Meio Ambiente
Publicado em 28/06/2025, às 06h00 Victória Valentina
Quem passeia por Salvador, especialmente em áreas mais urbanizadas, consegue perceber — visualmente e até no suor que escorre na testa — a escassez de árvores nas ruas. A percepção foi comprovada pelo Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontou que a cidade tem o segundo pior índice de vias com arborização.
De acordo com o levantamento, cerca de 63,5% dos soteropolitanos — o equivalente a aproximadamente 1,5 milhão de habitantes — vivem em ruas sem nenhuma presença de árvores. O IBGE considera como "área arborizada" os locais de uso comum ou anexos externos a domicílios e condomínios onde existam árvores com mais de 1,7 metro de altura.
Apesar de ser uma das piores capitais, Salvador não é a pior cidade baiana na lista. O município de Alagoinhas aparece como a quarta pior cidade brasileira no índice. Com apenas, 27,1% da população residindo em vias arborizadas, o município é o pior do estado — e do Nordeste — no quesito. (Confira o ranking)
Reflexo da falta de arborização
A posição da capital baiana no ranking reforçou um outro estudo que mapeia as "ilhas de calor" em Salvador e aponta as diferenças de temperatura entre bairros.
O "Observatório do Calor (Heat Watch Campaign)", coordenado pelo professor Paulo Zangalli Júnior, do departamento de Geografia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), com apoio da prefeitura de Salvador, através da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Resiliência e Bem-estar e Proteção Animal (Secis) e da Defesa Civil de Salvador (Codesal), detalha que o calor extremo é um desastre natural e que seus impactos não são distribuídos de forma igual entre as pessoas e lugares.
Segundo a pesquisa, os moradores de bairros historicamente negligenciados, com acesso limitado a recursos e áreas verdes e quem enfrenta problemas de saúde adicionais estão em maior risco quanto aos impactos do calor extremo.
De acordo com o estudo, os bairros com mais vegetação, perto de áreas verdes ou corpos d'água, apresentam temperaturas mais amenas. Já as regiões densamente urbanizadas, com poucas árvores e grande cobertura de asfalto, registram temperaturas mais elevadas.
É o caso de locais como Ilha de Maré, Massaranduba, Periperi, que registraram máximas de 34,6ºC. Por outro lado, bairros mais afastados da periferia, como Pituaçu, Pituba, Costa Azul, Graça e Vitória, apresentam temperaturas de até 28,1ºC.
Desenvolvimento da pesquisa
As medições tiveram início em 23 de fevereiro deste ano e foram realizadas em 16 rotas distintas da cidade, em três horários do dia: entre 6h e 7h, das 15h às 16h e das 19h às 20h. Equipamentos instalados em carros da Defesa Civil captaram mais de 103 mil registros de temperatura, transformados em mapas térmicos com auxílio de supercomputadores e imagens de satélite.
A coleta de dados teve início no dia 23 de fevereiro deste ano, de forma com que fosse criada uma cobertura detalhada da temperatura em toda a cidade. A partir disso, foi possível identificar as desigualdades na distribuição de calor e suas causas, além de sugerir formas de mitigação, como a arborização.
O estudo também projeta cenários climáticos preocupantes. Atualmente, Salvador enfrenta de 5 a 40 dias por ano com temperaturas acima de 32 °C. Esse número pode subir para 50 a 70 dias até 2050 e para até 150 dias até o fim do século, dependendo do nível de emissões de gases de efeito estufa.
Apesar de não ser comum, temperaturas acima de 35 °C devem se tornar frequentes nas próximas décadas: de 1 a 3 dias por ano a partir de 2050, e de 3 até 35 dias entre 2050 e 2100.
O que diz a Secis
Em nota, a Secretaria de Municipal de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal (Secis) reforçou a importância do debate em torno das ilhas de calor urbanas.
"Essas informações são fundamentais para a formulação de políticas públicas direcionadas à mitigação do calor extremo, por meio da ampliação de áreas arborizadas, implementação de infraestrutura verde e ações de planejamento urbano voltadas à redução das desigualdades ambientais. Além disso, os dados obtidos permitirão orientar medidas preventivas nas áreas mais vulneráveis, com impactos diretos na saúde pública, mobilidade e qualidade de vida", destacou.
"A Prefeitura de Salvador reconhece que o enfrentamento ao aumento das temperaturas, intensificado pelas mudanças climáticas, exige uma atuação técnica, coordenada e contínua. As ações já em curso demonstram o compromisso da gestão municipal com uma cidade mais resiliente, sustentável e justa para todos", prosseguiu.
Ao projeto Junho Verde, do BNews, a Secis também se manifestou a respeito da promoção de suas áreas verdes. Em nota, a pasta afirmou que a gestão municipal já plantou mais de 130 mil árvores nos últimos 12 anos, além de ter promovido campanhas de incentivos para a implantação do Centro de Interpretação da Mata Atlântica e do Horto de Restinga.
"Já em 2024, a gestão deu início para o primeiro Corredor Verde da capital baiana, localizado entre a avenida Vasco da Gama e o Itaigara, com o plantio de espécies de Mata Atlântica. A previsão é que sejam implementados mais de oito corredores verdes em Salvador até o ano de 2028, além de mais de 100 mil árvores até o mesmo ano", garantiu.
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