Polícia

Caso Neylton: secretário de Saúde da época fala com exclusividade sobre o crime

Luiz Eugênio Portela falou da rotina do servidor e afirma: "disponibilizei todas as informações"

Publicado em 06/05/2017, às 07h00    Reprodução    Caroline Gois

Após 10 anos do crime, o ex-secretário de Saúde de Salvador, Luiz Eugênio Portela, falou com exclusividade ao site BNews sobre a morte do servidor Neylton Souto da Silveira, de 38 anos, que foi brutalmente assassinado dentro do prédio da Secretária de Sáude do Município (SMS). Alvo de ação dos Ministérios Públicos Estadual e Federal, Portela não hesitou em falar com nossa equipe e revelou detalhes da rotina do servidor. 
O corpo do servidor foi encontrado no pátio interno do prédio da SMS ainda pela manhã em um sábado e trajava apenas uma camisa tipo gola-polo preta, cueca e uma meia. Após quase um ano depois, os sapatos sociais e a calça jeans que o servidor vestia foram encontrados nos dutos subterrâneos, por onde passam as tubulações do prédio. Neste dia, segundo a família, o servidor informou que houve uma convocação para que três pessoas, incluindo ele, comparecessem ao prédio. Mas, segundo as investigações, apenas Neylton esteve no prédio. Além dele, os dois vigilantes -  Jair Barbosa da Conceição e Josemar dos Santos. Ambos, condenados a 14 anos de prisão pela morte do servidor. Jair negou a participação. Josemar em depoimento chegou a confessar o crime e também afirmar que receberia uma recompensa no valor de R$20.000,00 da ex-subsecretaria municipal de saúde, Aglaé Amaral Sousa, e da ex-consultora técnica da SMS na época (2007), Tânia Maria Pedrosa. Ambas chegaram a ser presas um mês após o crime, mas logo foram soltas e em 2010, o Magistrado da 1ª Vara do Juri não encontrou provas suficientes para mandar a ex-subsecretária de saúde e a ex-consultora técnica da SMS ao Tribunal do Juri, juntamente com os vigilantes. Os desembargadores do Tribunal de Justiça tiveram o mesmo entendimento e com isso, elas foram inocentadas. 
"Ele tinha o hábito de ir ao trabalho aos sábados. Era muito comprometido e, por isso, não foi uma coisa extraordinária ele ir naquele dia. Era relativamente comum", afirmou, negando ter chamado o servidor naquele sábado ao trabalho, bem como, quem o chamou lá. "Não fui eu, inclusive estava de recesso. Eu estava de férias", ressaltou.
Com às investigações, o ex-secretário de Saúde afirma ter disponibilizado todas as informações à Polícia e lamenta o crime. "Infelizmente não tenho o que dizer. Fui ao Ministério Público, procurei ajudar da melhor forma possível", alega. Sobre as denúncias que recaíram sobre a ex-subsecretaria municipal de saúde, Aglaé Amaral Sousa, e a ex-consultora técnica da SMS, que teriam sido mandantes do crime, Portela prefere deixar para a Justiça. "A Justiça não aceitou a denúncia do Ministério Público. O MP fez acusação e o juiz não aceitou. Acharam que não havia nem indícios. Eu acredito na Justiça", disse.
Funcionário concursado da Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET), Neyton trabalhava desde março de 2006 na secretaria, tendo sob sua responsabilidade uma planilha que movimentava, por mês, cerca de R$ 25 milhões de verba do Sistema Único de Saúde (SUS), para pagamentos a fornecedores da SMS. Atualmente, o ex-secretário responde uma ação de ações de improbidade referente ao período que inclui a gestão dele, ano de 2007. A ação refere-se ao período de 2005 a 2007, ano de encerramento do contrato entre a  Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e Real Sociedade Espanhola (RSEB) e ano da morte do servidor. O prejuízo neste contrato, segundo os órgãos públicos chega a 14,6 milhões de reais. Neste processo são réus, além do ex-secretário, a ex-subsecretária da SMS, Agláe Amaral Souza, e novamente a Real Sociedade Espanhola. A RSEB responde também a outra ação correspondente aos contratos com a SMS no período de 2001 a 2004, na qual são réus a ex-secretária de Saúde, Aldely Rocha Dias, o ex-coordenador de Administração da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Oyama Amado Simões, a ex-presidente da Comissão Permanente de Licitação, Maria Edna Lordelo Sampaio. Esta ação é relativa ao prejuízo de 25,5 milhões. 
Sobre esta ação na qual é réu, Luiz Eugênio Portela não comentou detalhes do contrato, mas afirma que a ação trata-se dos contratos com relação à Saúde da Família e "contrato da Real Sociedade também é alvo". Já com relação às possibilidades que levaram à morte do servidor, o médico considerou o caso uma tragédia. "Houve muitas especulações. Muitas teorias e hipóteses. Não sei de nenhuma motivação", afirmou.
Ainda sobre a rotina do servidor, Eugênio esclerece que Neylton era técnico e tinha acesso às planilhas, "mas ele não tinha vínculo específico com nenhum contrato. Os contratos passavam por ele, mas tinham outros técnicos que faziam a mesma coisa que ele", explica. Primeiro secretário de Saúde do ex-prefeito João Henrique, atual PR e na época PMDB, o médico Luiz Eugênio Portela foi nomeado assessor especial do novo chefe da Secretaria Estadual de Saúde (Sesab), Fabio Vilas-Boas em 2015, cargo que ocupou, segundo ele, por três meses. Ligado ao deputado Nelson Pelegrino (PT), Portela deixou a prefeitura a reboque de um dos mais rumorosos escândalos da  gestão de João Henrique: o assassinato do servidor Neylton Souto da Silveira nas dependências da sede da secretaria, no Comércio, em 6 de janeiro de 2007. Coincidentemente, a nomeação de Portela em 2015 foi publicada no Diário Oficial, exatos oito anos depois do crime. 
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Publicado originalmente em 05/05 às 15h41

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