Política

Deputado baiano recebeu bronca de Lira por recusar liberação R$ 1,1 bi a pedido de assessora: "criando problema"

Joilson César / BNews - Arquivo Pessoal - Acervo Câmara dos Deputados
Deputado como emendas eram enviadas sem identificação de beneficiários, levantando suspeitas de corrupção  |   Bnews - Divulgação Joilson César / BNews - Arquivo Pessoal - Acervo Câmara dos Deputados
Adelia Felix

por Adelia Felix

adeliafelix@bnews.com.br

Publicado em 12/12/2025, às 14h25 - Atualizado às 15h00



Depoimento prestado pelo deputado federal José Rocha (União Brasil), que integra decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da Operação Transparência, revela o modo como emendas parlamentares bilionárias eram encaminhadas pela assessora da presidência da Câmara, Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, sem identificação de autores ou beneficiários. 

No documento, obtido pelo BNEWS, o parlamentar baiano relata que chegou a ser constrangido pelo então presidente da Casa Legislativa, Arthur Lira (PP-AL), em 2024, quando se recusou a liberar os recursos.

"Eu segurei o envio para o Ministério [da Integração Nacional], questionando que eu precisava saber que destinação teriam esses recursos. Quais seriam os beneficiários? Quais seriam os autores? Aí segurei, vieram umas outras, se não me falha a memória, mais duas outras remessas de minuta de ofício acompanhado de planilhas. E eu segurei. Aí, o presidente [Arthur Lira] me liga, me liga dizendo que eu estava criando problema", disse o deputado para Polícia Federal (PF) durante as diligências investigativas.

Este foi um dos episódios que, segundo o parlamentar, reforçam suspeitas de irregularidades na gestão e distribuição de emendas no âmbito da Câmara dos Deputados. À polícia, Rocha relatou que, logo ao assumir a presidência da Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional (CINDRE), em 2024, recebeu do gabinete da Presidência da Casa, por meio Mariângela Fialek, remessas de ofícios e planilhas bilionárias sem identificação dos autores, dos beneficiários e dos objetos dos recursos.

Rocha detalhou aos investigadores que, logo em 11 de abril de 2024, recebeu de Tuca uma minuta de ofício endereçada ao Ministério da Integração Nacional, acompanhada de uma planilha vinculada a uma emenda de R$ 1,125 bilhão, mas sem qualquer indicação formal dos responsáveis pelas solicitações.

“Sem identificar quem eram os autores, quais eram os objetos e os beneficiários”, disse. O parlamentar ressaltou que preservou todas as mensagens trocadas com a assessora: “Isso eu tenho registrado no meu WhatsApp”.

De acordo com o depoimento, a ausência de transparência persistiu mesmo após questionamentos. Rocha contou que recebeu uma “segunda remessa”, também enviada por Tuca, igualmente sem individualizações. Ele cobrou detalhamento dos valores destinados a cada beneficiário. “Eu questionei a assessora para que ela mandasse os valores individualizados. Aí ela me questiona no ZAP: de quê? Eu aí afirmo: de cada beneficiário.”

A situação se agravou quando uma nova planilha, no valor de R$ 320 milhões, foi enviada para destinação ao estado de Alagoas, base eleitoral de Arthur Lira. Segundo Rocha, as informações continuaram escusas: “Eu segurei o envio para o Ministério, questionando que eu precisava saber que destinação teriam esses recursos. E quais seriam os beneficiários? Quais seriam os autores?”

Foi nesta oportunidade que a decisão de não encaminhar imediatamente os documentos teria provocado uma reação direta de Lira. “Aí o presidente me liga, me liga dizendo que eu estava criando problema”, afirmou o deputado à PF.

Durante o depoimento, José Rocha reiterou que todas as listas, ofícios e planilhas recebidas enquanto presidia a comissão eram encaminhadas exclusivamente pela assessora da presidência da Câmara. “Tudo que eu, tudo olha tudo, todos os ofícios e planilhas recebidas pela presidência da minha comissão vieram da presidência, enviado pela Tuca”, disse. 

Ele confirmou ainda que Tuca se chama Mariângela Fialek, embora tenha afirmado desconhecer formalmente o cargo ocupado por ela dentro da estrutura da Casa.

Rocha relatou também que a atuação da assessora não se restringia à sua comissão. Questionado pelos investigadores se ela operava em diferentes colegiados, respondeu: “Todas, todas, todas.” Segundo o deputado, essa abrangência colocava Tuca em posição de amplo conhecimento sobre o destino e distribuição das emendas: “Então, ela tem uma leitura geral da Câmara e das emendas que seriam destinadas?”, perguntou o investifador. E, o deputado respondeu: “Todas, todas, todas”.

Apesar disso, o parlamentar disse não ter informações sobre a atuação direta da assessora em outras comissões, além do que vivenciou pessoalmente.

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