Salvador
Publicado em 06/10/2018, às 12h19 Shizue Miyazono
Uma estudante de medicina veterinária da Universidade Federal da Bahia (UFBa), Gabriella Souza, denunciou o descaso dos seguranças da CCR Metrô na noite de sexta-feira (5), na Estação Rodoviária. Ao BNews, ela explicou que, por volta das 20h50, chegou no local e, de repente, apareceu um cachorro abatido, magro e assustado nos trilhos.
Ela e mais alguns passageiros subiram para chamar os seguranças para retirarem o cachorro, já que na plataforma não encontrou nenhum funcionário. Gabriella contou que dois seguranças desceram com o grupo e disseram que outros casos com cachorros no trilho já tinham ocorrido e eles chegaram a retirar corpos de animais do local.
O cachorro continuou andando para a Estação do Detran e depois de 30 minutos nada foi feito e o animal continuava nos trilhos. Nas redes sociais, a estudante desabafou: "metrô passava de um lado, metrô passava do nosso lado e nada era feito. Começamos a pedir uma posição e nenhum deles sabia me responder o que estava acontecendo e se ele tinha sido resgatado e do nada eles sumiram rumo à Estação Detran e ficaram exatamente 1h10 por lá com o cachorro indo e voltando exatamente sete vezes pelos trilhos e ninguém tomando providência pra retirá-lo de lá".
"Eu não queria que ninguém arriscasse sua vida, mas queria que tomassem uma atitude com urgência, podia ser uma criança, uma pessoa com problemas mentais, alguém querendo se matar, tem que ter esse treinamento, eles não sabiam o que fazer", disse a jovem a reportagem.
Depois de tanta espera e sem um posicionamento, a estudante começou a gritar pedindo ajuda e providência. Mais passageiros começaram a se mobilizar e conseguiram parar um trem, sentindo Acesso Norte. Ela contou que um segurança começou a ficar agressivo e uma mulher, que tentava impedir a locomoção do trem, teve o corpo prensado na porta.
"Nesse momento, já éramos mais de 30 pessoas pedindo pelo amor de Deus, que resgatassem o cachorro. Ligamos pra polícia, recebemos a informação de que eles não poderiam resolver, que apenas a Ouvidoria da CCR poderia tomar providência", escreveu a jovem nas redes sociais.
A situação que já estava ruim ainda ficou pior. Gabriella contou que começou a ser humilhada por dois seguranças que estavam na Estação. "Começaram a fazer chacota, me chamaram de palhaça, maluca, disseram que eu era louca". Após quase 1h30, os seguranças afirmaram que conseguiram retirar o animal e o grupo, que estava mobilizado para salvar o cachorro, se dirigiu para o trem, acompanhado por quatro seguranças: "seguiam a gente como se fossemos criminosos".
No vagão, o grupo começou a falar sobre o que tinha acontecido e foi surpreendido por um passageiro que mandou calar a boca aos gritos: "Ele disse que estava cansado e não merecia ouvir barulho. Eu disse que todo mundo estava cansado, que não precisava ele agir daquela forma e que nós tínhamos o direito de conversar no vagão. Foi nesse momento que fui ameaçada, ele disse na frente de todos os quatro seguranças que iria me quebrar no pau até eu calar a boca".
A estudante contou que indagou a um dos seguranças se estava correta a atitude do homem, se ele estava ouvindo a ameaça e se ficaria por isso mesmo e ele explicou que dentro do metrô ninguém iria encostar nela, mas que eles só podiam tomar providência se a agressão ocorresse e só podiam responder por ela, se acontecesse dentro da propriedade da CCR.
"O cara, que pediu pra ser chamado de "pitbull", trabalha na Corregedoria, teve a audácia de dizer que não iria me bater lá dentro mas que lá fora ia ser "eu e ele" e que era uma pena não ter janela no metrô porque ele já teria me jogado por ela rapidinho. Hoje, eu fui vítima do despreparo de uma frota de segurança que também contribuo pra que funcione. É graças ao dinheiro que colocamos dentro da CCR que ele funciona, era meu direito questionar, assim como é direito de qualquer pessoa. Ao falar em bom som que eu tinha o direito de indagar, que era um absurdo o que aconteceu e que o salário é proveniente da contribuição pública de quem transita ali, fui questionada por um dos seguranças: "Quando é que meu salário vai aumentar então?"", contou a estudante.
A jovem afirmou que pediu ao segurança que descesse com ela na Estação imbuí para fazer a denúncia na Ouvidoria, mas o profissional explicou que só poderiam descer na mesma Estação que o passageiro que a estavam ameaçando fosse descer para fazer a queixa.
Também nas redes sociais, Victor Urbano, que estava na Estação Rodoviária, desabafou sobre o ocorrido e confirmou a denúncia de Gabriella. "Vi tantas imprudências de perto que mais parecia uma novela de terror. Homens no trem assobiando e fazendo deboche da menina! foi uma cena péssima!!! Discurso de ódio gratuito. Cadê as autoridades? O segurança dizendo que só podia impedir se ele agredisse a moça, ou seja primeiro ela tem que ser agredidas pra depois alguém tomar a providência. Primeiro alguém tem que morrer se arriscando nos trilhos do metrô pra salvar o cachorro pra depois se tomar uma providência! E se fosse com um parente nosso? Se fosse nosso animal de estimação que tivesse fugido para os trilhos? Se fosse nossa mãe sendo ameaçada de agressão, sendo insultada!!!!!!! Por hoje deu! A humanidade está cada vez menos humana...".
Ao BNews, Gabriella contou que pretende fazer uma denúncia na Ouvidoria do CCR Metrô e no Ministério Público.
A reportagem procurou a assessoria de imprensa da CCR Metrô, que emitiu a seguinte nota:
"A CCR Metrô Bahia esclarece, que por volta das 21h30 desta sexta-feira (05), um cachorro entrou na via, nas proximidades da Estação Rodoviária. O incidente provocou a reação dos usuários em defesa do animal, que impediram o fechamento das portas do trem que seguia no sentido Aeroporto. Por conta da ocorrência, a composição ficou parada na plataforma por 14 minutos. Os Agentes de Atendimento e Segurança (AASs) recebem treinamento para atuar em situações inesperadas como essa e tentaram fazer o resgate do animal da via, mas o mesmo fugiu. A concessionária informou aos clientes através de alertas sonoros que o trem seguiria viagem com velocidade reduzida para preservar o animal. As imagens do sistema de monitoramento da CCR Metrô Bahia foram analisadas e mostraram que a equipe atuou seguindo os padrões de atendimento da empresa."
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