Polícia

Ao menos seis policiais militares cometeram suicídio na Bahia em 2021, diz Aspra

Alberto Maraux/SSP-BA

Publicado em 23/06/2021, às 07h00    Alberto Maraux/SSP-BA    Lara Curcino

A saúde mental na polícia é um assunto que tem tomado corpo como foco de atenção dentro das corporações no Brasil. Além de todos os afastamentos por questões psicológicas, há uma grande preocupação com a taxa de casos em que os distúrbios se transformam em ações extremas, como tirar a própria vida. 

De acordo com a Associação de Policiais e Bombeiros e de seus Familiares do Estado da Bahia (Aspra), na Polícia Militar da Bahia (PM-BA), até 22 de junho, foram ao menos seis suicídios somente em 2021. 

O coordenador-geral da entidade, deputado estadual Soldado Prisco (PSC), afirma que “ainda há diversos outros casos de agentes que estão à beira do abismo”. “Alguns chegam até a gente e fazemos o possível para auxiliar, mas outros não temos conhecimento e acontece o pior”, contou Prisco. 

Ainda segundo ele, as principais causas são problemas financeiros - já que a categoria está sem reajuste há oito anos - e a pressão dentro da própria corporação.  

“São escalas exorbitantes, sem folgas devidas, além de uma cobrança por produção por parte do Estado, o que é ilegal. Cobrança para aumentar o número de prisões, de abordagens. Existe até um ranking entre comandantes de qual equipe fez mais ações. Às vezes surge a informação de duas mil abordagens em um dia, mas isso não existe, é forjado, por causa da pressão, para dar uma sensação falsa de segurança à população” afirmou Prisco. 

Aspra aciona MP-BA

A reportagem teve acesso aos documentos de duas supostas portarias do Esquadrão de Polícia Montada da PM-BA e da 3ª CIPM/Cajazeiras, que oficializam o Ranking Operacional da corporação baiana, mencionado por Prisco. 

O Artigo 1º da portaria do Esquadrão de Polícia Montada menciona que o “objetivo é aferir o desempenho dos policiais militares nas ações de policiamento ostensivo”, com pontuações atribuídas aos chamados “atos positivos” e “atos negativos”. Na 3ª CIPM também foi instituída a classificação pontuada, além do Prêmio Guarnição Destaque Operacional.

Diante dos fatos, a Aspra acionou o Ministério Público da Bahia (MP-BA) com o argumento de que a cobrança por produção não é permitida dentro das corporações policiais. O órgão expediu um ofício no dia 11 de junho em que deu 10 dias para o comandante-geral da PM da Bahia, coronel Paulo Coutinho, se pronunciar sobre a situação. 

A PM afirmou ao BNews que Coutinho já enviou os esclarecimentos, sem detalhar quais foram, e negou qualquer irregularidade. 

"Meus dias são pesadelos"

A reportagem teve ainda acesso a áudios enviados por policiais militares à Aspra em que os trabalhadores relatam o desespero diante dos problemas psicológicos adquiridos no exercício de suas funções. 

“Meus dias são pesadelos, vivo com ansiedade. Ontem nem liguei meu celular, com receio de que me ligassem e pedissem novamente que eu abrisse mão da folga. Penso em meus filhos e no quanto eles precisam de mim para ter forças para continuar viva”, dizia uma PM em um dos áudios.

Ao BNews, a psicóloga Karine Sepulveda explicou que as angústias profundas e transtornos mentais podem se agravar quando se alia um possível excesso de pressão dentro do trabalho a outras características próprias do exercício militar. 

“Considerando estarmos falando de policiais militares, a gente precisa levar em conta que a pressão dentro do serviço pode acentuar o risco psicológico quando juntamos com outros aspectos inevitáveis: treinamento para o front de batalha, com aproximação à ideia de ser uma “máquina”, acesso fácil a armas letais, convívio permanente com violência, morte e estressores, precariedade de proteção pessoal e familiar, jornadas longas de trabalho, entre outros”, afirmou ela. 

Como mudar o cenário

A Aspra reivindica o reajuste salarial e a oferta de assistência psicológica a policiais em todas as cidades. “Há psicólogos disponíveis em Salvador e algumas outras poucas cidades da Bahia apenas. Além disso, a gente pede que esses profissionais não sejam membros da corporação, porque todos são militares que atuam nessa área. Queremos um serviço que tenha objetivo de cuidar dos agentes, com sigilo dos pacientes preservado e uma sessão que não termine sendo um interrogatório ao invés de terapia”, disse o coordenador-geral da entidade.

“Outra necessidade é a melhoria das condições nas unidades. Muitas estruturas estão caindo aos pedaços, algumas não possuem nem banheiro feminino, como a do CAB.”, concluiu. 

Questionada pela reportagem sobre o número de suicídios, a PM-BA afirmou que realiza atividades de valorização profissional através do Departamento de Valorização Profissional (DPS), “com o objetivo de proporcionar saúde mental a todos os policiais militares”. 

“Além das coordenações de assistência psicológica, social, religiosa, o departamento disponibiliza uma equipe multiprofissional com psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, enfermeiros que, num regime de 24h, prestam apoio ao público-alvo da instituição e também nos casos que demandam necessidade imediata de intervenção.”

Problema nacional

De acordo com o relatório anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mais recente, divulgado em outubro de 2020, 65 policiais militares e 26 civis cometeram suicídio durante 2019. O número é maior até mesmo do que o de agentes mortos em serviço naquele mesmo ano, que chegou a 56 PMs e 16 na Polícia Civil.

Cientista político e pesquisador das forças policiais no Brasil, Alex Agra acredita que a causa de números expressivos como estes está na raiz da estrutura da Segurança no país.

"É um problema nacional, do modelo de Segurança que temos aqui. O próprio funcionamento da instituição adoece os policiais. Depois, quando vêm as consequências desse adoecimento, a corporação descarta os agentes como 'casos isolados'. Em pesquisa que fiz em 2017, constatei que 14 Estados, no caso do policial militar, e em 10 Estados, no caso do policial civil, os trabalhadores são remunerados inicialmente com um valor abaixo do mínimo para sobreviver. Mais do que identificar as condições atuais dos policiais, precisamos nos perguntar: quem os colocou nessa condição?", explicou Agra, em entrevista ao BNews.

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