Polícia
por Silvânia Nascimento
silvania.nascimento@bnews.com.br
Publicado em 11/05/2025, às 14h18 - Atualizado às 15h32
Pela primeira vez em 23 anos, Maria passa o Dia das Mães sem a presença do filho mais velho. Há seis meses, ela convive com a dor e a angústia de não ter por perto Paulo Daniel Pereira Gentil do Nascimento. Pior do que a ausência física, é não ter nenhuma notícia, nenhum sinal de onde ele possa estar.
O último contato com Paulo Daniel foi no dia 3 de novembro, um dia antes de ele sair para trabalhar em um ferro-velho no bairro de Pirajá, em Salvador. No dia 4, o desaparecimento de Paulo e de seu colega Matusalém Muniz veio à tona. Desde então, tudo o que Maria mais busca é justiça e o direito de se despedir de forma digna do filho. Ao BNEWS, a mãe— que preferiu não divulgar o sobrenome — abriu o coração e detalhou como tem sido viver sem resposta e com tanta dor.
"Os dias têm sido de tristeza, dor, angústia e sofrimento porque não estou tendo resposta nenhuma da Justiça, não estou tendo nenhum apoio. Entende? Somente de Deus e da minha família. Ele era meu primogênito. Tenho outro filho de 22 anos, mas nada preenche esse vazio. Meu primeiro filho foi planejado, foi muito amado, foi desejado. Eu dizia que teria meu primeiro filho aos 24 anos e o segundo aos 25. E foi exatamente o que aconteceu. Então ele foi desejado, planejado e esperado", contou.
Na memória de Maria, estão as lembranças dos momentos vividos ao lado do filho, da forma respeitosa e amorosa com que se tratavam. Contudo, até as boas lembranças se tornaram dolorosas. "Não tive uma despedida com meu filho. A última vez que falei com ele foi no dia 3 de novembro, numa videochamada em que me chamou de 'coroa'. Essa é a última lembrança que tenho: ele vestia uma camisa azul e uma bermuda estampada. Só peço às autoridades que me respeitem e me deem o meu direito de mãe — de saber, de ter uma resposta. De onde jogaram o meu filho, como está a investigação. Mesmo que seja sigilosa, eu tenho esse direito. Eu sou mãe", clamou.
"Ele me chamava de 'coroa'. Chegava na minha casa, de repente, perguntando o que tinha pra comer. Eu não consigo mais fazer, nem comer quiabada — uma das comidas que ele mais gostava. As lágrimas descem. As coisas dele estão intactas na minha casa. Não mexi em nada. Está tudo igual. Ele morava com a esposa, mas o lugar dele lá em casa sempre existiu", lembrou Maria.
Ainda durante a entrevista, a mãe de Paulo Daniel afirmou que, embora Marcelo Batista — apontado como principal suspeito do desaparecimento dos jovens — continue foragido, ela confia na Justiça Divina. "Eu fui, sou e sempre serei mãe. Vou lutar até o último minuto do meu suspiro pelo meu filho, para ter pelo menos uma despedida digna, nem que seja só os ossos. Mas que eu saiba onde ele está. Porque eu sei que a alma dele o Senhor já recolheu, está com Ele. Disso eu tenho plena certeza. Meu filho foi criado no evangelismo. Não foi batizado, ele foi apresentado. Eu ensinei que primeiro é Deus, segundo é Deus, terceiro é Deus — o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Depois vem o resto. Então eu creio que, quando tudo isso aconteceu, meu filho chamou por Deus e por mim. Eu creio nisso. E creio que a Justiça de Deus será feita".
Marcelo Batista, proprietário do ferro-velho, chegou a ter o mandado de prisão revogado em abril, mas, dias depois, a Justiça baiana expediu um novo mandado. O empresário teve a prisão preventiva decretada em 10 de novembro, após ser apontado como responsável pelo desaparecimento dos dois jovens. Na época, familiares das vítimas relataram que ele teria sequestrado Paulo Daniel e Matusalém.
Maria relatou ainda que, ao saber que Marcelo Batista havia deixado de ser considerado foragido da Justiça, precisou ser internada. "Quando o juiz fez isso, sabe onde eu fui parar? No hospital. Tive um princípio de AVC [Acidente Vascular Cerebral] e fui parar na UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. O Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] me levou para o Hospital do Subúrbio, foi o único que encontrou vaga. Fiquei internada na UTI. Quando saí de lá, clamando e orando a Deus, dois dias depois, o Senhor usou outro juiz, e a prisão dele foi decretada novamente", declarou.
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