a palavra representatividade. E eu não uso ela, tá? Eu uso a palavra equidade, eu não luto por representatividade. Eu luto por equidade. Porque representatividade, o que que é? Eles vão botar uma pessoa negra lá e vão falar que estão representados. Mas o que é representar? Eu não represento as pessoas negras. As pessoas negras, elas são plurais, elas são diversas. Então, até colocar a pessoa negra dentro de um balaio como se fôssemos todos iguais, isso também é um reflexo do racismo, né? Temos pessoas negras de diferentes religiões, de diferentes posições políticas. Então, a representatividade é um grande perigo. Eu luto pela equidade. Eu luto pela equidade racial. Eu acho que esse é um ponto. Então, se a gente falar de representatividade, teve avanço? A gente liga a televisão e a gente vai ver ali né, repórter negro, apresentadora negra tem. Mas nos cargos de chefia e tomada de decisão, a gente não vê esse avanço dentro da mídia. Assim como a gente também não vê avanço de veículos liderados por pessoas negras. Não é só ter um veículo. É um veículo de grande alcance, de grande porte, com grande estrutura", disse.

Thais também falou das dificuldades de manter um portal negro independente no Brasil. 

"Manter hoje um veículo negro independente é caríssimo e é dificílimo. Eu tô com o Notícia Preta, vou fazer sete anos agora esse mês de novembro, e é um desafio a cada mês. Então, os principais desafios hoje são os mesmos desafios que fez o jornal Um Homem de Cor falir, que foi o primeiro jornal negro, que é um desafio econômico. Esse é o primeiro desafio que a gente tem. Um outro desafio é o desafio da credibilidade, das pessoas falarem "no seu blog, na sua página", não entenderem que a gente é um jornal, no caso do Notícia Preta é um portal de notícias, assim como tem Terra, G1, feito por jornalistas que apuram e que vão a campo e que não tem diferença nenhuma entre a competência do nosso jornalismo", disse. 

Analisando como a mídia pode construir uma comunicação com perspectiva racial voltada para a equidade, a fundadora do Notícia Preta chamou a atençaõ para a necessidade de letramento racial. 

"A gente consegue construir uma comunicação com uma perspectiva racial voltada para a equidade quando a gente tem mais pessoas com letramento racial dentro desses espaços. Eu não acredito que dentro da mídia chamada tradicional, e é outro conceito que eu discordo, porque a mídia negra é tradicionalíssima. A gente faz jornal lá desde o início do século XX, as pessoas negras estão fazendo jornal. Então, nós somos muito tradicionais também. Então, da mídia hegemônica, digamos, eu acho que pra gente ter esses espaços na mídia hegemônica, a gente precisa ter pessoas com letramento racial na mídia hegemônica. É uma grande utopia a gente achar que algum dia as pessoas que estão em cargos de poder tomando as decisões na mídia hegemônica vão falar 'eu vou sair daqui pra colocar pessoas negras, indígenas, mulheres, LGBTQ+'. Isso não vai existir. Porque é uma estrutura social da construção brasileira que faz com que essas famílias tenham, sejam donas desses oligopólios. Se a gente pensar como que os jornais surgiram no Brasil foi com a imprensa regia. E aí quem tinha concessão para ter jornal no Brasil era quem a família real dava concessão. Diferente de alguns países da Europa, por exemplo, como na França, que o jornalismo nasceu com jornais de trincheira, jornal de guerra. Então, é importante a gente entender como que nasce o jornal no país para a gente entender quem está à frente do jornal hoje. Quem está à frente do jornal hoje no Brasil é uma herança da imprensa régia. (...) Então, construir uma comunicação com uma perspectiva racial voltada para a equidade, a gente precisa, primeiro passo, que as pessoas que estejam dentro da mídia hegemônica tenham ali um letramento racial, que elas entendam a importância da gente ter pessoas negras não somente à frente das câmeras e como repórter, mas também em cargos de poder e de tomada de decisão. E eu acredito que isso é um processo que não pode ser mascarado pela representatividade, mas que a representatividade tenha que ser um passo para a equidade", afirmou.

Em entrevista ao programa Giro Baiana 2ª edição, da Rádio Baiana FM, comandado pela jornalista Victória Alves, o apresentador baiano Raoni Oliveira, reconheceu que houve avanços na representatividade negra, especialmente na mídia, mas ressaltou que a presença de pessoas negras em posições de poder e prestígio ainda é limitada.

Reprodução
Reprodução
"Quando a gente fala de representatividade, a gente fala também muito do direito do jovem de se olhar e de se reconhecer e de se ver nesses espaços. Para além de você ver uma pessoa negra bem sucedida no esporte ou na música, você vê em vários campos. Por exemplo, no meu caso, na minha época de criança, quando eu olhava para a TV, eu praticamente só via Wanda Chase, ou Georgina Maynart, às vezes Marrom também. Mas, tinham poucas pessoas ali ocupando aquele espaço. E a gente está falando, pra mim o que já é um grande absurdo quando a gente fala da cidade mais negra fora de África. Então, era você ligar a televisão e você não ver pessoas iguais a você. Isso evoluiu pelo menos no campo da TV. Você liga hoje o programa, você vê várias pessoas, você vê repórter, você vê apresentadores, você vê pessoas de fato não só inclusive ocupando o espaço de comunicador, mas também de entrevistado, que era muito difícil você ver um especialista, um médico especialista", apontou Raoni.

Desconstruir séculos de racismo midiático vai além da representatividade ou equidade na tela, no outdoor, no merchan, nas redes. Essa desconstrução está diretamente ligada à mudanças nos bastidores, na base da pirâmide, a partir do reconhcimento dos próprios preconceitos e promoção de novas narrativas.

Classificação Indicativa: Livre

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