Política

Análise: O trator Alcolumbre

Waldemir Barreto/Agência Senado
Com 42 votos contrários, a votação expõe a insatisfação entre senadores e a falha da base governista em garantir apoio ao indicado  |   Bnews - Divulgação Waldemir Barreto/Agência Senado
Henrique Brinco

por Henrique Brinco

henrique.brinco@bnews.com.br

Publicado em 29/04/2026, às 20h02 - Atualizado às 20h04



A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) expôs, de forma cristalina, uma derrota política de peso e completamente inesperada para o presidente Lula (PT). Mais do que um revés pontual em ano de eleição, o placar de 42 votos contrários a 34 favoráveis escancara a fragilidade da articulação do governo no Senado e consolida um novo centro de poder na Casa: o comando silencioso e eficiente de Davi Alcolumbre.

Nos bastidores, o presidente do Senado operou como um trator, conforme o BNews revelou. Trabalhou voto a voto, ligou, recebeu ligações, mediu o pulso do plenário e, sobretudo, deixou correr uma insatisfação que já existia entre senadores. Não foi uma ofensiva barulhenta, mas foi decisiva. Ao fim, o resultado refletiu exatamente isso: uma derrota construída com método.

O governo chegou à votação com um tom otimista. Falava em 45 votos, margem confortável para aprovar Messias. Do outro lado, a oposição projetava ao menos 30 votos contrários. A diferença entre projeção e realidade mostrou que o problema não estava apenas nos adversários declarados, mas dentro da própria base, que falhou em entregar o que prometia.

Nesse cenário, um dos vencedores simbólicos é Flávio Bolsonaro. Mesmo sem protagonizar diretamente a articulação final, o campo político que representa saiu fortalecido ao impor uma derrota ao Planalto em um terreno onde, historicamente, governos costumam prevalecer: indicações ao STF.

Jaques Wagner, líder do governo no Senado, sentiu o golpe. Apostou na construção de maioria, confiou na base e viu o placar escapar no voto secreto. A derrota não foi apenas numérica, foi também política, ao revelar limites claros da sua capacidade de coordenação neste momento.

O presidente da CCJ, Otto Alencar, também deixou o plenário de cabeça baixa. A cena resume o sentimento de parte da base governista, que entrou na votação acreditando em vitória e saiu com a constatação de que o governo perdeu o controle do jogo.

A avaliação de que o momento político é ruim para o governo se confirmou na prática. Com dificuldades na relação com o Congresso e sinais de desgaste, Lula enfrentou sua maior derrota desde o início do mandato. E ela veio justamente em uma arena simbólica, que mede força, prestígio e capacidade de comando.

No fim, a votação sobre Messias foi menos sobre o indicado e mais sobre poder. E, desta vez, o poder no Senado falou mais alto do que o Planalto.

Classificação Indicativa: Livre

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