Política

Ex-deputado Emiliano José acusa pastor de tentativa de censura

Imagem Ex-deputado Emiliano José acusa pastor de tentativa de censura

Átila Brandão é ex-policial militar, já foi candidato a governador e administra igreja batista

Publicado em 21/05/2013, às 06h49        Redação Bocão News (@bocaonews)


Na última semana, o ex-deputado federal e jornalista Emiliano José (PT) recebeu em seu escritório uma liminar judicial que o obrigava a tirar do ar uma matéria publicada em seu site oficial há alguns meses. Trata-se de uma reportagem assinada pelo próprio Emiliano e publicada em 11 de fevereiro no jornal A Tarde e na revista Carta Capital relatando uma denúncia do professor de história Renato Affonso acusando o bispo Átila Brandão de tê-lo torturado, no ano de 1971 durante a ditadura militar em Salvador.
A liminar foi expedida pela juíza da 29ª vara cível, Marielza Brandão, no último dia 13, e determinava a retirada imediata do conteúdo do site do ex-deputado sob multa de R$ 200 diários em caso de descumprimento. De acordo com a ação, o jornal e a revista deveriam, por sua vez, conceder ao bispo direito de resposta. O autor da queixa pediu também indenização por danos morais, esta negada pela juíza. Não satisfeito, o bispo Átila Brandão ainda recorreu à 16ª Delegacia Territorial, no bairro da Pituba, e registrou uma queixa-crime contra Emiliano José.
A matéria, intitulada “A Premonição de Yaiá”, contava a história da mãe do professor, dona Maria Helena, que com o dom da sensitividade percebeu seu filho em perigo no Quartel dos Dendezeiros, em Salvador. Ao seguir para o local, teria encontrado Affonso pendurado em um pau-de-arara. Na época da suposta agressão, Brandão era oficial da Polícia Militar da Bahia e liderava a sessão. Atualmente, é o pastor-chefe da Igreja Batista do Caminho das Árvores e em anos anteriores já chegou a ser candidato a governador da Bahia pelo PSC. O religioso está agora filiado ao PSDC, foi pré-candidato à prefeitura de Camaçari, ano passado, e apoiou ACM Neto no pleito em Salvador.
Paralelo à proibição do conteúdo e exigência de indenização, o bispo também conseguiu na Justiça que uma audiência de conciliação fosse convocada na última sexta-feira (17). No encontro, o ex-deputado se negou a fazer qualquer tipo de acordo por entender que em nenhum momento atentou contra os direitos civis de Brandão. Já nesta segunda-feira (20), Emiliano José foi convocado para “prestar declarações” na 16ª DT. Ele não compareceu ao local e enviou um advogado para que este ficasse sabendo em seu lugar do que se tratava a convocação.
A situação é classificada pelo jornalista como uma tentativa de censurar o trabalho da imprensa e também de intimidá-lo pessoalmente. Ele afirma que não entende a ofensiva do pastor, uma vez que as redes sociais e a internet já propagaram o texto, que foi publicado há meses. “De que vai adiantar (a censura)? O mundo trata de divulgar. Não é uma opinião minha, era uma fonte fazendo uma declaração. A minha profissão é ser jornalista, não é ser político. Eu sou jornalista há 40 anos e sei muito bem dos critérios da minha profissão. Então ninguém vai me ensinar como fazer o meu trabalho”, argumenta.

Após o início da polêmica, Emiliano conseguiu apoio de colegas do meio político, a exemplo da deputada estadual Luiza Maia e do federal Geraldo Simões, todos do PT. Simões chegou a fazer um pronunciamento no plenário da Câmara na última semana repudiando a atitude do religioso, além de citar apoios dos sindicatos dos jornalistas da Bahia e a Federação Nacional da categoria, além do grupo "Tortura Nunca Mais", liderado pelo sociólogo Joviniano Neto.
O petista não foi o único interpelado pelas autoridades por conta da reportagem. O jornalista Oldack Miranda, dono do blog “Bahia de Fato”, também recebeu a mesma intimação da Polícia Civil para comparecer à 16ª DT nesta segunda sob a alegação de “prestar declarações” na unidade policial. Marcada para as 10h30, a sessão não teve a presença de Miranda, que também enviou advogado para representá-lo na ocasião.
Miranda diz compartilhar da opinião do ex-deputado e não entende o desejo de censura do pastor, uma vez que outras centenas de pessoas já reproduziram o conteúdo pelas redes sociais e que, além disso, em nenhum momento há a citação de seu próprio nome na matéria. Para ele, se a lógica se mantiver, o ex-PM deverá processar centenas de pessoas Brasil afora ou tentar fazer com que toda a internet seja proibida de publicar seu nome.
“Acho que meu blog e meu Facebook estão incomodando o pastor Átila Brandão. Eu não dei nenhuma opinião e nem assinei nada (na matéria). Simplesmente eu publico documentos que realmente existem. Acho que ele (o bispo) pensa que nos intimida com esta intimação. Considero que isto é um mecanismo para tentar instaurar o medo e também de cerceamento da liberdade de opinião de imprensa”, avalia Miranda.
Átila Brandão é também presidente do Conselho da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil e do Exterior (Omebe-BA) e foi um dos mais fiéis apoiadores da campanha de ACM Neto em 2012. Como “prêmio” pelo engajamento, emplacou como subchefe de gabinete do prefeito o próprio filho, o administrador de empresas Átila Brandão de Oliveira Júnior, que anteriormente chegou a ser responsável pela gestão da Faculdade Batista Brasileira (FBB). A reportagem do Bocão News tentou localizar o pastor na sede da igreja, mas foi informado de que Brandão estava em uma sequência de reuniões e que não estava disponível para conversar com o veículo.

Postada às 16h do dia 20 de maio

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