Meio Ambiente

ESG além do discurso: Como uma instituição realmente faz a diferença?

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ESG ganha força quando deixa de ser conceito e passa a operar na prática  |   Bnews - Divulgação Ilustrativa / Freepik
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 29/06/2026, às 05h00



Quando falamos de ESG (Environmental, Social and Governance ou, em português, Ambiental, Social e Governança) é importante ressaltar que o tema ganha força quando deixa de ser conceito e passa a operar com meta, indicador e impacto mensurável. Em entrevista ao BNews Junho Verde, duas instituições mostram que isso tornou-se prática e realmente faz a diferença. 

De um lado, a So+ma, startup de impacto socioambiental, usa tecnologia, incentivo econômico e ciência comportamental para ampliar a reciclagem e fortalecer cooperativas. Do outro lado, o Tribunal de Justiça da Bahia estruturou uma política de descarbonização com metas de longo prazo, expansão de energia solar e formação interna em governança ambiental.

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Em entrevista ao BNews Junho Verde, a fundadora e CEO da So+ma, Cláudia Pires, resumiu a lógica da empresa de forma direta: “A So+ma é um negócio de impacto, já nasceu da prática”. Segundo ela, o primeiro programa começou no Capão Redondo, em São Paulo, levando valor econômico e impacto ambiental para o território, e a mesma lógica hoje orienta a expansão do modelo em outras cidades.

A So+ma afirma ter criado o primeiro programa de incentivo à reciclagem do Brasil, unindo aplicativo, recompensa e operação com cooperativas para estimular a destinação correta de resíduos. Pela dinâmica da plataforma, os participantes entregam materiais recicláveis em pontos de recebimento, acumulam pontos e trocam por produtos e serviços, enquanto cooperativas recebem mais volume, melhor qualidade de material e incremento de renda.

Segundo informações de Cláudia Pires ao BNews Junho Verde, a empresa está presente em seis cidades e já reúne 65.199 famílias participantes. Ainda de acordo com a executiva, o modelo gerou R$ 4.551.669 em economia para os participantes, R$ 9.700.885 para cooperativas parceiras e recebeu 8.069 toneladas de materiais recicláveis.

Os indicadores ambientais apresentados pela empresa reforçam o discurso de mensuração em tempo real. A So+ma informa redução de 22,5 milhões de quilos de CO2 na atmosfera, economia de 526,6 milhões de litros de água, preservação de 84.719 árvores, proteção de 985,5 milhões de litros de água contra contaminação por óleo e poupança de 22,1 milhões de kWh de energia elétrica.

Cláudia Pires afirma que esse controle é feito por meio da plataforma tecnológica da empresa. “Através da plataforma tecnológica, conseguimos registrar todas as pessoas que participam dos programas e que tipo de material entregam, e através de uma calculadora ambiental mensuramos todos o  impacto ambiental positivo gerado”. Ela conta que a empresa tem metas, indicadores para acompanhar a evolução em ESG. “Temos metas com vários indicadores, pois como um negócio de impacto, o nosso propósito de existir é gerar impacto social e ambiental positivo, portanto esses dados são reflexo natural do nosso negócio”, conta.

Segundo Cláudia, a operação se ancora em dados rastreáveis e transparentes, acompanhados em tempo real por dashboards, para evitar que sustentabilidade vire apenas argumento de comunicação sem lastro operacional. 

Em Salvador, o modelo já ganhou escala institucional. A Prefeitura informou em 2024 que a inauguração da 11ª Casa So+ma levou a cidade a quase 22 mil famílias cadastradas e cerca de 3 mil toneladas de materiais reciclados desviados do aterro em três anos de operação. O material recolhido nas unidades é destinado a cooperativas parceiras, gerando renda e reforçando a lógica de economia circular no município.

A executiva também afirmou ao BNews Junho Verde que uma das prioridades da empresa é repetir em mais cidades o que ocorreu na capital baiana. “Assim como em SSA, com dados positivos comprovados ao longo dos anos, a metodologia e tecnologia viraram política pública, queremos replicar esse modelo para o maior número possível de cidades do Brasil, assim como personalizar o programa para indústrias e/ou marcas terem também dados e contribuírem para o aumento da Circularidade e impacto socioambiental”, explica.

Governança Ambiental no setor público

No setor público, o Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) tenta mostrar que ESG não se limita ao discurso institucional ao estruturar o projeto “TJBA Carbono Zero”. De acordo com informações enviadas pelo órgão ao BNews Junho Verde, a iniciativa tem como foco levantar emissões de gases de efeito estufa, implementar ações de eficiência energética, mobilidade sustentável, gestão adequada de resíduos, modernização de infraestrutura, compensação das emissões residuais e promoção de uma cultura interna de neutralidade climática.

O Plano de Descarbonização do tribunal estabelece metas e ações para reduzir a pegada de carbono institucional até 2050, alinhado à Resolução CNJ nº 594/2024, que instituiu o Programa Justiça Carbono Zero, e também ao marco anterior da Resolução CNJ nº 400/2021 sobre sustentabilidade no Judiciário.

Um dos braços mais concretos dessa estratégia está na geração de energia limpa. Segundo os dados enviados pelo TJBA ao BNews Junho Verde, o órgão conta atualmente com 24 usinas fotovoltaicas em operação, seis em fase de instalação e outras dez em processo de cooperação técnica junto à Coelba. Em divulgação posterior, o próprio tribunal informou avanço adicional da estrutura solar, mostrando a centralidade desse eixo na estratégia de descarbonização institucional.  

Além da infraestrutura, o TJBA também aposta em formação interna para consolidar a agenda ESG no serviço público. O tribunal promove a capacitação “Agenda ESG: Governança Institucional, Ambiental e Social na Gestão Pública” para magistrados e servidores, abordando temas como governança ambiental, contratações sustentáveis, conformidade regulatória e descarbonização.

O órgão instituiu ainda um Grupo do Meio Ambiente para implementar no estado as diretrizes do Fórum Ambiental do Poder Judiciário, o Fonamb. A instância foi criada para articular políticas ambientais, identificar processos prioritários, fomentar cooperação com outras instituições e propor medidas de aprimoramento da jurisdição ambiental e climática, aproximando a pauta ESG da atividade-fim do Judiciário.

Mundos além do discurso

So+ma e TJBA atuam em setores completamente diferentes, mas convergem em um ponto central: ambos tentam traduzir ESG em sistema de acompanhamento, meta e execução continuada. Na empresa de impacto, isso aparece em indicadores de famílias atendidas, toneladas recicladas, recursos gerados para cooperativas e ganhos ambientais; no tribunal, surge em plano de descarbonização, expansão de energia solar, capacitação técnica e governança institucional.

Esse tipo de abordagem responde a uma cobrança cada vez mais presente no debate público, no qual a sustentabilidade precisa ser comprovada por dados, rotina operacional e efeito concreto no território. Em Salvador, onde a agenda ambiental passa por reciclagem, circularidade, transição energética e gestão pública, os dois exemplos mostram que ESG só ganha relevância quando consegue combinar impacto social, resultado ambiental e compromisso institucional de longo prazo. 

Classificação Indicativa: Livre

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