Salvador

Invisíveis de Salvador: População de rua dispara e vive a batalha diária da fome, violência e abandono

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Quem atravessa as ruas de Salvador consegue perceber um número cada vez maior de pessoas vivendo em situação de rua  |   Bnews - Divulgação Reprodução / José Cruz / Agência Brasil
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 13/03/2026, às 04h00



Quem atravessa as ruas de Salvador percebe um número cada vez maior de pessoas desabrigadas vivendo em situação de rua. Trata-se de um reflexo que ocorre em todo o país.

Em dezembro de 2024, 327.925 pessoas viviam nas ruas do Brasil; no final de 2025, esse número subiu para 365.822, segundo levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/Polos-UFMG), divulgado em janeiro deste ano.

Esta é a segunda reportagem da série especial 'Salvador 2026: a cidade que sobrevive'. A primeira publicação foi 'Salvador 2026: A cidade onde morar virou luxo e sobreviver virou sacrifício'.

Salvador também reflete esse crescimento. Dados da Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza (Sempre) indicam que a capital baiana tem entre 5.130 e 6.553 pessoas vivendo nas ruas, das quais cerca de 64% se autodeclaram ou foram consideradas pretas, 29% pardas e 4% brancas. Cerca de 1% se autodeclarou ou foi observada como indígena ou amarela.

Além disso, 81% dessas pessoas são adultas, entre 18 e 59 anos; 9% são idosas, com 60 anos ou mais; 5% são crianças de 0 a 11 anos; 2% são adolescentes de 12 a 17 anos; e outros 2% não tiveram essa informação registrada. Já o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) estima um número ainda maior, de 7.852 pessoas, o que coloca Salvador como a quarta cidade do Brasil com maior população em situação de rua.

Pessoa em situação de rua
Reprodução / José Cruz / Agência Brasil

Pandemia, desemprego e falta de políticas públicas

De acordo com os pesquisadores, alguns fatores foram cruciais para esse crescimento, como a ampliação do CadÚnico, que permitiu maior identificação dessa população; a falta de políticas estruturantes de moradia, trabalho e educação; a precarização das condições de vida após a pandemia de covid-19; e emergências climáticas e deslocamentos forçados na América Latina.

Na Bahia, o número de famílias em situação de rua triplicou, chegando a 14.705 em 2025. Desse total, 93% das pessoas são negras e 77% são homens. O levantamento também aponta que 38% enfrentam uso abusivo de álcool ou outras drogas.

“Comecei a usar droga, o vício da pedra, bagulho doido. Eu só recebo Bolsa Família. Bolsa Família não dá. Eu queria alugar um quartinho, não é uma casa, que não dá”, afirma um senhor em situação de rua ao BNEWS.

O desemprego também é um reflexo dessa realidade. Apesar de ser eletricista e ter realizado curso no SENAI, ele relata dificuldades para conseguir emprego: “Precisa de mais emprego, né? Gerar emprego aí. Dar oportunidade aos jovens, à pessoa que já tem uma certa idade. Para criança é difícil, que a gente consegue esperar, né? A gente, adulto, entende que não tem; a criança não entende”, afirma.

As autoridades destacam que o aumento está relacionado à violência, exclusão social e informalidade, expressa em atividades como mendicância e comércio de rua. Apesar do crescimento da população nessa condição, há atrasos na ampliação da rede de acolhimento: das unidades prometidas, apenas 11 Unidades de Acolhimento e Reordenamento (UARs) estavam em funcionamento em 2025, oferecendo 385 vagas. O MDHC também aponta que o número real pode ser 20% maior que o registrado oficialmente, devido à subnotificação.

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Burocracia: o desafio de proteger quem vive nas rua

Esse reflexo também impacta aqueles que buscam trazer dignidade e visibilidade para essa população. É o caso da Defensoria Pública do Estado (DPE-BA), que, por meio da Especializada de Direitos Humanos, atua em múltiplas frentes: assistência jurídica individual, tutela coletiva, articulação intersetorial e educação em direitos, com equipe multidisciplinar de profissionais do Direito e do Serviço Social.

Segundo Daniele Silva, servidora da Especializada, “esse crescimento também foi percebido nos atendimentos do Núcleo Pop Rua da Defensoria Pública. Entre 2024 e 2025, registramos um crescimento de quase 170%. Em 2024, atendemos 1.751 pessoas em situação de rua, número que saltou para 4.720 em 2025”.

Apesar de desempenhar papel essencial no atendimento e defesa dos direitos, ainda existem obstáculos estruturais para garantir o acesso a serviços básicos, como documentação, benefícios e moradia. Um dos principais entraves é a burocracia dos órgãos competentes, que atrasa processos e prejudica diretamente os assistidos.

A Defensoria também recebe denúncias de violência contra pessoas em situação de rua. Cada denúncia é registrada formalmente e assinada pelo assistido, pelo analista jurídico e pelo defensor ou defensora pública. Casos de violência institucional, discriminação racial ou intolerância religiosa são tratados diretamente pelos defensores da Casa de Direitos Humanos. Já casos ligados a abrigos e unidades de acolhimento são encaminhados às direções das instituições em busca de soluções.

A criminalização da pobreza é outro desafio. A Defensoria atua com órgãos parceiros para buscar resoluções extrajudiciais e, quando necessário, instaura Procedimentos de Apuração de Dano Coletivo (PADAC) ou firma Termos de Ajuste de Conduta (TAC) com municípios e instituições.

A falta de políticas públicas voltadas à saúde mental e ao uso abusivo de álcool e drogas impacta diretamente o acesso e a permanência nos serviços. Para oferecer suporte, a DPE/BA conta com equipe de saúde mental composta por defensoras públicas, assistente social, psicóloga, analistas jurídicos e apoio administrativo, que realizam atendimentos presenciais no Núcleo Pop Rua.

Embora já existam políticas públicas voltadas à moradia, trabalho e educação, o grande desafio está em tirá-las do papel. “Existem políticas públicas nessas áreas, mas precisam ser executadas. Precisamos lutar pela concretização dessas ações”, destaca Daniele.

Mãos Amigas
Em meio a essa realidade, surgem organizações que oferecem assistência. O Instituto Mãos Amigas desenvolve o programa "Café da Manhã", na Praça São Francisco de Assis, na orla do bairro Boca do Rio, em Salvador, fornecendo alimentação a pessoas em situação de vulnerabilidade social, com foco naquelas em situação de rua. Além da refeição, o programa proporciona acolhimento e dignidade.

São atendidas mensalmente cerca de 320 pessoas, principalmente homens negros entre 40 e 60 anos. Há presença menor de mulheres na faixa de 40 a 50 anos e, ocasionalmente, jovens ou gestantes.

Segundo Kátia Rocha, diretora da ONG, “geralmente, são pessoas provenientes do interior em busca de uma vida melhor, que vivenciam problemas familiares, violência doméstica, discriminação por orientação sexual e falta de condições financeiras para a sobrevivência. A maioria enfrenta dependência de álcool e outras drogas e atua em subempregos como catadores, ambulantes ou bicos diversos”.

A psicóloga Catucha Tranzillo acrescenta: “Buscamos enxergar cada pessoa como indivíduo, considerando suas histórias e condições de vida. Nosso foco são as pessoas em situação de rua, mas oferecemos suporte também a quem está em vulnerabilidade social”.

O trabalho da ONG é pautado em escuta ativa e acolhimento humanizado, valorizando a dignidade, autonomia e reconstrução de vínculos sociais. Os atendidos recebem cuidados que vão além da alimentação: banho, corte de cabelo, roupas limpas e apoio psicológico.

Um exemplo é Flávio, assistido pelo IMA há três anos. Ele compartilha sua história de perdas familiares e dificuldades de emprego, encontrando na instituição uma nova rede de apoio. “Eu vivo só. Eu perdi meu pai, perdi minha mãe, perdi minha avó, perdi minhas tias, perdi dois irmãos. Preciso sempre do apoio desse pessoal. Que Deus abençoe”, diz.

Desafios

Kátia Rocha e Catucha Tranzillo destacam que a população em situação de rua enfrenta vulnerabilidades emocionais, mentais e sociais, agravadas pela falta de políticas públicas inclusivas. “A educação quase nunca chega até elas. Psicologicamente, essas pessoas vivem situações delicadas, mas quem as exclui também sai ferido”, afirma Catucha.

Isabel Santos, jornalista e integrante do IMA, reforça a necessidade de políticas públicas contínuas e sérias, que não sejam pontuais ou eleitorais. A psicóloga acrescenta que muitas políticas existentes no papel não se concretizam na prática por serem formuladas por quem não vivencia a realidade dessa população.

Ação Mãos Amigas
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O que diz a prefeitura

Questionada pelo BNEWS sobre o aumento da população em situação de rua, a Secretaria de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esportes e Lazer (SEMPRE) informou que executa políticas voltadas a essa população por meio de uma rede integrada de serviços, composta pelo Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS), três Centros POP, 19 unidades de acolhimento institucional com 1.499 vagas, programas de moradia assistida, ações de empregabilidade e dez Restaurantes Populares Vida Nova.

A SEMPRE destacou que enfrenta o crescimento da população em situação de rua com políticas articuladas. “O SEAS realiza abordagens e encaminhamentos imediatos; os Centros POP oferecem acompanhamento especializado e reconstrução de vínculos; e as unidades de acolhimento garantem proteção provisória. O Programa Moradia Assistida, inspirado no modelo Housing First, se soma às ações de inserção produtiva e segurança alimentar”.

Distribuição
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Para 2026, a gestão projeta ampliação da rede de atendimento, fortalecimento dos fluxos entre setores e aumento de vagas em moradias e acolhimentos. Prioridades incluem reforço das políticas de trabalho e renda e aprimoramento de registros e monitoramento, visando reduzir de forma sustentável o número de pessoas em situação de rua.

A SEMPRE afirma que a atuação municipal prioriza proteção social e articulação entre serviços, “sem criminalização, com foco na prevenção de violências e na garantia de direitos”. A secretaria reconheceu a defasagem entre demanda e oferta de vagas e informou que trabalha na implantação de novas unidades, garantindo que a documentação seja providenciada em parceria com CREAS, Centros POP, SEAS, cartórios, SAC e Ministério Público.

Classificação Indicativa: Livre

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