Polícia

Raio X do medo: Bahia tem pelo menos 79 PMs afastados das ruas por transtornos mentais

[Raio X do medo: Bahia tem pelo menos 79 PMs afastados das ruas por transtornos mentais]
09 de Abril de 2021 às 13:12 Por: Alberto Maraux/SSP-BA Por: Diego Vieira

Salvador, 28 de março de 2021. As poucas pessoas que passavam pela região do Farol da Barra naquela tarde ensolarada de domingo não imaginavam se deparar com um policial fardado, com o rosto pintado, portando um fuzil e dando tiros para o alto. O homem em questão era o PM Wesley Soares, de 38 anos. Durante um possível surto psicótico, ele saiu da cidade de Itacaré, onde trabalhava, e dirigiu até o cartão postal da capital baiana, onde foi morto após atirar contra os policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), que negociavam sua rendição.

O caso de Wesley acendeu um alerta sobre a importância de discutir a saúde mental dos profissionais da segurança. Segundo a Junta Médica do Departamento de Saúde da Policia Militar da Bahia (PM-BA), o estado possui, atualmente, 79 policiais militares afastados do serviço por transtornos mentais. Os agentes foram realocados para serviços administrativos dentro da corporação, fora das ruas, ou estão temporariamente afastados.

De acordo com a psicóloga Rosa Garrido, é comum o acometimento de patologias psicológicas em profissionais da segurança. As mais comuns, segundo a especialista, são: ansiedade; transtorno de humor; depressão - que pode ser aguda ou crônica -; transtorno de estresse pós traumático; Síndrome de Burnout - que é resultante de pessoas que exercem atividades com muita competitividade e responsabilidade, como é o caso dos policiais.

“É uma atividade que exige muito do indivíduo. Exige fisicamente, emocionalmente e psicologicamente. Eles [os policiais] estão expostos a vivenciar no seu cotidiano uma violência que é uma realidade em nossa sociedade, então isso agrava toda uma questão do ser humano. O medo em relação a sua própria integridade física, e na maioria das vezes, isso é vivenciado em silêncio, ou seja, não é compartilhado”, explica.

No caso de um surto, como ocorreu com o soldado Wesley, a psicóloga explica que a pessoa não consegue distinguir os pensamentos internos que ela possui com o que de fato acontece na realidade. Além disso, ele pode ser desencadeado após algum trauma sofrido pelo indivíduo recentemente.

“Apesar de popularmente ser utilizado para descrever mudanças comportamentais, o surto psicótico é a desorganização da representação da realidade. O surto é um episódio agudo apresentado pelo paciente e por trás dele existem diversas patologias que podem desencadear. Pessoas muito sensíveis também podem apresentar crises psicóticas se tiverem sofrido algum trauma intenso recentemente”, afirma.

De acordo com colegas do PM, que tinha 13 anos de serviço prestado na corporação, ele costumava ser brincalhão e sorridente, no entanto, nos últimos tempos, começou a se irritar com frequência.

Como contornar a situação

Antes de ser morto pelo Bope, Wesley invadiu o gramado em frente ao Farol, desceu do veículo, entoou palavras desencontradas, jogou objetos de vendedores ambulantes no mar e deu diversos tiros para cima. 

A atuação dos agentes do Bope na ação dividiu opiniões e repercutiu em todo o país. A corregedoria da PM-BA instaurou um inquérito para apurar a conduta atribuída aos oficiais do Batalhão.

A psicóloga explica que a melhor maneira de controlar uma pessoa durante um surto é não confrontá-la. “Se confrontar um paciente num estado desse, certamente vai colaborar para o agravamento do surto. É necessário manter uma postura tranqüila, que ofereça segurança e empatia com aquele momento”, diz.

Uma comissão do Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) acompanha as investigações do caso. De acordo com o MP-BA, os trabalhos "seguem observando a normalidade institucional".

"A comissão esclarece ainda que vem contribuindo com o presidente do procedimento tanto nas oitivas das pessoas diretamente envolvidas com o fato, como também na sugestão de diligências complementares que possam esclarecer as circunstâncias do mesmo", diz o órgão, em nota.

Conviver com o medo

Garrido frisa que ainda existe muito preconceito acerca das doenças psicológicas. Para ela, é fundamental que as pessoas acometidas se sintam acolhidas. Nesse caso, não só pela corporação, mas como por toda a sociedade de maneira geral.

“A gente sabe que a forma de vida das pessoas reflete diretamente no bem estar mental. Influenciado não apenas pelos atributos e características pessoais, mas também pelas condições socioeconômicas e o ambiente no qual o indivíduo está inserido. É importante ter a consciência de que o adoecimento psicológico e mental é uma realidade e que o paciente precisa ser aceito e melhor compreendido não só pela corporação, mas como por toda a sociedade”, afirma.

No caso dos policiais, que estão diariamente expostos ao medo constante, inseguranças e incertezas, a especialista explica que cada um precisa conhecer as suas devidas limitações a fim de evitar um desgaste maior ou o adoecimento psíquico.

“O interessante é conhecer as suas necessidades individuais. Saber o seu limite, Compreender quando o corpo não está bem que as suas reações não estão mais condizentes com as sua maneira de pensar e de agir. Aceitar muitas vezes que precisa compartilhar que precisa de auxílio independente de um preconceito existencial ou não”.

Em nota enviada à reportagem,  a PM-BA informou que possui um psiquiatra atuando e mais dois em estágio de formação de oficial do quadro de saúde. A entidade ressaltou também que oferece atendimento psicológico em todas as grandes cidades do estado, através do Departamento de Promoção Social (DPS).

“No momento são 50 psicólogos (contando com os 20 contratados recentemente no regime REDA pelo Governo do Estado) que fazem palestras preventivas e atendimentos de demandas pessoais e ocupacionais”, diz o comunicado.

Em Salvador, o Departamento de Saúde (DS) da PM, funciona na Vila Policial Militar do Bonfim (VPMB). No local, é oferecido atendimento psicológico aos policiais militares e seus dependentes diretos (cônjuges e filhos), através do centro de reabilitação profissional que conta com quatro psicólogos.

Durante o período de março a setembro de 2020, em virtude da pandemia e com a suspensão de atendimentos presenciais, os atendimentos passaram a ser realizados por telefone, contudo em outubro de 2020 os atendimentos presenciais foram retomados.

As medidas adotadas pela corporação, são de extrema importância para os PMs, de acordo com a psicóloga ouvida pelo BNews. Ela enfatiza que o acompanhamento psicológico favorece a uma melhor compreensão dos sentimentos, emoções e comportamentos conscientes e inconscientes da pessoa e também ajuda no processo de autoconhecimento. 

“Esses profissionais estão envolvidos em uma rotina difícil de elevada exaustão psicológica e a terapia contribui significativamente para diminuição da tensão, mantendo o equilíbrio emocional”.

Programa de prevenção a distúrbios em policiais

A Câmara Municipal de Salvador aprovou, na tarde desta quarta-feira (7), o projeto de indicação 02/2021 de autoria do vereador Claudio Tinoco (Democratas) que prevê a criação e implementação de um programa estadual de prevenção a distúrbios pelo governo.

O projeto de indicação 02/2021 sugere que o governo estadual crie e execute um programa de prevenção e combate à depressão e suicídio dos policiais civis e militares do estado da Bahia. 

Como justificativa Tinoco destacou que o exercício dos agentes acarreta "elevado risco à vida, saúde e integridade física de seus integrantes" e acaba resultando um elevado índice de depressão e suicídio entre os integrantes da polícia civil e militar.

“É uma importante vitória para os policiais civis e militares do nosso estado. Ainda mais após a morte do policial militar Wesley Soares Góes na noite do dia 28 de março deste ano, ocorrida após um suposto surto e confronto com outros PMs. Espero que o governador acolha nossa sugestão e finalmente implante um programa que olhe para a saúde mental dos nossos agentes de segurança pública”, disse o vereador Claudio Tinoco.

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