Polícia

Bahia tem 2,1% da população carcerária brasileira que é a terceira maior do mundo com 726.712 presos

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Especialista em segurança pública diz que o Brasil não tem superpopulação carcerária e sim incapacidade de conter a demanda de criminosos  |   Bnews - Divulgação Ilustrativa e Divulgação

Publicado em 08/12/2017, às 17h45   Tony Silva



Dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) divulgado hoje (8), em Brasília, pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça, revelam que o total de pessoas encarceradas no Brasil chegou a 726.712 em junho de 2016. Em dezembro de 2014, era de 622.202. Diante desse quadro, a população carcerária brasileira é a terceira maior do mundo.

O Brasil é o terceiro país com maior número de pessoas presas, atrás de Estados Unidos e China. O quarto país é a Rússia. A taxa de presos para cada 100 mil habitantes subiu para 352,6 indivíduos em junho de 2016. Em 2014, era de 306,22 pessoas presas para cada 100 mil habitantes.

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Diante do quadro, a reportagem do BNews conversou com João Apolinário Silva, que é especialista em segurança pública e coordenador do Observatório de Segurança Pública da Bahia (OSPBa). O especialista realizou um estudo sobre o sistema prisional baiano, em parceria com o Ministério Pública da Bahia, e a Unifacs. Segundo ele, o Brasil não tem superpopulação carcerária. "Isso é mito do superencarceramento no Brasil, pois não temos a capacidade de conter o grande volume de criminosos que se espalham por todo país”, afirma Apolinário.

Ainda segundo o levantamento, o sistema prisional brasileiro tem 368.049 vagas, segundo dados de junho de 2016, número estabilizado nos últimos anos. O diretor geral do Depen, Jefferson de Almeida, disse que existem dois presos para cada vaga no sistema prisional. O gestor também afirmou que houve um pequeno acréscimo nas unidades prisionais, muito embora não seja suficiente para abrigar a massa carcerária que vem aumentando no Brasil. 

Também segundo o Infopen, houve um crescimento de mais de 104 mil pessoas. Cerca de 40% são presos provisórios, ou seja, ainda não possuem condenação judicial. Mais da metade dessa população é de jovens de 18 a 29 anos e 64% são negros. De acordo com o relatório, 89% da população prisional estão em unidades superlotadas. São 78% dos estabelecimentos penais com mais presos que o número de vagas. 

Comparando-se os dados de dezembro de 2014 com os de junho de 2016, o déficit de vagas passou de 250.318 para 358.663. A taxa de ocupação nacional é de 197,4%. Já a maior taxa de ocupação é registrada no Amazonas: 484%. Para João Apolinário, apesar dos altos números de encarcerados, “a relação entre crime cometido e criminoso preso, ainda é muito pequena. Apenas 17% desses presos estão cumprindo pena por homicídios, ou seja, mata-se muito e prende-se pouco”. 

O especialista destaca que a Bahia está bem posicionada no ranking nacional, uma vez que sua população carcerária significa apenas 2,1% do total do país, com 15.202 presos. Porém, o especialista, pondera que “esse baixo número de encarceramento baiano, pode representar o reflexo no alto índice de criminalidade da Bahia”, avalia.

Segundo boletim publicado no site da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap-BA), existem dos 15.202 existe capacidade na rede prisional para 12.093, tendo um excedente de 3.109. Apolinário também avaliou o dado. “Sobre o excedente, ou superlotação, não está em todo sistema. O que há é uma má distribuíção. A superlotação tende a estar ligada a crimes de baixa letalidade. Não temos nenhum inocente lá dentro. O direito de prender está cada vez mais cerceado. prova disso são as audiências de custódia”.

O Governo Federal tem a meta de diminuir a população carcerária em 15%. Com a oferta de alternativas penais e monitoramento eletrônico, segundo Almeida, foi possível evitar que 140 mil pessoas ingressassem no sistema prisional. O diretor do Depen anunciou a previsão da criação de 65 mil novas vagas para o no próximo ano.

Tipificação dos crimes

Os crimes relacionados ao tráfico de drogas são os que mais levam pessoas às prisões, com 28% da população carcerária total. Somados, roubos e furtos chegam a 37%. Homicídios representam 11% dos crimes que causaram a prisão. 

O Infopen indica que 4.804 pessoas estão presas por violência doméstica e outras 1.556 por sequestro e cárcere privado. Crimes contra a dignidade sexual levaram 25.821 pessoas às prisões. Desse total, 11.539 respondem por estupro e outras 6.062 por estupro de vulnerável.

Perfil dos presos

Do universo total de presos no Brasil, 55% têm entre 18 e 29 anos. “São jovens que estão encarcerados”, disse o diretor-geral do Depen. Observando-se o critério por estado, as maiores taxas de presos jovens, com menos de 25 anos, são registradas no Acre (45%), Amazonas (40%) e Tocantins (39%).

Levando em conta a cor da pele, o levantamento mostra que 64% da população prisional são compostos por pessoas negras. O maior percentual de negros entre a população presa é verificado no Acre (95%), Amapá (91%) e Bahia (89%).

Quanto à escolaridade, 75% da população prisional brasileira não chegaram ao ensino médio. Menos de 1% dos presos tem graduação.

No total, há 45.989 mulheres presas no Brasil, cerca de 5%, de acordo com o Infopen. Dessas prisões, 62% estão relacionadas ao tráfico de drogas. Quando levados em consideração somente os homens presos, o percentual é de 26%.

Para João Apolinário, o problema da criminalidade está na “cultura do crime”. Ele destaca a atual situação da impunidade nas altas camadas sociais. “A tendência da intelectualidade no Brasil é ter compaixão pelo criminoso e escárnio pela vítima. À medida que classe alta é presa por crime de corrupção, essa tende a desqualificar a prisão, como uma forma de promover sua própria Justiça por crimes cometidos”, comenta.

Investimentos

De acordo com Almeida, os resultados do Infopen ajudam a direcionar as políticas públicas para o sistema prisional e na correta aplicação dos recursos financeiros, tanto da União quanto dos estados. O levantamento, em breve, será substituído pelo Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional (SisDepen), que vai coletar informações padronizadas e mais eficazes sobre a situação dos presídios.

Segundo o diretor-geral, o Depen está investindo em políticas públicas que qualifiquem a porta de entrada, de saída e as vagas do sistema, de forma a propiciar um “ambiente prisional mais humano”.

Almeida disse que o Depen aplicará mais recursos em políticas de monitoramento eletrônico (tornozeleiras) e de alternativas penais, para penas diferentes da privação de liberdade, além de intensificar a implementação das audiências de custódia junto ao Poder Judiciário. Além disso, as políticas com os egressos do sistema prisional serão expandidas para que eles voltem a trabalhar.

O governo federal promete continuar investindo na reforma, ampliação e construção de unidades prisionais para que mais vagas sejam ofertadas. A pretensão é a de que sejam  investidos recursos para módulos de saúde, educação e outros tipos de ambientes. Em dezembro de 2016, o Ministério da Justiça liberou R$ 1,2 bilhão aos estados, do Fundo Penitenciário Nacional (Funpen), para construção de presídios e modernizar o sistema penal. 

Apesar dos investimentos anunciados e contabilizados, João Apolinário defende que apenas investimentos não são o suficiente. “Aplicar dinheiro não vai recuperar. A vontade do estado é que o criminoso seja reintegrado a sociedade, mas não é esse o desejo do criminoso. E aí resta uma pergunta: Caso ele seja reintegrado, a qual sociedade ele participará”, indaga o especialista. 

Apolinário encerra sua avaliação da situação prisional na Bahia com uma forte denúncia. “Na Bahia, não é diferente do restante do Brasil, pois os prisioneiros são quem administram os processos interiores dos presídios. Eles ditam o funcionamento dos presídios e o estado é um mero espectador”. 

Classificação Indicativa: Livre

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