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BNews Novembro Negro: Racismo estrutural e seu "alicerce invisível" aos olhos desatentos

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A Bahia implementa políticas públicas para combater o racismo estrutural, mas necessidade de financiamento e apoio legal é urgente  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Agência Brasil
Thiago Teixeira

por Thiago Teixeira

thiago.teixeira@bnews.com.br

Publicado em 24/11/2025, às 06h00



O racismo estrutural é o alicerce invisível que molda a sociedade brasileira desde a escravidão. E os números comprovam que este fenômeno não é apenas discurso — é estatística. De acordo com o Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, a renda média das pessoas negras equivale a 58,3% da renda das pessoas brancas.

Mesmo mais de 130 anos após a abolição, o Brasil ainda carrega em suas estruturas a herança de um país que se construiu sobre o trabalho escravizado e a exclusão racial — e esse conceito acaba definindo quem tem acesso à moradia, saúde, educação e poder. Em 2023, trabalhadores negros ganhavam em média R$ 2.199, enquanto os brancos recebiam R$ 3.729 — uma diferença superior quase uma salário mínino.

A diferença persiste mesmo entre pessoas com escolaridade semelhante, mostrando que a cor da pele continua pesando mais do que o diploma. Em entrevista ao BNews, a secretária de Promoção da Igualdade Racial da Bahia (Sepromi), Ângela Guimarães, afirmou que o "alicerce racista" não será desfeito por inércia ou discursos simbólicos.

Ele [racismo estrutural] organizou as hierarquias, definiu os espaços e as oportunidades. Por isso, o enfrentamento precisa ser contínuo, diário, articulado entre Estado e sociedade. O racismo não tira férias", afirmou a secretária.

A cor da pele continua determinando quem tem mais chance de estudar, trabalhar, ganhar melhor e viver mais — outros indicadores reforçam essa realidade. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram que a taxa de desemprego entre mulheres negras chega a 10,1%, muito acima da média nacional (6,9%).

Sepromi
Secretária Ângela Guimarães | Foto: Pedro Moraes - Ascom/Sepromi

Já a informalidade atinge 44% dos homens negros e 41% das mulheres negras, cerca de nove pontos percentuais acima dos índices de trabalhadores brancos. Mesmo quando conseguem trabalho formal, pessoas brancas ganham, em média, 67% mais por hora que pessoas negras, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre-FGV).

Na visão de Ângela Guimarães, o racismo estrutural é um construto histórico de séculos que não se desmontou em décadas. De acordo com ela existe a urgência de políticas públicas duradouras que enfrentam o problema em sua raiz. Dentre as inicativas, a gestora classifica o Novembro Negro como uma oportunidade para se gerar consciência coletiva.

Durante séculos, o Brasil se recusou a se reconhecer como um país racista. Contou a fábula de uma princesa que libertou os escravizados por bondade, sem reconhecer o protagonismo negro na conquista da liberdade. Reconhecer a luta de Zumbi, Dandara e das revoltas quilombolas é reconhecer que a abolição foi apenas o começo — e um começo incompleto", afirmou.

A educação é o encarceramento

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Segundo dados do IBGE (2024), apenas 50% das pessoas pretas e pardas com 25 anos ou mais concluíram a educação básica, enquanto entre pessoas brancas o índice chega a 63,4%. A diferença também se reflete na média de anos de estudo: 11 anos para brancos e apenas 9,4 anos para negros.

No ensino superior, o abismo é ainda mais expressivo — 27,1% dos brancos têm diploma universitário, contra apenas 12,6% dos negros, conforme levantamento do Ministério da Igualdade Racial. E essa desigualdade educacional começa cedo. Dados do Inep mostram que, já na 4ª série, os estudantes negros registram desempenho inferior:

  • em Língua Portuguesa, a média é de 179 pontos, frente aos 214,9 obtidos pelos estudantes brancos;
  • em Matemática, 189,2 contra 227,8.

Para especialistas, isso reflete o impacto cumulativo das desigualdades sociais e da sub-representação negra em espaços de poder e decisão — tanto dentro quanto fora da escola. E se o acesso à educação é desigual, o sistema penal reforça ainda mais as marcas do racismo.

O Departamento Penitenciário Nacional (Depen) registrou em 2022 que 68,2% das pessoas presas no país são negras — o maior percentual desde o início da série histórica, em 2005. Em números absolutos, são mais de 442 mil pessoas negras encarceradas, segundo levantamento do Poder360.

A proporção cresce ano a ano: em 2005, negros representavam cerca de 58% da população prisional; em 2019, já eram quase 67%, segundo análise da Fiocruz. Hoje, o sistema carcerário brasileiro abriga mais de 852 mil pessoas, e quase 70% são negras.

Ângela Guimarães defende a criação do Fundo Nacional de Reparação Econômica e Igualdade Racial | Foto: Adobe Stock

O que o governo da Bahia tem feito a respeito?

Na Bahia, esse enfrentamento tem se traduzido em políticas públicas permanentes. A secretária Ângela Guimarães destacou ao BNews que "a reparação vem materializando no cotidiano" através de ações como:

  • fortalecimento das escolas de tempo integral, com bolsas permanência e ensino que valoriza a história e a cultura afro-brasileira e indígena;
  • o avanço de programas de habitação em áreas quilombolas e indígenas;
  • e a ampliação da rede de saúde, com reconhecimento das especificidades da população negra.

Mas ela ressalta que essas políticas precisam de financiamento estável e base legal sólida. Por isso, defende a aprovação da PEC 27/2024, que cria o Fundo Nacional de Reparação Econômica e Igualdade Racial. A abolição foi uma liberdade sem autonomia econômica.

A população negra foi deixada de fora dos projetos de desenvolvimento do país. Essa PEC busca corrigir parte dessa dívida histórica. O racismo ainda fratura e divide nossa sociedade, impedindo que pessoas negras desfrutem dos mesmos direitos que pessoas brancas. Enfrentá-lo é tarefa de toda a sociedade — do poder público, dos movimentos sociais, da imprensa e, sobretudo, de cada pessoa, na sua vida cotidiana, sem reproduzir o preconceito", afirmou a secretária da Sepromi.

Entre os instrumentos mais importantes dessa política está o Centro de Referência Nelson Mandela de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (CRNM), criado em 2013. O espaço é pioneiro no país e atua com advogadas, psicólogas e assistentes sociais no acolhimento e orientação de vítimas de racismo e intolerância religiosa.

O Centro garante que a denúncia não seja apenas um desabafo, mas um processo com acompanhamento e resposta. É uma política que transforma dor em ação", explica a secretária.

O CRNM integra uma rede com outras secretarias estaduais e órgãos do sistema de Justiça, como o Ministério Público, a Defensoria e o Tribunal de Justiça, garantindo o monitoramento das denúncias. Este ano, essa rede foi reforçada com a inauguração da Delegacia Especializada no Enfrentamento aos Crimes de Racismo e Intolerância Religiosa (DECRIM), em Salvador.

Com a Decrim, damos mais um passo para assegurar que as vítimas tenham um espaço especializado, acolhedor e seguro. O que buscamos é uma sociedade mais plural, justa e democrática. Isso exige ação contínua, coragem e compromisso coletivo. O racismo estruturou o Brasil, mas é a nossa consciência e organização que podem reestruturá-lo", afirmou Ângela Guimarães.

Classificação Indicativa: Livre

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