Polícia

"Tia Luzia tem 260 dias que não tem resposta, não dorme", diz prima do jovem Vitinho, após investigações sobre assassinato se arrastarem

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A família de Vitinho promete lutar até que os responsáveis pelo crime sejam identificados e punidos conforme a lei  |   Bnews - Divulgação Reprodução/Redes Sociais
Lucas Pacheco

por Lucas Pacheco

lucas.pacheco@bnews.com.br

Publicado em 31/01/2026, às 12h35 - Atualizado em 02/02/2026, às 08h42



No dia 10 de maio de 2025, o jovem negro Victor Cerqueira, de 28 anos, conhecido pelos moradores de Caraíva, no Sul da Bahia, como Vitinho, foi brutalmente torturado e assassinado. O guia turístico foi morto durante uma operação da Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) contra um grupo suspeito de tráfico de drogas e armas, homicídios, roubos, lavagem de dinheiro e corrupção de menores na localidade. 

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Victor teria sido confundido com um segurança de "Alongado", chefe de uma facção criminosa, preso na mesma operação, que também tinha o apelido de Vitinho.

Na época do ocorrido, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) informou ao BNews que na operação realizada pelas forças estaduais e federais, dos dois suspeitos mortos, um deles possuía mandado de prisão. Ainda segundo a SSP, eles foram atingidos após troca de tiros relatada pelos agentes e chegaram a ser socorridos, mas não resistiram aos ferimentos. 

Quase um ano após o crime, as investigações sobre o caso se arrastam, prolongando a dor e o desespero da família do jovem.  O inquérito instaurado pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) ainda não foi finalizado e os familiares seguem sem respostas e sem esclarecimentos sobre os motivos da demora, o que, segundo eles, aprofunda a sensação de impunidade e agrava o sofrimento da família.

"Não se sabe o real motivo para a demora da finalização das investigações e indiciamento dos investigados. Ainda assim, a defesa entende que o prolongamento do procedimento compromete a efetividade da justiça e agrava a sensação de impunidade", disse a família em nota.

Em conversa com o BNews, Adriana Souza, prima de Victinho, afirmou que nada de ilícito foi provado contra ele. 

"Victor, ele era um rapaz cheio de sonhos, muito trabalhador. A gente costuma dizer que a idoneidade de Victor já foi provada nas investigações, nas oitivas que houve. Das 20 e tantas pessoas que foram ouvidas, 8 eram ex-patrões dele, que foram ouvidos amigos, familiares. A idoneidade dele foi provada. O que não tem como ser provado é o envolvimento dele com o ilícito. A forma como ele foi morto foi uma maneira brutal, um assassinato, foi uma sessão de tortura seguida pelo assassinato dele. Foi entregue para nós o corpo dele no dia das mães, com sérios indícios de tortura, com muitas marcas. E a gente até hoje não teve nenhuma resposta do que foi que houve. O que a gente sabe é que houve uma operação policial em Caraíva no dia 10 e ele estaria na beira do rio aguardando os hóspedes, a mando do patrão dele", diz a prima. 

Ela disse ainda que, embora a polícia tenha dito que morte teria acontecido em confronto com agentes da segurança, testemunhas viram Vitinho algemado antes do assassinato. 

"Então, a polícia, numa entrevista à televisão, disse que os dois indivíduos tinham sido mortos em combate. Mas, Victor foi visto algemado, sendo retirado vivo, andando com as pernas dele. Existem testemunhas que viram isso. Se foi morto em combate, para que algemar? E por que algemar um morto? E como que a pessoa algemada entrea em combate? Então são muitas respostas que não foram dadas sobre qual a acusação ele foi levado. Victor dois dias antes esteve na delegacia de Trancoso prestando uma queixa. Eu tenho um áudio dele me dizendo como foi recebido na delegacia. Me mandou o BO de ocorrência de um fato que teve lá e ele foi na delegacia prestar uma queixa contra racismo. E dois dias depois acontece uma operação onde ele é brutalmente morto. Então, como é que não liga essas informações?". 

Diante da ausência de respostas concretas, a defesa da família intensificou as diligências presenciais com o objetivo de impulsionar a apuração dos fatos, cobrar providências e obter esclarecimentos formais sobre o andamento do inquérito. 

"Então, muitas coisas precisam ser respondidas que a gente não sabe ainda. A polícia não responde, o Estado não responde. Um funcionário do Estado cometeu uma atrocidade dessa e ninguém fez uma ligação para a mãe desse menino. Ninguém ligou para falar o que foi que houve. Bandido ele não era. Não existe em nenhum órgão público, nenhum registro de criminalidade de Victor. Não tem mandado de prisão, não tem mandado de investigação. Não há nada. Não há nada que coloque ele sob suspeita. Tudo que se é deposto sobre Victor é da idoneidade dele. Então, um ser humano foi morto, torturado, assassinado pelo Estado e a gente quer resposta. O que a gente está buscando hoje é que esse inquérito seja instaurado, que a denúncia seja feita, já que o Ministério Público até agora, com todas as evidências, não fez a denúncia. Nós queremos agora que essa denúncia seja feita para que a gente tenha acesso aos autos também para saber o que foi que aconteceu, o que esses policiais fizeram, argumentam. O que foi que aconteceu naquela operação que levou à morte de Victor. É uma pergunta que tia Luzia tem 260 dias que não tem a resposta, que não dorme, não segue a vida dela para frente, porque não tem a resposta. Quem foi que matou o filho dela e por que mataram o filho dela?", desabafou Adriana. 

Na nota divulgada pela família, os familiares e a defesa reafirmaram que não descansarão até que os responsáveis sejam identificados e responsabilizados e que o caso receba o tratamento que a Constituição e o Estado Democrático de Direito exigem, "especialmente diante de mais um episódio que envolve violência letal contra um jovem negro inocente".

O BNews procurou o Ministério Público da Bahia (MP-BA) para entender a situação e buscar explicações sobre as declarações da família de demora das investigações. Em resposta, o órgão afirmou que "está realizando uma investigação própria do caso, que tramita sob sigilo" e que, por isso, não pode prestar mais informações. 

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