Política

Em baixa para 2022, Bolsonaro adota "vacina retórica" para eventual derrota

[Em baixa para 2022, Bolsonaro adota "vacina retórica" para eventual derrota]
10 de Julho de 2021 às 18:34 Por: Arquivo Por: Folhapress

Acuado por pesquisas de opinião que apontam picos de rejeição e amplo favoritismo de seu provável adversário nas eleições presidenciais de 2022, Jair Bolsonaro intensificou nos últimos dias declarações que questionam o sistema eleitoral brasileiro e traçam o roteiro de como o presidente deve se comportar numa eventual derrota nas urnas.

Sempre sem apresentar provas, Bolsonaro insiste que haverá fraude no ano que vem e que o resultado já estaria definido. Subindo o tom nas ameaças, ele também afirmou que as eleições podem simplesmente não ocorrer caso não haja um sistema confiável –segundo ele, o voto impresso.

Interlocutores afirmam que Bolsonaro se vê pressionado a reforçar os laços com sua base mais fiel e ideológica.

Num momento de profundo desgaste, é prioridade para o mandatário evitar um derretimento em sua avaliação positiva para níveis inferiores aos atuais, considerados um colchão seguro contra a possibilidade de um impeachment.

O problema, dizem aliados, é que o repertório até então usado por Bolsonaro tem se esgotado. A discussão sobre a cloroquina, por exemplo, perdeu força e sumiu dos debates com o avanço da vacinação e as novas revelações na CPI.

Com isso, as declarações sobre possíveis fraudes nas eleições, embora sem embasamento, converteram-se no novo mantra para mobilizar a militância mais aguerrida.

Outro lado da estratégia é tentar desviar o foco do debate público da CPI da Covid, hoje o principal fator de desgaste para o Planalto.

"A fraude está no TSE, para não ter dúvida. Isso foi feito em 2014", declarou Bolsonaro nesta sexta (9), repetindo a acusação infundada de que o então candidato Aécio Neves (PSDB) teria vencido o pleito contra Dilma Rousseff (PT).

A afirmação de Bolsonaro foi contestada pelo próprio Aécio, que disse não acreditar que tenha existido fraude naquela eleição. Bolsonaro aproveitou também para investir contra Lula e Renan Calheiros, relator da CPI da Covid.

"Então isso é fraude, é fraude, é roubalheira. Vocês acham que o Renan Calheiros, por exemplo, se pudesse fraudar a votação ele fraudaria pelo caráter que ele tem? A única forma de bandidos como Renan Calheiros se perpetuarem na política, entre outros que estão do lado dele, o nove dedos, é na fraude", afirmou, referindo-se mais uma vez de forma pejorativa a Lula.

"Não tenho medo de eleições, entrego a faixa para quem ganhar, no voto auditável e confiável. Dessa forma [atual], corremos o risco de não termos eleição no ano que vem", acrescentou.
Em conversa com apoiadores, ele sugeriu ainda que o resultado das eleições do ano que vem já estaria decidido.

"Já está certo quem vai ser [presidente], como está aí. A gente vai deixar entregar isso?", indagou Bolsonaro.

Para completar o cenário de dificuldades para Bolsonaro, o presidente viu o Congresso –inclusive partidos aliados– juntar-se a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) contra a PEC (proposta de emenda à Constituição) do voto impresso.

Diante disso, ele passou a atacar de maneira mais grosseira integrantes do STF, em especial Luís Roberto Barroso, que preside o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Nesta sexta, por exemplo, ele chamou Barroso de "imbecil" e "idiota".

Ao longo da última semana, ele destilou em diferentes ocasiões ameaças ao processo eleitoral brasileiro.

"Eles vão arranjar problemas para o ano que vem. Se este método continuar aí, sem, inclusive, a contagem pública, eles vão ter problemas. Porque algum lado pode não aceitar o resultado. Este algum lado, obviamente, é o nosso lado, pode não aceitar o resultado", disse Bolsonaro na quarta (7) à Rádio Guaíba.

No dia seguinte, dobrou a aposta e pôs em dúvida a realização das eleições.

"Eleições no ano que vem serão limpas. Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições", disse a um grupo de apoiadores.

Não é de agora que o presidente eleito em 2018 vem alegando fraudes na própria eleição e na de 2014. Ele, porém, nunca apresentou nenhuma prova.

A principal estratégia do presidente para questionar as eleições é colocar em dúvida a segurança das urnas eletrônicas, sistema usado desde 1996 e considerado eficiente e confiável por autoridades e especialistas no país.

O próprio Bolsonaro foi eleito para o Legislativo usando o sistema em diferentes ocasiões, assim como venceu o pleito para o Palácio do Planalto em 2018 da mesma forma.

Bolsonaro defende a adoção do voto impresso no Brasil –segundo ele, auditável. Tramita no Congresso uma proposta nesse sentido, mas a ideia conta com oposição de uma coalizão de partidos, alguns deles da própria base de Bolsonaro.

Após reunião ministerial no início da semana, o staff palaciano saiu às redes sociais para fazer coro discurso do chefe pró-voto impresso.

"Por que tanta luta para impedir a melhoria da urna eletrônica? Por que quem era a favor da mudança agora ficou contra? Vale até mentir falando na volta do voto de papel", escreveu o chefe da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos.

Na sexta (9), Barroso e o presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), reagiram às ameaças golpistas.

Pacheco disse que "todo aquele que pretender algum retrocesso ao estado democrático de direito esteja certo que será apontado pelo povo brasileiro e pela história como inimigo da nação".

Barroso afirmou, em nota, que qualquer tentativa de impedir a realização de eleições em 2022 "configura crime de responsabilidade".

A sequência de declarações que constroem a retórica de uma eventual derrota nas urnas ocorre em meio à divulgação de levantamentos eleitorais que apontam ampla vantagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Nesta sexta (9), pesquisa Datafolha mostrou que Lula ampliou sua liderança em relação a Bolsonaro em citações espontâneas.

O petista também aparece na frente nos dois cenários apresentados para o eleitor e em todas as simulações de disputa de segundo turno –naquela em que enfrenta Bolsonaro, tem 58% contra 31%.

Pouco antes, o Datafolha mostrou que, além de a maioria dos entrevistados avaliar o presidente como desonesto, falso, incompetente, despreparado, indeciso, autoritário e pouco inteligente, sua reprovação atingiu novo recorde –51%.

Somado aos números negativos para o Planalto está o avanço da CPI da Covid, que deixou para trás temas como cloroquina, gabinete paralelo e recusas de ofertas da Pfizer para focar em denúncias de corrupção envolvendo a compra de vacinas.

Os dois episódios revelados pela Folha atingiram a imagem de Bolsonaro, manchando a bandeira de honestidade da qual o presidente se gabava e que ele tentava preservar para a disputa de 2022.

Além disso, novas dores de cabeça rondam Bolsonaro, como o aumento dos preços dos combustíveis e a sombra de uma crise energética.

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