Polícia
Imagens de câmeras corporais flagraram policiais militares agredindo, ameaçando com armas e submetendo dois adolescentes a uma “roleta-russa” durante uma operação na Favela da Caixa D’Água, na Zona Leste de São Paulo.
As gravações, obtidas pelo Fantástico (TV Globo), foram feitas pouco antes das 16h, em fevereiro do ano passado, e mostram ainda invasões a casas sem ordem judicial e o desaparecimento de material tratado como drogas. Na quarta-feira (15), o Tribunal de Justiça Militar condenou os envolvidos.
Agressões e ameaça com arma na cabeça
Nas imagens, dois policiais abordam um adolescente que não reage. O cabo Sandro Nascimento o segura pela camiseta e pelo pescoço, enquanto o soldado Eduardo Uchoa dá um tapa no rosto do jovem. Em seguida, Sandro aponta uma pistola para a cabeça dele.
Outro adolescente também é abordado. Sem oferecer resistência, ele tem uma arma encostada no olho por Sandro. Minutos depois, o sargento Amauri dos Santos chega ao local e aparece, pela câmera corporal de Uchoa, batendo com uma vara em um dos garotos.
‘Roleta-russa’ e tortura psicológica
Amauri pede para Uchoa virar de costas para a própria câmera. Em seguida, coloca uma única bala no tambor de um revólver, gira o cilindro, fecha a arma e a aponta para a cabeça de um dos adolescentes. Ele aperta o gatilho, mas o disparo não ocorre.
"A roleta russa é o expediente que se utiliza exatamente para torturas psicológicas. Se a munição alimentar a arma, dispara e o sujeito morre. É essa sorte ou azar que realmente inflige o temor na vítima", afirma Giovana Ortolano Guerreiro, promotora de Justiça Militar.
Depois, o sargento encosta a arma no rosto e no pescoço do adolescente. As imagens mostram que Uchoa presencia a ação, não interfere e ainda ri. Em outro momento, Amauri empurra a cabeça de um dos jovens com força contra uma parede.
Casas invadidas e drogas desaparecidas
As gravações indicam que Amauri chegou a obstruir a câmera corporal. Quando o vídeo retorna, cerca de quatro minutos depois, os policiais obrigam os adolescentes a circular pela favela e entram em diversas casas sem mandado judicial.
Em um dos imóveis, são encontrados galões, eppendorfs — suportes usados como pinos de cocaína — e pacotes aparentemente cheios de drogas. Parte do material é colocada em uma caixa, enquanto o restante vai para uma mochila e um saco preto, levados até a viatura do sargento.
Segundo a investigação, esse material desapareceu. Para a promotora, a entrada nas casas foi irregular e há indícios de desvio das drogas. "Foi uma ação irregular. Eles não poderiam adentrar imóveis aleatoriamente da forma como fizeram", afirma Giovana Ortolano Guerreiro.
Condenação e versões dos policiais
O caso veio à tona após auditoria de rotina das câmeras corporais. A Corregedoria da Polícia Militar investigou e prendeu Amauri e Sandro.
Amauri dos Santos foi condenado pelo Tribunal de Justiça Militar por tortura, abuso de autoridade, fraude processual — por obstruir a câmera — e peculato, pelo desaparecimento das drogas. A pena foi de 12 anos e 5 meses de prisão. A defesa dele não se manifestou.
Sandro Nascimento foi condenado por tortura e abuso de autoridade a 4 anos e 10 meses de prisão em regime semiaberto. Durante o processo, ele afirmou que encostou a arma no rosto de um adolescente porque se desequilibrou. O advogado sustentou que a conduta seria apenas uma transgressão disciplinar, tese rejeitada pela Justiça.
Eduardo Uchoa e outros seis policiais são réus e ainda serão julgados. Em nota, a defesa de Uchoa afirmou que acredita na inocência do soldado.
Imagens fortes: câmeras corporais flagraram PMs agredindo adolescentes e simulando uma roleta-russa durante abordagem em SP. O caso terminou em condenação na Justiça Militar. 🚨 pic.twitter.com/NnbXERvS2I
— bnewsvideos (@bnewsvideos) July 20, 2026
Câmeras registraram ação mesmo sem acionamento
Quase toda a ação foi registrada porque as câmeras operavam no modo Recall, que grava continuamente, sem áudio e em baixa qualidade, mesmo sem acionamento do policial. O sistema foi posteriormente substituído pela Polícia Militar.
Amauri não acionou voluntariamente o equipamento. Já Sandro ligou a câmera apenas ao entregar os adolescentes às mães e perguntar se alguém havia batido neles, antes de afirmar que os devolvia “íntegros”. As imagens anteriores mostram uma abordagem diferente.
A Polícia Militar informou que ampliou o programa de câmeras em 50%, chegando a 15 mil equipamentos, com custo 40% menor, e que acompanha o funcionamento da tecnologia para aprimorar a transparência e a segurança das intervenções.
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