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Atropelado 34 vezes e até embriagado por populares, peixe-boi famoso escapa da morte e Justiça toma medida que atinge a Bahia

FMA/Divulgação
O processo também reúne registros de pessoas oferecendo cerveja, refrigerante e água doce diretamente na boca  |   Bnews - Divulgação FMA/Divulgação
Redação Bnews

por Redação Bnews

redacao@bnews.com.br

Publicado em 30/08/2026, às 09h34 - Atualizado às 10h12



Um peixe-boi-marinho que circula por áreas de Sergipe e da Bahia e já sobreviveu a 34 colisões com embarcações ganhou proteção da Justiça Federal de Sergipe para evitar novos atropelamentos e abusos cometidos por humanos. Astro, como é conhecido o animal de aproximadamente 35 anos e 468 kg, é considerado "bem de interesse cultural" de Sergipe. A informação é do colunista Carlos Madeiro, do Uol.

Segundo a reportagem, a decisão atende a pedidos do Ministério Público Federal (MPF) e estabelece obrigações para órgãos públicos federais e dos estados de Sergipe e Bahia.

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Entre as medidas determinadas pelo juiz Rafael Soares Souza, da 7ª Vara Federal de Sergipe, está a obrigatoriedade do uso de protetores de hélices nas embarcações, conhecidos como gaiolas. A fiscalização da Marinha deverá começar em 1º de outubro.

As regras abrangem o complexo estuarino Piauí-Real-Fundo, a praia do Saco e o estuário do Rio Vaza-Barris. As regiões foram definidas a partir dos registros de circulação de Astro apresentados pela FMA (Fundação Mamíferos Aquáticos).

"Durante todos esses anos, acompanhamos Astro, conhecemos seus deslocamentos, suas áreas de uso e também os riscos aos quais ele está exposto. Recebemos essa decisão com muita alegria e, sobretudo, com a certeza de que não estamos sozinhos nessa luta em prol da conservação dos peixes-bois. Astro é um símbolo da resiliência", diz Jociery Einhardt Vergara Parente, presidente da FMA.

34 colisões e ferimento de 22 centímetros

Astro já sobreviveu a 34 colisões documentadas com embarcações motorizadas. Alguns dos impactos foram tão violentos que chegaram a destruir o rastreador via satélite instalado no animal para monitorá-lo.

O acidente mais recente e considerado severo aconteceu em 1º de fevereiro de 2026, na praia do Saco, em Estância, Sergipe.

A hélice de uma embarcação provocou cinco cortes profundos nas regiões lateral e dorsal do peixe-boi. Os ferimentos chegaram a 22 centímetros de extensão e seis centímetros de profundidade.

As lesões comprometeram pele, gordura e musculatura e provocaram um grave processo inflamatório, com risco real de morte por infecção generalizada.

"O elevado número de colisões e a grande quantidade de banhistas nas áreas frequentadas por Astro, não consta dos autos notícia de que, em qualquer ocasião, a embarcação envolvida tenha sido identificada pelas autoridades competentes. Assim, os fatos acima narrados são sugestivos de ausência do exercício do poder de polícia náutico, pela falta de fiscalização consistente do tráfego de embarcações, obediência a limites de velocidade e outros", disse.

Veterinários da FMA relatam ainda que medicar e realizar a assepsia de um animal de 468 kg solto na natureza exige uma operação de extrema complexidade e alto custo financeiro.

Selfies, abraços e até cerveja

Os atropelamentos não são os únicos riscos enfrentados por Astro. Relatórios técnicos anexados ao processo apontam episódios de assédio praticados por turistas e banhistas nas regiões frequentadas pelo peixe-boi.

Há registros de pessoas tentando abraçar o animal, montar sobre ele, beijar seu focinho ou bater na água para atraí-lo e conseguir fotos para as redes sociais.

O processo também reúne registros de pessoas oferecendo cerveja, refrigerante e água doce diretamente na boca de Astro.

"Interações aparentemente amistosas -- como tocar, acariciar, alimentar ou oferecer água -- podem ser prejudiciais à conservação do animal. O problema narrado nesse item liga-se mais à falta de poder de polícia ambiental e, naturalmente, de educação ambiental."

Embarcações terão novas regras

As Capitanias dos Portos da Bahia e de Sergipe deverão notificar individualmente os proprietários de embarcações de que o tráfego no habitat de Astro somente será permitido com a instalação de dispositivo para impedir o corte direto de animais e banhistas pelas hélices. Segundo a decisão, o equipamento custa entre R$ 300 e R$ 900.

A Capitania dos Portos também deverá apresentar, até 4 de setembro, um plano para garantir o cumprimento dos limites de velocidade náutica e fiscalizar o tráfego na região, principalmente aos finais de semana, feriados e durante a alta temporada.

O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), os estados de Sergipe e Bahia e as prefeituras da região também terão obrigações.

Até 28 de setembro, deverá ser elaborado um plano integrado de sinalização preventiva nos portos e praias, alertando sobre a presença de Astro e a proibição de tocar, alimentar ou oferecer bebidas ao animal.

Sob a presidência do ICMBio, também deverá ser criado um comitê para articular as ações de conservação do peixe-boi, com reuniões periódicas e cronograma de trabalho.

Procurados, todos os órgãos afirmaram que ainda não haviam sido notificados da decisão até sexta-feira.

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