Política

Vereadora do PT repudia agressão de Fábio Vilas-Boas a chef de cozinha: "Atitude machista"

[Vereadora do PT repudia agressão de Fábio Vilas-Boas a chef de cozinha: "Atitude machista"]
02 de Agosto de 2021 às 19:50 Por: BNews/Vagner Souza Por: Henrique Brinco

Líder da oposição na Câmara Municipal de Salvador, a vereadora Marta Rodrigues (PT) rechaçou a agressão cometida pelo secretário de saúde do Estado, Fabio Villas Boas, à empresária Angeluci Figueiredo, proprietária do restaurante Preta, em Ilha dos Frades. Em conversas que vazaram em grupos de WhatsApp, o secretário aparece chamando a chef de "vagabunda", entre outras ofensas. 

"Minha solidariedade a Angeluci Figueiredo por ter sido vítima dessa agressão, consequência do machismo que nós mulheres cotidianamente sofremos. Precisamos combater o machismo sem pestanejar, independentemente do lado que ele parta. Mais do que se desculpar, é importante que ele  reflita sobre seu ato e assuma que teve uma atitude machista, pois este reconhecimento é fundamental partindo de uma pessoa pública, pois reverbera e colabora para combatermos o machismo na sociedade", disse.

Para Marta,  o pedido de desculpas deve se estender  a todas as mulheres. "Esta agressão atinge a todas nós. Nossa luta é constante pelo respeito às mulheres em suas casas, em seus trabalhos e em suas vidas. O machismo não mais passará despercebido. Minha solidariedade a Angeluci", pontuou.

Mais cedo, Fábio usou o Twiiter para se pronunciar sobre o caso. "Por mais cuidadosos que sejamos, ao longo da vida cometemos erros que podem atingir as pessoas. Peço, portanto, desculpas à empresária e artista da gastronomia baiana, a Chef Angeluci Figueiredo, pelos comentários inadequados no último domingo (1), em circunstâncias injustificáveis, enviados por mensagem privada. Tendo reservado um almoço especial com os familiares e amigos do exterior com a devida antecedência de 48h, uma enorme frustração momentânea me levou, tomado de emoção, a dizer o que disse. Conto com o perdão de todos que se sentiram ofendidos, pois sempre pautei minha vida na verdade, honestidade e acolhimento".

A empresária contou em uma nota compartilhada nas redes sociais que as declarações do secretário ocorreram após ele chegar na ilha e encontrar o seu restaurante fechado.

Veja, na íntegra, a nota da empresária em repúdio às declarações do secretário:

"Prezado secretário, 


A primeira perspectiva adotada por mim diante de mensagens enviadas em seu nome, da sua conta de WhatsApp me ofendendo, me xingando de vagabunda, me atribuindo condições que não condizem com as minhas atividades financeiras e empresariais foi partir do pressuposto que sua conta foi clonada ou que, outra pessoa, por razões que eu desconheço, usou seu celular e sua conta, à sua revelia, para me ofender. 

Como é de conhecimento público, a Capitania dos Portos, em virtude da instabilidade do tempo, das condições climáticas e das variações do vento e da navegabilidade na Baía de Todos os Santos, recomendou a restrição de navegação em todo o entorno, incluindo, claro, a Ilha dos Frades, onde funciona o restaurantes. Em virtude dessa decisão, o restaurante foi fechado, já que não haveria como os clientes das reservas chegarem à ilha e até mesmo como os funcionários se deslocarem em pequenas embarcações até o restaurante. O fechamento do restaurante e o cancelamento do atendimento, embora antes de tudo gere prejuízos econômicos para mim e toda a minha equipe, foi determinado pelas circunstâncias climáticas, não por um gesto irresponsável meu ou de alguém ligado a mim. As condições do tempo afetam todas as rotinas da ilha, inclusive as comunicações, que, frequentemente, nos últimos dias, ficaram interrompidas. Não temos serviço de telefonia de grande qualidade nas ilhas, por limitações das operadoras, é o serviço de Wi-Fi torna-se precário à primeira oscilação das condições de tempo.

Em inúmeras vezes já lhe atendi e aos seus convidados com toda a cordialidade, eficiência e responsabilidade que devo a todos os meus clientes. Se agora lhe escrevi, não é para lhe pedir desculpas por um transtorno que não foi causado voluntariamente por mim. Escrevo-lhe para lhe pedir, publicamente, já que fui ameaçada por suas mensagens de exposição pública pelo fato de seus convidada não poderem consumar a reserva no restaurante neste domingo, para refletir sobre a gravidade e a injustiça do tratamento a mim dispensado. 

Pergunto-lhe: o que autoriza uma autoridade, no exercício de uma função pública das mais relevantes do estado - a de secretário de Saúde do Estado da Bahia, e durante uma pandemia, o que torna a sua função sinhá mais responsável - chamar uma mulher de VAGABUNDA? O senhor admite algum senso de possibilidade de razoabilidade no seu gesto, no uso dessas palavras? E como se fosse insuficiente essa ofensa, o senhor me ameaça, de queixar-se a empresários e de me expor nos meios de comunicação, secretário. 

Reitero: o restaurante Preta foi fechado por forças das circunstâncias climáticas, após boletim das autoridades públicas que defendem a segurança e a vida na navegabilidade, questão que o senhor, como autoridade máxima da saúde pública do estado conhece melhor que eu. 

Os tempos mudaram, secretário: inexistem contextos que justifiquem essa relação de senhor e vassalo. Eu não sou vagabunda. Sou uma mulher digna, honrada, profissional, empresária, geradora de empregos e com uma árdua rotina de trabalho, física, inclusive, para realizar um sonho e um projeto de oferecer aos meus clientes um serviço de qualidade. Mas não de qualquer jeito: só quando as circunstâncias me permitem. 

Reflita sobre a gravidade das duas palavras e sobre a inadequação e a vulgaridade delas. Como lhe disse, a roda da história gira, e, nesse giro, me desculpe, mas parece não ter lhe beneficiado. Veja bem em que lugar as circunstâncias históricas NOS COLOCARAM: o secretário, um médico bem sucedido, empresário, agropecuarista, homem branco, de família tradicional, etc, etc, alimentando a cultura da intolerância e dos tais privilégios ditos brancos, ofendendo moralmente uma mulher negra, chamando-a diretamente de vagabunda, e por quê? Pelo fato de razões climáticas terem lhe impedido um domingo de bem estar num restaurante localizado numa ilha sujeita a intempéries, como qualquer local no meio do mar.

O senhor sabe o que é ser misógino, secretário? Sabemos que sim, o senhor sabe. Mas sabemos que nesse país ninguém é racista, ninguém é misógino. Aqui não há nunca vítimas, só vitimismo e mimimi, afinal devemos garantir que autoridades se sintam à vontade para sacar o telefone e chamar uma mulher de vagabunda, simplesmente porque pode, porque um desejo foi frustrado pelo tempo. 

Vou reiterar a misoginia: o senhor chamaria de vagabundo um homem branco, dono de um restaurante, pelo fato de esse homem ter sido impedido de lhe atender num domingo de chuvas e ventos fortes? Fiquemos por aqui. O senhor sabe que não sou vagabunda, não sou irresponsável, não vivo de mesada de quem quer que seja e que, diferentemente do que o senhor me escreveu, eu preciso trabalhar. Felizmente, preciso e gosto muito do que faço. Não nasci ancorada por sobrenome tradicional e nunca exerci cargo público, esferas onde pessoas com esse perfil que me atribui volta e meia circulam na imprensa. 

Reflita, secretário e serei generosa e didática: se for me expor na imprensa, envie às redações o print do monólogo ofensivo que direcionou a mim. Talvez esteja enganada, mas me parece que, caso me exponha, isso diz muito mais sobre o senhor do que sobre o meu caráter e sobre minha moralidade."

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