Polícia

Com falhas de efetivo e tecnologia, presídios da Bahia acumulam crimes comandados de dentro e vivem apagão de dados

Mateus Pereira/GOVBA
Série de crimes que aconteceram com ordens vindas de dentro de unidades penitenciárias expõe como presídios da Bahia se tornaram centrais de operações de facções  |   Bnews - Divulgação Mateus Pereira/GOVBA
Mariana Bamberg

por Mariana Bamberg

Publicado em 31/05/2026, às 07h00



Presos na Bahia continuam a orquestrar crimes como tráfico de drogas e sequestros de dentro das prisões, evidenciando a fragilidade do sistema penitenciário, que opera com um agente para cada 300 detentos e carece de monitoramento adequado.

Casos recentes, como o assassinato da adolescente Thamires e o sequestro de uma mãe e suas filhas, refletem a continuidade das atividades criminosas, mas não há dados oficiais que quantifiquem a relação entre esses crimes e as ordens emitidas de dentro das celas.

Embora a Justiça tenha determinado um plano para aumentar o efetivo de agentes penitenciários, a falta de controle sobre as comunicações e a corrupção dentro do sistema continuam a permitir que as facções se fortaleçam e operem livremente, sem que o Estado consiga dimensionar ou combater efetivamente o problema.

Como se as grades não fossem um limite, presos seguem articulando o tráfico de drogas, homicídios e sequestros de dentro de presídios na Bahia. Não é novidade nem surpresa diante de um sistema em que unidades sequer têm monitoramento oficial por câmeras e chegam a operar com a proporção de um agente para 300 presos. Casos como o assassinato da adolescente Thamires e o sequestro de uma mãe e suas filhas em um shopping de Salvador são exemplos recentes de uma engrenagem que continua funcionando de dentro das celas. Mas quantos crimes nascem dessas ordens, ninguém sabe. O dado simplesmente não existe. Nem no estado, nem em bases nacionais, nem em levantamentos independentes.

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A reportagem da BNews Premium tentou iniciar este texto dimensionando o problema, com a informação de quantos crimes aconteceram por ordens dadas de dentro de presídios baianos. Buscou a Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Tribunal de Justiça da Bahia, o Ministério Público (MP-BA), a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap-BA) e Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP-BA), por meio da Polícia Civil. Acionou o governo do estado, inclusive, via Lei de Acesso à Informação. Mas a resposta foi sempre a mesma: não existe esse dado.

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Operação
Operações em presídios baianos tentam coibir crimes, mas acabam 'enxugando o gelo' (Foto: Nucom/Seap)

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Quase tão preocupante quanto a denúncia é o apagão de dados, mesmo diante de tantas investigações expondo o problema. O caso Thamires, o sequestro no shopping e ainda o sequestro de uma jovem cujo tio recebeu um prêmio na Mega Sena não foram casos isolados. São parte de uma lista de crimes que nasceram de ordens vindas de presídios baianos nos últimos meses. Nesta relação, estão ainda ações dos comandos do tráfico em Laje, Juazeiro, Senhor do Bonfim e Serrinha, todos desarticulados nos últimos dias após a investigação apontar que as lideranças continuavam em atividade mesmo presas.

Ainda assim, o mais próximo que se tem do número oficial de crimes que saíram de presídios baianos é a quantidade de mandados cumpridos dentro deles: foram 93 somente nos primeiros quatro meses do ano, quase um por dia. O dado, claro, não reflete especificamente a quantidade de ordens que aconteceram atrás das grades neste período, porque muitas das ações podem não ter ainda demandado um mandado, assim como alguns dos crimes relacionados podem ter acontecido antes da prisão.

O fato é que o tamanho exato do problema é desconhecido, mas as consequências não. Especialistas ouvidos pela BNews Premium são unânimes: a fragilidade do sistema prisional baiano não só leva a uma falha no combate ao crime organizado, como também contribui para a estruturação e expansão desses grupos. 

Presos
Entre regalias e estruturações criminosas, facções tomam conta de presídios e fazem de detentos verdadeiros soldados (Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF)

Bunker do crime

Titular da Vara de Organizações Criminosas da comarca de Salvador, o juiz Waldir Viana Ribeiro Júnior faz uma análise histórica e mais profunda do problema. Ele atribui parte do poder que as facções têm hoje no país à “desestruturação crônica” do sistema prisional. Ele não tem dúvida de que presídios perderam a relevância no combate ao crime organizado. Porque não adianta a Justiça prender se a Secretaria de Administração Penitenciária não vai evitar que os crimes continuem acontecendo.
O Estado exercia o controle da muralha para dentro, mas perdeu o controle da população carcerária e permitiu que, durante muito tempo, os presídios se tornassem o bunker das organizações criminosas, onde elas pudessem se organizar, estruturar para exercer, num segundo momento, domínio fora do sistema prisional”, explicou o juiz à BNews Premium.
Essa “perda de controle” não é por acaso. Na Bahia, ela vem sustentada em falhas estruturais que se arrastam no próprio sistema prisional baiano.

Como montar uma central de operações do crime

Passo 1: Baixo efetivo

A principal brecha é o déficit de agentes penitenciários. O Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CBPCP) estabelece como ideal a proporção de um agente para cada cinco presos, mas a realidade está longe desse parâmetro. Nenhuma unidade baiana chega perto disso.

Presídio
Média de detentos por agente baiano é alta, o que impede um controle efetivo do sistema prisional (Foto: Nucom/Seap)

Segundo o Sindicato dos Policiais Penais da Bahia, a média baiana é de 83 detentos para cada agente. Em algumas penitenciárias, o cenário é ainda mais crítico. No Conjunto Penal de Feira de Santana, por exemplo, a proporção em plantões noturnos chega a 300 presos para um único policial penal. O número já foi pior, antes da convocação recente, e chegava a 900 presos para cada agente.

O caso de Feira de Santana é extremo, mas não isolado. Levantamento da Comissão Especial de Sistema Prisional e Segurança Pública da Ordem dos Advogados do Brasil mostra que a distorção se repete em diferentes unidades do estado.Veja:

- Cadeia Pública de Salvador - média de 48 custodiados por agente;

- Presídio de Serrinha - média de 33 custodiados para um agente;

- Presídio de Simões Filho - média de 25 custodiados para um agente;

- Presídio de Paulo Afonso -  média de 86 custodiados para um agente.

A Colônia Penal Lafayete Coutinho apresenta um dos melhores cenários, ainda assim com 18 presos por policial penal.

É uma conta que não fecha. No total, são cerca de 18,3 mil detentos distribuídos em 27 unidades prisionais, para um efetivo de 1.468 policiais penais, nem todos atuando diretamente na custódia. Divididos em quatro escalas, esses profissionais precisam dar conta de um sistema que já opera acima da sua capacidade.

Comemorando o pouco

Acatando um pedido do MP, a Justiça, no início do mês, chegou até a determinar que o governo baiano apresente um plano detalhado e um cronograma para que o efetivo no Presídio de Salvador suba gradativamente para 10 presos por policial penal. Mesmo muito distante da recomendação do CBPCP, a decisão foi motivo de comemoração para a categoria. A determinação também obriga a gestão a garantir ocupação permanente de guaritas e passarelas da unidade por agentes da Polícia Militar ou Penal, o que já é estabelecido pelo próprio Estatuto Penitenciário do Estado da Bahia, mas não é obedecido.

Passo 2: Passagem livre

Mas a falta de efetivo é apenas parte do problema. Outro ponto crítico é o controle sobre a comunicação dentro das unidades prisionais. Um exemplo simbólico é o caso do sequestro de mães e filhas em um shopping na capital baiana. Os policiais chegaram até uma mulher envolvida no esquema e ela mesma revelou a articulação do marido preso. Os agentes ligaram para o homem pelo celular dela e, de dentro da Penitenciária da Mata Escura, ele rapidamente atendeu. Em uma chamada de vídeo com os policiais, o detento revelou o endereço do cativeiro das vítimas.

A cena resume o funcionamento de um sistema em que as grades não impedem o contato com o mundo exterior. E não se trata aqui do contato garantido por lei para manter laços familiares e ajudar na ressocialização. É por meio desses aparelhos que ordens são repassadas, negociações são conduzidas e crimes seguem sendo coordenados em tempo real, mesmo com os líderes das organizações atrás das grades.

Novamente o silêncio estatístico

Apesar da recorrência, o estado também não consegue dimensionar esse problema. Em mais uma negativa de dados, a Seap informou não ter o número de celulares apreendidos nas unidades prisionais. A mesma informação foi fornecida por secretarias de dez estados e do Distrito Federal buscadas pela reportagem da BNews Premium.
Armas
 Investimentos em armamentos para policiais penais não traduzem na redução de crimes cometidos dentro dos presídios (Foto: Matheus Landim/GOVBA)

Na semana passada, a Operação Mute, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, retornou aos presídios baianos para combater as comunicações ilegais. A própria realização de operações desse tipo comprova, mesmo sem números oficiais, que o sistema não é capaz de impedir de forma contínua que esses contatos aconteçam. O que sustenta essa engrenagem de comunicação está no que descrevem os próprios agentes do sistema prisional.

Tecnologia que não funciona

Presidente do Sindicato de Policiais Penais, Reivon Pimentel revela que, em algumas unidades, por exemplo, não há sequer um sistema oficial de monitoramento por câmeras. “Quando tem, é um equipamento que não é profissional, que foi comprado pelos próprios colegas, pela direção das unidades, que tem uma verba para pequenas despesas e compra uma câmera hoje, outra amanhã, depois recebe uma televisão de doação. Mas não há nada oficial, são arranjos que se fazem com o que tem”, conta.

E se falta o básico, falta também o mais avançado. Bloqueadores de sinal de telefonia móvel não existem nessas unidades. Equipamentos de body scan, usados para identificar objetos escondidos no corpo de visitantes e detentos, foram até locados e entregues, mas não funcionam na maior parte dos presídios. A situação, inclusive, motivou um pedido formal de esclarecimento à Seap e uma representação junto ao MP, feitas pelo Sindicato de Policiais Penais.

Seap
Gestão da Seap é alvo de críticas e coloca situação do secretário José Castro em xeque (Foto: Joá Souza/GOVBA)

Segundo a denúncia, os equipamentos foram entregues pela locadora há aproximadamente um ano e instalados em unidades prisionais de plena gestão do governo do estado, mas permanecem inoperantes. Atualmente, a Bahia tem 27 unidades prisionais, sendo 11 delas em gestão compartilhada entre o governo do estado e a iniciativa privada, e 16 com administração plena do estado.

A ausência de bloqueador de sinal telefônico, a improvisação de sistema de monitoramento por câmeras e a quase inexistência de body scan, denunciadas pelo sindicato, se concentram justamente nas unidades de gestão plena do estado. Os policiais penais não enxergam coincidência nisso. Também não veem acaso no fato de que, segundo eles, 16 dos 17 body scans em funcionamento no estado estão em unidades de cogestão, mesmo tendo sido doados pelo hoje extinto Departamento Penitenciário Nacional.

Body scan
Equipamento que faz escaneamento corporal passou a ser implementado nos últimos anos; sindicato diz que investimento ainda é tímido (Foto: Nucom/Seap)
Vamos comparar a Penitenciária Lemos de Brito [de gestão plena do estado] com o Conjunto Penal Masculino de Salvador [sob cogestão]. Na Lemos de Brito são 1.695 presos, divididos em cinco módulos, 25 plantonistas ordinários, em uma estrutura da década de 1950. Aí você atravessa a pista, anda 50 metros, e tem o Conjunto Penal Masculino, com um modelo arquitetônico no padrão do CNPCP e toda a infraestrutura de tecnologia. Lá tem body scan, esteira de raio-x, bloqueio de sinal de telefonia, telamento aéreo na área de banho de sol, telamento no perímetro, Polícia Militar na guarita”, compara o presidente do sindicato, denunciando um “sucateamento proposital” nas unidades geridas plenamente pelo estado.

Passo 3: Corrupção no sistema

Mas nem mesmo onde há mais tecnologia o problema desaparece. Talvez apenas mude de forma. No início de maio, um monitor de ressocialização foi preso em flagrante ao tentar entrar no Conjunto Penal de Salvador com um celular, três smartwatches e um cabo carregador escondidos na bota. Funcionário de uma empresa terceirizada há três meses, ele alegou ter sido ameaçado por traficantes.

Mas o caso mais emblemático vem do sul da Bahia. Como em uma cena de filme, 16 detentos fugiram em 2024 do Conjunto Penal de Eunápolis em uma ação articulada com o lado de fora. Enquanto os presos perfuravam o teto de uma cela, um grupo de homens armados invadiu a unidade. O enredo ganha contornos ainda mais graves com o envolvimento da então diretora do presídio, Joneuma Silva Neres. Em delação premiada firmada com o Ministério Público, ela detalhou sua participação e afirmou que agiu a pedido do ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB), com quem mantinha um relacionamento. A fuga, segundo a investigação, renderia a ele R$ 2 milhões.

Na leitura de Misael França, professor da Faculdade de Direito da Ufba, o caso de Eunápolis coloca em xeque o próprio modelo de cogestão nos presídios baianos. Afinal, esperava-se que essas unidades, com participação da iniciativa privada, funcionassem como referência em estrutura e controle.

“No entanto, a corrupção, que está sob investigação [no caso de Eunápolis], revela que a cooptação de agentes públicos também desestabiliza a qualidade dessa gestão”, afirma. E é aí que está, segundo o professor, a prova de que a mera aquisição de equipamentos de segurança não é suficiente. Para ele, a localização dos nossos estabelecimentos prisionais e principalmente a urgência de capacitação e convocação via concurso público para novos agentes colocam a Bahia como um caso “muito peculiar” em relação ao restante dos sistemas prisionais do país.

Quando o sistema falha de dentro

Casos como o de Eunápolis não são exatamente novos no sistema prisional baiano. Durante anos, o traficante conhecido como Perna comandou o tráfico de dentro da prisão, mesmo em meio a disputas com outros líderes também encarcerados. Investigações revelaram que ele vivia em uma espécie de cela de luxo, com televisão, aparelho de DVD e até acesso à própria chave. Esse, para o professor da Ufba e sociólogo Luís Lourenço, é retrato antigo de um controle já comprometido e de um sistema que, há décadas, não apenas falha em conter, mas permite que estruturas criminosas se mantenham, se organizem e até se espalhem por trás das grades.

Lourenço lembra, por exemplo, que muitas facções nasceram dentro dos presídios, como o Comando da Paz, criado por detentos que reivindicavam melhores condições em unidades prisionais baianas. E, como se não bastasse o ambiente propício para o surgimento, as estratégias do próprio sistema permitiram a pulverização desses grupos.

Todos os estados que receberam lideranças transferidas do sistema prisional do Rio e São Paulo passaram a ter também, tempos depois, seus próprios grupos [ligados a essas facções]. Essa solução de isolar liderança, na verdade, acabou proliferando demais grupos criminosos, isso aconteceu aqui na Bahia também”, pontua o sociólogo.
Vistorias
Vistorias dos órgãos de controle identificam diversas irregularidades nos presídios baianos (Foto: MP-BA)

Passo 4: Agente interno de cooptação

Mas não é só no nascimento e na pulverização das organizações criminosas que os presídios exercem influência. Eles também atuam no fortalecimento desses grupos, funcionando, na prática, como um ambiente de cooptação. Tanto quem vive a dinâmica dos presídios quanto quem se dedica a estudá-la chega a esse mesmo diagnóstico. O presidente do Sindicato dos Policiais Penais, Reivon Pimentel, e a advogada e pesquisadora Daniela Portugal apontam que a ineficiência do sistema, marcada pela ausência de controle e de proteção por parte do Estado, acaba empurrando os próprios detentos para dentro das facções.

Reivon detalha como é feita a distribuição dos detentos dentro das unidades prisionais: não há análise sobre os crimes, o histórico ou idade; se o preso é de determinado bairro, ficará no módulo comandado pela facção que atua nele. É essa a única triagem. “Muitos desses jovens são usuários e foram apresentados como traficantes, lá dentro eles vão acabar servindo de soldado para a facção”, diz. Não é à toa que esse mecanismo acontece, é, como observa Portugal, por uma questão de sobrevivência. “Porque, se ele não se associar a algum tipo de facção, ele vai estar em risco naquele estabelecimento. O Estado não vai garantir a ele proteção, mas uma facção vai”, destaca a pesquisadora.

É nesse ponto que Daniela Portugal destaca: “as unidades prisionais não cumprem sua função declarada”. Em vez de ressocializar e evitar a reincidência, operam no sentido contrário, viabilizando o nascimento, o crescimento e a disseminação de grupos criminosos. E mesmo com denúncias sobre o sucateamento dos complexos avançando os muros e investigações expondo essas dinâmicas, não há sequer dados capazes de dimensionar o problema. Mas esse silêncio estatístico, pondera a pesquisadora, não é por acaso.

No momento que o estado sonega essa transparência, ele se blinda contra as eventuais críticas que, de forma justa, deveriam ser direcionadas à má prestação desse serviço que não cumpre as funções e objetivos que diz cumprir. Por que o estado vai querer divulgar os índices de reincidência? Qual o interesse do estado em divulgar a sua própria ineficiência?”, questiona.

A reportagem da BNews Premium buscou a Seap para que se posicionasse, detalhando as denúncias trazidas pelo Sindicato dos Policiais Penais e solicitando os dados da própria pasta, mas não houve um retorno até o fechamento da reportagem.

Classificação Indicativa: Livre

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