Salvador

Artistas de Salvador denunciam atraso de quase três meses em pagamentos por apresentações natalinas contratadas pela prefeitura

Reprodução Secom
Profissionais do evento de Natal em Salvador relatam atrasos e desrespeito por parte da Prefeitura de Salvador  |   Bnews - Divulgação Reprodução Secom
Bruna Rocha

por Bruna Rocha

Publicado em 05/03/2026, às 07h30



Quem se encantou com as luzes e as apresentações do cortejo natalino no Centro Histórico de Salvador, durante as festas de fim de ano, talvez não saiba que parte dos profissionais envolvidos na produção do evento ainda não receberam pelos serviços prestados.

Passados quase três meses desde as apresentações, trabalhadores que atuaram na festa afirmam que seguem aguardando o pagamento devido por parte da Prefeitura de Salvador, sob gestão do Prefeito Bruno Reis (União Brasil).

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A desvalorização e a falta de respeito têm sido relatos recorrentes entre dançarinos soteropolitanos. A dançarina Lenny Guara compartilhou em suas redes sociais um desabafo que detalha que, inicialmente, o contrato previa o pagamento de determinado valor. No entanto, ao longo das atividades, o montante foi alterado.

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Segundo o relato, também houve ausência de fornecimento de transporte e alimentação, além do descumprimento do prazo inicialmente estabelecido para o pagamento.

É incrível como o mundo é movido pela arte, mas raramente valoriza os artistas. Recentemente, fui contratada por uma empresa para trabalhar em um evento de Natal, mais especificamente, um desfile, no qual atuei como personagem dançante. Não houve qualquer processo formal de contratação: apenas me chamaram para trabalhar”, iniciou a artista

A artista relata ainda que, durante os dias de trabalho, os profissionais teriam sido submetidos a gritos, xingamentos e cobranças além do que havia sido acordado.

“Durante as apresentações, enfrentamos total falta de respeito com os dançarinos envolvidos. Recebíamos gritos, palavras inapropriadas e cobranças constantes, sem que houvesse qualquer suporte para que o trabalho fosse executado da forma exigida. Não foi oferecido transporte, alimentação nem maquiagem, apesar da exigência de que estivéssemos com a produção impecável, mesmo sem termos os materiais necessários para isso”, continuou Lenny.

Não foi oferecido transporte, alimentação e tampouco maquiagem, apesar de haver exigência de que estivéssemos com a produção impecável, sem que tivéssemos os materiais necessários para isso”.

Em relação ao pagamento, inicialmente foi informado aos trabalhadores que seriam pagos um valor diferente do que foi efetivamente dado após o cumprimento das funções. "Após alguns dias de trabalho, comunicaram que o montante seria reduzido em R$ 400. Também foi dito que o pagamento seria feito em até 30 dias após o desfile. Meses se passaram e, até hoje, não recebemos nada, apenas desculpas e justificativas, além de comentários insinuando que os dançarinos estariam ‘agoniados’ por cobrar”, declara.

Antes do show começar

Antes mesmo do início das apresentações, os dançarinos relataram ao BNews que a rotina de ensaios já era marcada por situações de constrangimento, incluindo ataques preconceituosos e racistas.

Cortejo com dançarinos contratados para apresentações natalinas / Reprodução: Secom
Cortejo com dançarinos contratados para apresentações natalinas / Reprodução: Bruno Concha/Secom/PMS

“Fui chamada em novembro e, no mesmo mês, começaram os ensaios. De início, não nos informaram qual seria o valor do pagamento, cada dançarino imaginava uma quantia diferente. No começo, seriam apenas três dias de apresentação, mas depois o número aumentou para seis. Também foram marcados vários ensaios ao longo da semana, sem qualquer ajuda de custo para transporte ou alimentação”, contou Deyse Mara ao BNews.

A dançarina, que também integrou as apresentações, destacou ainda que os ensaios ocorriam em horários desgastantes. Segundo ela, qualquer pequeno atraso ou ausência, independentemente do motivo, resultava em exposição pública diante dos colegas e até no corte do profissional da apresentação.

No ensaio geral, realizado no Espaço Cultural da Barroquinha, com a presença de várias alas, a diretora passou a utilizar o microfone para fazer correções e direcionar o grupo. No entanto, durante essas intervenções, começou a expor e a ofender pessoas publicamente, inclusive com falas de cunho racista direcionadas a capoeiristas. Foram comentários extremamente inadequados e ofensivos”, continuou a jovem.

“Apesar disso, foi exigido que todos estivéssemos no local por volta das duas ou três da tarde, mas só fomos liberados quase às seis da noite”, relatou, destacando não ter recebido nem alimentação nem transporte. 

A artista Nana Nevez, que também integrou o grupo contratado para as apresentações ligadas à gestão municipal, afirmou que os profissionais reconhecem que pagamentos envolvendo órgãos públicos podem sofrer atrasos. No entanto, segundo ela, a forma como a situação vem sendo conduzida é inadequada. A artista também relatou que tanto o cronograma de ensaios quanto o número de apresentações diferiram do que havia sido inicialmente combinado.

A gente sabe que trabalhos envolvendo prefeitura e governo costumam atrasar pagamento, o que eu já acho um absurdo. Porque, quando estamos trabalhando para essas empresas e instituições, eles exigem excelência, beleza e rapidez. Mas, na hora de pagar, sempre é um sufoco”, afirmou.

“Disseram que seriam só dois ou três ensaios sem pagamento. Só que esses ensaios foram aumentando, os dias foram se multiplicando. Muitas vezes, a gente já tinha se programado para determinada data e eles marcavam novos ensaios. Quando dizíamos que não poderíamos comparecer, éramos ameaçados, com a afirmação de que não trabalharíamos em uma próxima oportunidade”, relatou.

Celebração de Natal da Prefeitura de Salvador, em dezembro de 2025. Reprodução: Secom
Celebração de Natal da Prefeitura de Salvador, em dezembro de 2025. (Foto: Bruno Concha/Secom/PMS)

O que diz a Prefeitura? 

A reportagem do BNews procurou a Prefeitura de Salvador para solicitar esclarecimentos sobre os fatos relatados pelos artistas. No entanto, a gestão municipal não respondeu se iria se manifestar e pediu que o contato fosse feito diretamente com a empresa contratada, a Sole Produções.

Ao BNews, a produtora responsável pela operação dos cortejos natalinos informou que os pagamentos dos profissionais envolvidos seguem o fluxo administrativo e as etapas previstas em contrato com os líderes de cada grupo envolvido. "Parte dos valores já foi realizada, e os demais encontram-se em fase de processamento final", disse a Sole.

"A empresa reafirma seu compromisso com os artistas e técnicos que integraram o projeto e informa que está em contato com os envolvidos para solucionar eventuais pendências de forma célere", acrescentou.

Quanto às demais alegações, a Sole disse que toda a logística dos ensaios e apresentações foi organizada conforme planejamento previamente estabelecido, permanecendo aberta ao diálogo para esclarecimentos necessários.

Classificação Indicativa: Livre

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