Política
Publicado em 20/09/2024, às 00h11 - Atualizado às 00h12 Cadastrada por Letícia Rastelly
O candidato à Prefeitura de São Paulo, Pablo Marçal (PRTB), arrecadou mais de R$ 4 milhões para construção de 300 casas no povoado de Camizungo, em Angola, na África. Entretanto, uma denúncia do The Intercept mostra que o valor acabou sendo destinado a duas Organizações Não Governamentais (ONG)localizadas em uma cidade com quatro mil habitantes, chamada Prata, no interior da Paraíba.
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O projeto seria liderado pela ONG Atos de Angola, gerida por um amigo de Marçal, Itamar Vieira, que hoje é pastor e está à frente da Igreja Diante do Trono em Angola, que foi fundada Ana Paula Valadão, da família criadora da Igreja Lagoinha.
A reportagem foi até o município em questão, onde estão sediados os CNPJs das tais ONGs, mas não o encontraram até a primeira denúncia do The Intercept. A Atos está cadastrado no nome do dono de uma casa de apostas ilegais chamado José Leandro Ferreira, conhecido como Zé da Banca: “Nossa vida virou um pesadelo. Ninguém para de falar disso com a gente”, relatou Zé.
Na cidade, o que se escutou foram moradores contestando a existência da ONG: “Todo mundo leu tua matéria. E ninguém consegue acreditar que tem um valor tão grande passando aqui pela cidade, enquanto a gente passa tantas dificuldades por aqui”; “Essas pessoas que vocês disseram que são as donas desses CNPJs aí nem trabalham com isso. A gente conhece todo mundo”. Na cidade, 50% da população depende do Bolsa Família.
A suposta sede da Atos fica em uma sala, em um endereço diferente do registrado na Receita Federal. No local, foi encontrado estantes e gavetas vazias, materiais de construção espalhados pelo ambiente, banners da ONG que pareciam ter sido recém-impressos por causa do forte cheiro de tinta. O local havia sido “criado” recentemente, após a primeira denúncia do site, como confirmou o pastor Itamar Vieira, líder da ONG Atos em Angola.
Zé da Banca explicou como seu nome foi parar na Organização: “Eu já conhecia o trabalho da ONG aqui desde 1998. Ela é uma ONG criada aqui, são 26 anos. A gente já conhecia as atividades e os projetos executados. Daí então, foi pela amizade (...) Como é uma cidade pequena, eu conheci João Pedro. Ele viu meu potencial como uma pessoa que poderia promover muitas ações pelo Centro Vida Nordeste e fez o convite pra gente”.
Quem fez o convite citado por Zé foi o ex-prefeito da cidade, João Pedro Salvador de Lima, que deixou a política, abriu diversas empresas e a ONG Centro Vida Nordeste. A relação do ex-mandatário com o pastor Itamar Vieira teria aproximado as ONGS de Prata e Angola: “Ele conheceu o trabalho da Centro Vida e, no ano de 2017, foi um técnico, um agrônomo, para aplicar uma tecnologia social chamada mandala lá em Angola”. Entretanto, atualmente, a função da Centro Vida é “ser outro braço do Atos para a arrecadação e envio das doações centralizadas ao Instituto Atos de Angola, como apoio administrativo”.
“Nós somos voluntários, precisamos trabalhar. Não temos trabalho fichado, então nos viramos de todas as formas”, disse ele, reforçando que o suposto trabalho na Centro Vida é voluntário.
Ao repórter, João Pedro não revelou o valor repassado para Angola, mas disse que foi tudo feito dentro da Lei. O Centro Vida Nordeste, que funciona em uma fazenda do ex-político, já foi acusado pelo Ministério Público Federal de envolvimento em esquema de desvio de verbas públicas destinadas à alimentação escolar de Prata. Justiça Federal da Paraíba o absolveu.
Já em 2013, João Pedro foi condenado pela Justiça Federal da Paraíba por improbidade administrativa em um processo movido pelo MPF, onde ele e outros dois réus são acusados de crime que teriam causado dano ao orçamento dos órgãos federais. Eles recorreram, mas foram condenados mais uma vez. Ainda cabe recurso.
Sobre os valores repassados à Angola, o pastor Itamar Vieira disse que em um dos leilões, promovido em 2023, quando foram arrecadados R$ 1,5 milhão, apenas R$ 1,1 milhão teria chegado à comunidade. Já em 2024, Marçal anunciou R$ 3 milhões, mas o valor real foi R$ 2,7 milhões. Entretanto, desse valor, apenas R$ 600 mil já teriam caído na conta .
“As diferenças se devem a não pagamentos por parte de alguns arrematantes e bens ainda não vendidos, três carros, um apartamento, e outros itens que estão sendo pagos a prestações”, disse Itamar ao revelar que um outro evento, de 2019, teria arrecadado apenas cerca de R$ 200 mil. Vale ressaltar que nesses valores não foram consideradas as doações referentes ao apelos de Marçal feitos pelas redes sociais, a exemplo de dois documentários sobre a comunidade de Camizungo, que já acumulam mais de 1 milhão de visualizações no YouTube.
Em resumo, o valor de R$ 4,5 milhões é uma estimativa do que passou ONGs de Prata, o que poderia construir pelo menos 90 casas sustentáveis, mas apenas 30 foram cosntruidas.
Zé da Banca e João Pedro negam conhecer o candidato à Prefeitura de São Paulo e alegam ter apenas cumprido o papel de repassar as doações, como fizeram com outros doadores. Marçal não se pronunciou.
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