Política
Há escândalos que parecem ter sido escritos para uma crônica. O caso Banco Master, à medida que novas informações vêm à tona, oferece personagens, poder, dinheiro, festas, tribunais e uma Brasília onde as fronteiras entre negócios e influência parecem, por vezes, perigosamente estreitas. Se a Divina Comédia de Dante tivesse um capítulo dedicado ao poder brasileiro, talvez encontrasse no episódio uma oportunidade para atualizar seus círculos do inferno. E, para organizar a narrativa, bastariam os sete pecados capitais.
Comecemos pela soberba. Na discussão sobre a possibilidade de abertura de inquérito envolvendo Alexandre de Moraes, o que aparece é uma pergunta incômoda sobre os limites do poder: estaria o rei nu? A imagem não é uma sentença, mas uma provocação. Afinal, quando uma autoridade se acostuma a ocupar o centro da cena, talvez o maior perigo seja deixar de perceber que também está sendo observada. O poder, quando perde a capacidade de ouvir críticas, começa a confundir a própria autoridade com a verdade.
Depois vem a avareza, talvez o pecado mais evidente nessa história. Daniel Vorcaro teria construído uma extensa rede de aproximações com ministros da Suprema Corte e importantes lideranças políticas por meio de dinheiro, presentes, mimos e vantagens. Brasília, nesse roteiro, aparece como uma espécie de mercado persa do poder: portas que se abrem, favores que circulam e relações que ganham preço. O problema começa quando a influência deixa de ser consequência do prestígio e passa a ser tratada como investimento.
A inveja também encontra seu personagem. Vorcaro teria se comparado aos irmãos Batista, protagonistas de um dos maiores escândalos empresariais da história recente do país. Era admiração? Era ambição? Ou inveja? A comparação revela, ao menos, uma obsessão pelo lugar ocupado pelos grandes empresários nas rodas de poder. O empresário que já não quer apenas enriquecer, mas também ser reconhecido como alguém capaz de sentar à mesa onde decisões importantes são tomadas. Luxúria e gula completam esse banquete: festas sofisticadas, mulheres suecas, astronautas, vinhos caríssimos e uma sucessão de convidados importantes. Mais do que diversão, segundo os relatos do caso, a ostentação teria servido também como instrumento de aproximação e construção de uma base de relacionamento em Brasília, alcançando políticos, ministros de Estado e integrantes do Judiciário.
Então chega a ira. No universo das investigações, surgem relatos sobre um suposto operador violento, tratado como uma espécie de sicário, que teria sido utilizado contra desafetos. E, paralelamente, há a ira institucional, aquela que se manifesta quando integrantes de uma mesma Corte Suprema entram em rota de colisão às vésperas de uma decisão de enorme repercussão política. O Supremo, que deveria ser o lugar da serenidade diante da tempestade, também conhece suas tempestades.
Finalmente, há a preguiça — talvez o pecado mais sofisticado de todos. O contrato milionário envolvendo o escritório ligado à esposa de Alexandre de Moraes, associado ao Banco Master, tornou-se alvo de questionamentos justamente pela ausência, segundo as informações divulgadas, de uma atuação prática correspondente à dimensão financeira do acordo. E aqui a crônica permite uma ironia: se ganhar dinheiro honestamente costuma exigir trabalho, disciplina e esforço, que nome dar ao dinheiro que chega sem que se consiga enxergar, com clareza, o trabalho que o justifica? Talvez seja essa a mais amarga das perguntas. No fim, os sete pecados não estão apenas nos personagens. Estão na própria tentação do poder: soberba para mandar, avareza para acumular, inveja para subir, ira para eliminar obstáculos, luxúria e gula para desfrutar e preguiça para receber sem trabalhar.
O inferno, afinal, pode não estar tão distante. Às vezes, ele apenas veste terno, frequenta gabinetes e brinda com vinho caro.
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