Política
Dois aliados de Daniel Vorcaro dentro do Banco Central (BC) podem ter atrasado o processo de liquidação do Banco Master. Por causa da interferência, a fraude só foi comunicada plenamente pela autoridade financeira ao Ministério Público Federal um ano depois de ter levantado suspeitas. É o que mostra uma das petições tornadas públicas na sexta-feira (11) pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Um documento da Polícia Federal (PF) mostra como Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) do BC, e seu adjunto, Paulo Sérgio Neves de Souza, atuaram em favor do ex-banqueiro. Apesar de as suspeitas sobre o Master terem surgido em setembro de 2024, após os dois servidores analisarem um fundo chamado Bravo e usado no esquema, elas só foram detalhadas aos procuradores em outubro de 2025.
Listando depoimentos de Belline e Paulo Sérgio, o documento da PF mostra que, ainda relutantes em admitir terem favorecido Vorcaro, ambos reconhecem que foram encontradas inconsistências nos relatórios sobre a liquidez do Master e estas não foram comunicadas de pronto a procuradores.
Paulo Sérgio, funcionário de carreira no BC, afirma que encontrou indícios da fraude depois de submeter dados do banco a análise feita por uma ferramenta de inteligência artificial que ele mesmo pediu para a área técnica desenvolver. Isso ocorreu em setembro de 2024.
Esse programa, diz a PF, permitiu a Paulo Sérgio "descobrir para onde os recursos do banco Master haviam sido direcionados, o tal do Fundo Bravo, constatando-se que não havia títulos públicos na composição do fundo".
A presença de títulos públicos, no caso, era essencial para compor a liquidez do banco, pois dispensava a alocação de mais recursos para amortecer riscos associados a títulos privados.
Do Banco do Estado de Santa Catarina (BESC), privatizado nos anos 1990, havia títulos antigos que não cumpriam a regra e não poderiam ser contabilizados na liquidez.
Depois disso, em outubro, os chefes da Desup confirmam já ter tido conhecimento de que o Fundo Bravo era usado para triangular operações financeiras e simular liquidez falsa no Banco Master. Teriam então constatado que o banco captou "novos" recursos originados de seu próprio lastro, e colocando-os sob proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o que é ilegal.
Só em novembro daquele ano, porém, é que a situação ganhou mais destaque dentro do próprio Banco Central. Isso ocorreu depois de o BTG, banco do investidor André Esteves, comunicar à autoridade financeira também ter encontrado problemas no Master. Esteves negociava na época a aquisição do banco de Vorcaro, como proposta para salvá-lo da crise, mas desistiu da transação depois de ter descoberto os problemas de liquidez e provável fraude.
Mesmo após a comunicação do BTG, contudo, o Banco Central ainda não teria informado o Ministério Público Federal sobre o problema, disse Paulo Sérgio.
"O declarante relata que a comunicação do BTG foi verbal, feita por telefone no dia 29 de novembro, e que o diretor [de fiscalização] Ailton [de Aquino] lhe disse para ir a São Paulo na segunda-feira, pois na terça-feira o BTG faria uma apresentação", afirma a PF no documento. "A apresentação foi realizada no dia 3 de dezembro de 2024, estando presentes o [então] presidente [do BC] Roberto Campos, o diretor de organização do sistema financeiro Renato Brito, o diretor Ailton, o diretor de política econômica Diogo Guillen, o declarante e Belline Santana."
Paulo Sérgio, porém, não tentou implicar Roberto Campos diretamente na culpabilidade pelo atraso no alerta do Master à justiça.
"O declarante relata que respondeu ao presidente Roberto Campos que, pela sua experiência, eram necessários alguns passos adicionais para caracterizar que aquela operação do Master era fraude, para liquidação do banco".
Segundo a PF, Daniel Vorcaro ofereceu contrapartidas aos servidores. Paulo Sérgio teria sido beneficiado por meio de negócios imobiliários com Fabiano Zettel (operador de Vorcaro) e empresas vinculadas para mascarar a transferência de propriedade. Essas transações envolveram um Juruaia-MG avaliado em R$ 4,8 milhões, uma casa em Guaxupé-MG avaliada em R$ 1 milhão e o custeio de itens de uma viagem à Disney, incluindo um serviço de guia VIP por US$ 38 mil.
Belline, por sua vez, teria recebido repasses financeiros por meio de projetos sociais dos quais participa, sendo identificados por policiais transferências de R$ 1,8 milhão a R$ 2 milhões. Houve por parte de Vorcaro também a tentativa de custear parte de uma viagem a Paris com reservas em restaurantes de Luxo, embora Belline diga não tê-las aceitado.
Paulo Sérgio se defende nos autos dizendo que a venda do sítio e da casa foram transações comerciais legítimas e que o guia na Disney foi uma gentileza sem contrapartida.
Belline disse que os repasses financeiros foram feitos aos projetos sociais sem benefício próprio e que consultou órgãos de ética sobre a viabilidade do projeto.
Vorcaro sustentou que os repasses e contratos não tinham relação com a atuação do Banco Central nem visavam favorecimento no processo do Banco Master.
O Banco Central não se manifestou.
Em uma nota enviada ao Globo respondendo a outro questionamento, o advogado de Paulo Sérgio, Odel Antun, alega que seu cliente sempre agiu dentro do BC para alertar autoridades sobre o problema com o Master, e não para atravancar o processo.
A mensagem também menciona as denúncias de triangulação financeira pelo banco de Vorcaro.
"Já a questão do Fundo Bravo, relacionada a risco de operações com ausência de fundamentação econômica, foi identificada preliminarmente por Paulo Sérgio e pela equipe de supervisão em setembro de 2024, tendo a equipe oficializado os achados", diz a nota.
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