BNews Nordeste
A delegada Ariana Sampaio Sousa, filha do procurador de Justiça Francisco Barros Sousa e sobrinha do desembargador Raimundo Barros, acionou a Justiça contra o candidato que questionou nas redes sociais sua nomeação para a Polícia Civil do Maranhão.
O bacharel em Direito e concurseiro da área policial, Kelson Francisco de Brito Lima, agora responde por difamação. A delegada foi eliminada na primeira fase do concurso de 2017 e ficou em 2.018º lugar na prova objetiva, ainda assim, recorreu e conseguiu ser nomeada.
No processo que tramita no Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA), tanto a delegada quanto o pai dela aparecem como autores da ação contra o candidato.
Kelson questionou publicamente a nomeação de Ariana e afirmou que ela obteve 60 pontos na prova objetiva, enquanto ele alcançou 78 pontos e participou das etapas seguintes do concurso.
“É muito revoltante. O meu advogado acabou de me mandar essa decisão. Não faz o menor sentido o que aconteceu com esses processos.
Uma moça que fez 60 pontos no concurso de delegado do Maranhão teve, após a quebra da cláusula de barreira, ela teve o processo deferido e foi nomeada, enquanto que eu fiz 78 pontos no concurso, fiz todas as etapas seguintes, coisa que a moça mencionada não fez, tive o processo negado. Então, realmente é uma coisa muito revoltante, uma coisa que não dá para entender”, disse o concurseiro.
Após a repercussão, o candidato publicou outro vídeo para explicar a origem da denúncia. Kelson afirmou que utilizou documentos públicos, decisões judiciais, parecer do Ministério Público e publicações sobre concursos.
“Não houve intenção de violar o sigilo ou a honra de ninguém. A minha crítica principal não era contra a pessoa denunciada, mas sim contra esse sistema, contra essas decisões esquisitas que, sei lá, negam fatos e são erros esdrúxulos que coincidentemente favorece apenas algumas pessoas. Então, essa era minha crítica”, explicou.
Em seu desabafo, Kelson contou que nasceu no interior do Maranhão e foi criado por uma mulher negra que, trabalhando na feira sem renda fixa ou moradia garantida, criou sozinha os três filhos. Desde cedo, ele e os irmãos foram levados para trabalhar com a mãe e enfrentaram muitas dificuldades financeiras, chegando a morar de aluguel com o constante risco de serem despejados.
Apesar disso, todos encontraram saída para melhoria de vida por meio do estudo: Kelson é bacharel em direito, e seus dois irmãos são um médico e um policial militar. Atualmente ocupando um cargo público, ele acrescentou que seu grande sonho sempre foi ser delegado de polícia.
“E se não for dessa vez, é porque dificilmente o Estado vai reconhecer o meu direito. O Estado assim, instâncias de poder, jamais, jamais erra ou jamais amplia os princípios e as normas para beneficiar pessoas como a mim, né? Então, mesmo com essas condições adversas, eu tive uma nota muito maior do que outras pessoas que tinham uma condição melhor, a pessoa que tinha estrutura, que tinha o seu, seu pai, a sua família, e me foi negado o direito. Então, eu só estava exigindo o cumprimento da lei. Eu não quero ferir a honra de ninguém, eu não quero comprar uma guerra com o judiciário, e essas são as informações que eu achei necessário”, disse.
Ariana participou do concurso para delegado da Polícia Civil do Maranhão aberto em 2017. Na prova objetiva, obteve 60 pontos e terminou na 2.018ª colocação. A nota de corte geral era de 76 pontos.
Segundo a Procuradoria-Geral do Estado do Maranhão (PGE-MA), o último candidato chamado para a prova discursiva estava na 192ª colocação. Ariana, portanto, ficou fora da faixa inicialmente prevista pela chamada cláusula de barreira.
O concurso previa sete fases na primeira etapa: prova objetiva, prova discursiva, avaliação de títulos, exames médicos e toxicológicos, teste de aptidão física, avaliação psicológica e investigação social e funcional. A segunda etapa correspondia ao curso de formação profissional.
A delegada Ariana Sousa, filha de procurador de Justiça e sobrinha de desembargador, acionou a Justiça contra o candidato que questionou nas redes sociais sua nomeação para a Polícia Civil do Maranhão. Ela foi eliminada na primeira fase do concurso, recorreu e foi nomeada. pic.twitter.com/GrU7Sr9Jou
— bnewsvideos (@bnewsvideos) September 16, 2026
Em julho de 2024, a 1ª Vara da Fazenda Pública de São Luís anulou a eliminação de Ariana e determinou que o Estado permitisse sua continuidade no concurso sem a aplicação da cláusula de barreira. A decisão também assegurou a participação da candidata em eventual curso de formação.
Ariana havia alegado que, apesar de ter acertado 60 questões, alcançou pelo menos 50% de aproveitamento em cada grupo de disciplinas exigido pelo edital.
Em 7 de abril de 2025, o juiz Osmar Gomes dos Santos, da 1ª Vara da Fazenda Pública de São Luís, determinou a nomeação e posse de Ariana no cargo de delegada. A posse ocorreu em 12 de maio de 2025.
Na sentença, o magistrado considerou que a candidata havia demonstrado desempenho suficiente para avançar no concurso e sido aprovada no curso de formação. O juiz afirmou que Ariana “já fora aprovada em todas as etapas do certame”. A conclusão é contestada pela PGE-MA.
O Estado apresentou apelação em 10 de abril de 2025, três dias após a sentença. A PGE-MA contestou duramente a nomeação e classificou a participação de Ariana como um "atropelo de fases" e que a posse de Ariana é um "absurdo sem precedentes".
O órgão apontou que ela ficou em 2.018º na prova objetiva e foi direto para o curso de formação por liminar, pulando seis etapas obrigatórias (como o TAF e exames médicos).
A PGE também rebateu a defesa sobre a aplicação da Lei Estadual nº 12.212/2024 — argumentando que a regra vale para quem já estava no cadastro de reserva, e não para resgatar eliminados. Por fim, o governo alertou que a decisão abre um "efeito multiplicativo", podendo incentivar milhares de outros candidatos desclassificados a recorrer à Justiça.
A apelação tramita na Primeira Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Maranhão. A última distribuição registrada no processo ocorreu em 24 de junho de 2026 e, conforme a informação disponível no material, o recurso ainda não havia sido julgado.
O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) apresentou parecer favorável ao recurso do Estado e recomendou a modificação da decisão de primeira instância.
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