Geral
por Vagner Ferreira
Publicado em 26/09/2025, às 08h42 - Atualizado às 08h45
No finalzinho do mês de setembro, fiéis do catolicismo e das religiões de matriz africana celebram Cosme e Damião, duas figuras que carregam diferentes significados em cada tradição.
Para a Igreja católica, são gêmeos, médicos e santos reconhecidos pela fé e pela dedicação em curar os mais pobres - a celebração acontece no dia 26 deste mês. Já nas religiões de matriz africana, os dois são associados aos ibejis ou erês, divindades que representam a infância, a pureza e a alegria - sendo comemorado no dia 27.
Conheça a história
“Na tradição cristã, Cosme e Damião eram irmãos gêmeos, originários da Síria, que se tornaram médicos e praticaram a medicina sem aceitar pagamentos, um ato de caridade e devoção a Cristo. Por serem cristãos, foram perseguidos pelo Imperador Diocleciano, sofrendo martírio e sendo executados no início do século IV. Atualmente, são venerados como santos, padroeiros dos médicos, farmacêuticos e das faculdades de medicina”, disse ao BNews o Padre Juan Mário Ferreira, que também é professor da Rede Pública Estadual.
De acordo com o padre, a Igreja Católica mantém um diálogo inter-religioso com o Candomblé desde a década de 1960. “Esse diálogo é permeado por respeito e aceitação de que fora do Cristianismo também existe salvação, pois todas as religiões trazem as sementes do Verbo. Na Ortodoxia Católica, essa visão é vista de forma fraterna, sem descartar a possibilidade do Batismo”, continuou o líder católico.
A tradição se fortaleceu ao longo dos anos, marcada pelo sincretismo religioso. “O sincretismo entre os erês, os ibejis ou rorôs, termo que depende da nação a qual esteja inserido, deu-se a partir do contexto de colonização no processo de escravidão do Brasil, quando os povos africanos eram forçados a negar os seus cultos e as suas tradições religiosas. Como estratégia para continuar reverenciando as nossas divindades sem sofrer perseguições, o nosso povo usou as semelhanças entre os santos e os orixás”, explicou ao BNews a ekedji Jandira Mawusí Santana, que é ekedji de Olisá do Terreiro do Bogum.
“Os orixás gêmeos são muito ligados à infância, à alegria, à vivacidade, à fertilidade e à proteção das crianças. A forma como são vistos nas duas doutrinas não são idênticas, porque o catolicismo e os santos são adultos, enquanto nos terreiros são entidades infantis ligadas à essência e à pureza das crianças e está associada muito à brincadeira, ao doce, à alegria, às gaiatices, que estão presentes no espírito das crianças”, continuou.
Para o padre, no entanto, não há o sincretismo, mas existe muito respeito. "Dentro da Tradição Católica Ortodoxa não há sincretismo. No entanto, dentro da nossa concepção, existe o respeito e a tolerância, desde quando saiba diferenciar uma coisa da outra, sem prescindir do sagrado presente em cada lado", disse.
A ekedji, por sua vez, entende que esse diálogo nasce de um processo histórico. "Durante todo o processo da nossa essência e da nossa tradição, de perseguição, a gente usou a resistência, a inteligência e a sabedoria para se conectar com o nosso sagrado”, lembrou ela.
Caruru dos gêmeos
Mais do que apenas tradições religiosas, as celebrações também ganharam aspectos culturais, com comidas típicas, doces, festas e rituais, em uma devoção que atravessa gerações. Aqui na Bahia, por exemplo, as comidas típicas, como o tradicional Caruru que é servido primeiro a sete meninos (as), foi reconhecido, em 2024, como patrimônio imaterial do estado.
A cozinheira Raimunda Ferreira faz Caruru para São Cosme e Damião todos os anos após uma promessa que fez quando o filho nasceu com uma complicação. “Eu prometi para São Cosme e Damião quê daria pra ele o Caruru por 21 anos caso o meu filho vingasse. E a minha graça foi concedida, eu continuo dando Caruru até hoje", contou ao BNews.
"Centenas de pessoas comparecem ao local para comer o caruru e eu tenho um imenso prazer e orgulho de realizar essa confraternização de um dia lindo", prosseguiu. "Sou grata pela minha graça. Amém, axé", continuou.
Para a ekedji, a distribuição das comidas é uma forma de alimentar a energia dos orixás, de fortalecer a comunidade, de recarregar o axé e o sagrado como uma forma de agradecimento, alegria, fartura e vitalidade. “A experiência possui um significado ritualístico profundo, de que não é apenas um ato de partilha, mas está ligado à oferenda, ao fortalecimento da energia dos orixás crianças”, explicou ela ao BNews.
“Dentro dos terreiros de Candomblés, essa tradição foi mantida através da oralidade, dos rituais coletivos, das festas de Cosme Damião, através do preparo do Caruru, da distribuição dos doces, da presença de muitas crianças, que reforça a continuidade do culto, sem perder também a presença dos mais velhos que se fazem presente nesta cerimônia”, continuou, ressaltando a importância de preservar a memória ancestral.
Apesar da tradição popular, o padre explica que dentro da tradição Cristã, não há associação do caruru com os santos gêmeos. “Porém dentro do sincretismo religioso, o povo criou essa prática, exatamente por associar eles aos Orixás Ibeji”, ressaltou o líder católico.
Como um ato de fé e resistência, a ekedji destaca, por fim: “O nosso povo teve a sabedoria de continuar com a tradição e de fazer essa ligação, de fazer esse sincretismo dar certo, fortalecendo as identidades, a cultura afro-religiosa brasileira, assim, resistindo também ao não apagamento histórico dos nossos povos, para manter o nosso axé vivo e resistente”.
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