Polícia
por Cauan Borges e Lucas Pacheco
Publicado em 23/07/2026, às 17h33 - Atualizado às 17h34
Passados dois anos do assassinato de Aisha Vitória, de 8 anos, na Travessa São Jorge, no bairro de Pernambués, em Salvador, o julgamento do acusado de ter abusado sexualmente da menina, identificado como José Wilson Souza da Silva, de 43 anos, permanece suspenso pela Justiça.
O homem confessou à Polícia Civil ter violentado sexualmente e estrangulado a vizinha em 23 de julho de 2024, mas a Justiça da Bahia determinou a realização de uma perícia para avaliar sua sanidade mental, o que interrompeu o andamento do processo. O pedido da defesa foi acolhido pelo juiz Paulo Sérgio Barbosa de Oliveira.
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Os advogados do réu justificaram a solicitação com base em relatos de que José Wilson ouvia vozes e havia tentado suicídio. Até a conclusão do laudo pericial, não há previsão para a retomada do julgamento. Com a suspensão, o acusado foi transferido do presídio para uma clínica psiquiátrica.
Em entrevista ao BNews, a mãe da menina, Dona Lívia Conceição, afirmou que o novo desdobramento aumentou seu sentimento de impunidade e impotência. Além disso, Lívia relatou que o acusado, no momento da prisão, teria dito que poderia ter matado sua filha ou sua caçula. Desde então, a família adotou medidas de segurança na residência, com instalação de câmeras de monitoramento.
O momento mais difícil foi saber hoje que um monstro como esse não se encontra mais no presídio, está numa clínica psiquiátrica e a impunidade na Justiça do Brasil não permite nem que ele fique tanto tempo numa clínica. Eu não vivo com segurança, como você pode observar que minha casa é toda monitorada hoje, porque eu não consigo sair e trabalhar em paz, porque eu não sei o que pode acontecer na minha ausência. Eu vivo hoje com medo a todo tempo, afirmou a mãe da vítima.
Segundo o depoimento de José Wilson à polícia, o acusado havia se mudado para a localidade quatro meses antes e observava a criança quando ela passava a caminho da escola ou brincava com vizinhos. Wilson relatou ter faltado ao trabalho naquele dia com a intenção de atrair a menina para sua residência.
O corpo de Aisha foi encontrado sobre sacos de construção na Travessa São Jorge, a poucos metros da casa onde vivia com a família. O laudo pericial indicou que a criança foi vítima de violência sexual e estrangulamento. De acordo com a mãe, objetos foram introduzidos no corpo da filha.
O que mais me doeu foi saber que objetos que foram introduzidos nela. Então, ele não só machucou ela fisicamente, mas ele quis machucar, ele quis. Não foi uma coisa que ele pegou e fez, ele usou requintes de crueldade mesmo. Não foi uma coisa que ele disse, 'eu surtei, eu fiz, mas vou ter que matar, porque ela mora aqui perto, ela vai falar quem sou eu'. Ele planejou tudo isso, ele deixou tudo esquematizado somente para pegá-la", disse Lívia Conceição.
Em 2015, o homem foi preso em flagrante por tentativa de abuso sexual contra outra criança, no município de São Gonçalo dos Campos, onde residia na época, e permaneceu pouco mais de uma semana detido. Sobre a possibilidade de perdão ao acusado, a mãe de Aisha foi direta ao afirmar que nunca perdoaria José.
Nunca, mas eu costumo dizer que realmente eu não vou reencontrar minha filha, porque eu vou direto para o inferno, sem sombra de dúvidas, porque eu nunca iria perdoar uma pessoa que tirou uma parte de mim sem anestesia”, afirmou.
Apesar da dor pela ausência de sua filha em sua vida, Lívia disse sentir a presença de Aisha no cotidiano. Visivelmente emocionada, a genitora contou ao BNews que a caçula, que é autista, frequentemente fala sobre a irmã.
Eu sinto a presença dela a todo momento. E eu tenho a minha filha autista, caçula, e ela fala sempre: 'Mãe, não precisa você chorar, não precisa você sofrer, porque ela sempre vai estar com a gente. Ela toda noite vem te dar um beijo e pede que você não chore'. Então, eu convivo com ela o tempo todo e ainda tenho que conviver, porque, como você pode ver, as três sempre foram a mesma cara. Então, eu ainda tenho que conviver com isso e todos os dias me deparar com Aisha, mesmo sendo que as pessoas não vejam a presença dela. Mas ela nunca saiu daqui", relatou Conceição.
Dois anos após o crime, a família aguarda o resultado da perícia e a definição de uma data para o julgamento. Enquanto isso, a mãe da vítima manifestou preocupação com a possibilidade de o acusado responder ao processo em liberdade.
Quantas Aishas vão sofrer? Quantas mães vão sofrer? Porque ele não esboça nenhum arrependimento, então ele vai agir novamente, como ele fez várias vezes”, questionou.
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