Polícia

Setembro Amarelo: Policiais escondem sofrimento por medo de represálias e tentam ser fortes até não poder mais, afirma psiquiatra

Alberto Maraux / SSP-BA
Cada dia no serviço deixa marcas que não aparecem nos relatórios, mas pesam no corpo e na mente desses heróis.  |   Bnews - Divulgação Alberto Maraux / SSP-BA
Adelia Felix

por Adelia Felix

adeliafelix@bnews.com.br

Publicado em 12/09/2025, às 05h00 - Atualizado em 19/09/2025, às 06h00



A tensão acompanha cada passo dos policiais no enfrentamento da criminalidade. Trocas de tiros e chamadas incessantes fazem parte da rotina. Mas é nos momentos silenciosos entre os turnos que se acumulam as marcas invisíveis. É a solidão emocional, o medo contido, a pressão do trabalho, uma exaustão que não passa.

A saúde mental dos policiais se tornou um território frágil. Cada dia no serviço deixa marcas que não aparecem nos relatórios, mas pesam no corpo e na mente. Na Bahia, em 2024, mais policiais da ativa tiraram a própria vida do que morreram em confrontos durante o serviço, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.

BARREIRAS CULTURAIS E ESTIGMA DA FORÇA
Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Antonio Pedreira, com mais de 45 anos de atuação, barreiras culturais e institucionais dificultam o cuidado. “Os estigmas inerentes ao próprio do trabalho policial, o qual exige do mesmo, força física e mental e resiliência. Isso se torna agravado pela falta de confiança nas instituições que podem não lhe dar o apoio confidencial e eficaz”, disse em entrevista ao BNEWS.

Para o especialista, o estigma da força e da resistência faz com que muitos ignorem os próprios limites. “A profissão policial requer da pessoa uma imagem de força, e por conta desse estereótipo a busca por ajuda pode ser visto como um sinal de fraqueza, levando os policiais a aguentarem até não mais poder e ao atingir esse limite, aguentarem um pouco mais ainda, desconsiderando os seus limites”.

Alberto Maraux / SSP-BA

PRESSÃO HIERÁRQUICA E FALTA DE RECURSOS
Ele completa que as barreiras institucionais incluem pressão hierárquica, jornadas exaustivas e falta de recursos, e afirma que nem sempre há recursos adequados ou acesso fácil a apoio psicológico confidencial e contínuo.

“A pouca confiança de que os recursos existentes podem não ser confidenciais ou não lhes oferecerem o devido apoio pode ser um obstáculo para a busca por ajuda”, alerta.

MEDO DE REPRESÁLIAS
Além disso, de acordo com o psiquiatra, a pressão hierárquica e o medo de represálias fazem muitos esconder o sofrimento. “O receio de que a identificação de qualquer transtorno na saúde mental possa prejudicar a carreira deles, ou mesmo vir a sofrer alguma discriminação ou punição pode levar-lhe a preferir ocultar os sofrimentos psíquicos e silenciar.”

MUDANÇA DE CULTURA
Pedreira sugere mudanças na cultura e políticas institucionais. “A liderança das forças de segurança deve reconhecer e comunicar abertamente a importância da saúde mental, normalizando a discussão sobre o tema.”

Ele também defende programas de apoio psicológico contínuo e acessível. “Promover programas que contemplem um apoio psicológico contínuo, de fácil acesso e confidencial, com ênfase na psicoterapia que é o modo eficaz e eficiente de elaboração de conflitos psíquicos, pois não há remédio algum até hoje no mundo, capaz de fazer isso.”

CONDIÇÕES DE TRABALHO
O psiquiatra também recomenda atenção às condições de trabalho. Segundo Pedreira, é preciso observar as escalas e reduzir, dentro do possível, a carga horária. O objetivo é equilibrar vida pessoal e profissional. Para ele, essa medida ajuda a reduzir o estresse e o crescente índice de casos de esgotamento biopsíquico e relacional, conhecido como Síndrome de Burnout.

Alberto Maraux / SSP

O QUE A PM BAIANA TEM FEITO?
Ao BNEWS, a PM destacou que os policiais e seus familiares têm acesso a atendimentos clínicos e psicoterápicos, individuais e em grupo, com foco na regulação psicoemocional. A corporação promove ainda ações preventivas, como palestras, rodas de conversa, mesas redondas, simpósios e colóquios, que incentivam o diálogo sobre saúde mental e valorização da vida.

Um destaque é o Programa de Acompanhamento e Apoio ao Policial Militar, voltado para agentes envolvidos em ocorrências com resultado morte, que inclui avaliação técnica, acompanhamento psicológico e atividades de capacitação. A PM também adotou um protocolo específico para prevenção e posvenção de suicídios, padronizando procedimentos diante de ideação, tentativa ou consumação, e garantindo atendimento em todo o estado, inclusive por teleatendimento e clínicas conveniadas em regiões mais distantes.

COMO A POLÍCIA CIVIL DA BAHIA TEM AGIDO?
Segundo o diretor do Departamento de Gestão de Pessoas, Saúde e Valorização Profissional da Polícia Civil (DPSV), Gésse de Souza Silva, a PC oferece atendimento psicológico e social contínuo para policiais e familiares, com equipes de psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros que realizam buscas ativas nas unidades por meio do projeto DPSV ao Seu Lado.

Além disso, a corporação também realiza atendimentos estratégicos em unidades como DHPP e Complexo do Ongujá, além de teleatendimento para policiais do interior. Entre as ações de prevenção, o diretor destaca o curso de 20 horas sobre Abordagem e Prevenção do Suicídio, que já formou mais de 200 profissionais, e o programa Apoio aos Enlutados, voltado a policiais e familiares após falecimentos.

Gésse destacou também que a polícia prepara a formalização do Programa de Atendimento a Policiais que vivenciam situações traumáticas, que sistematizará o acompanhamento pós-trauma na capital e no interior.

"Esse acompanhamento já acontece na prática, mas a portaria vai permitir sistematizar melhor as ações, tanto na capital quanto no interior do estado. No interior, por exemplo, já contamos com salas de atendimento nas sedes das Coordenações Regional de Polícia do Interior, além do serviço de teleatendimento, que possibilita acolher os policiais de forma mais rápida e acessível", disse.

Alberto Maraux / SSP-BA

POLÍTICAS CLARAS DE SUPORTE
De acordo com o psiquiatra, a capacitação de líderes e colegas também é essencial. “Capacitação de líderes e colegas para a pronta identificação dos primeiros sinais de sofrimento mental e oferecer-lhes apoio inicial, importante na interrupção do ciclo vicioso: sofrimento e silêncio”, diz o médico.

O especialista ainda defende a criação de políticas claras de apoio à saúde mental. Segundo Pedreira, essas políticas devem garantir que os policiais possam buscar ajuda sem correr o risco de serem punidos.

Classificação Indicativa: Livre

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