Saúde
por Cibele Gentil
Publicado em 28/10/2026, às 06h00
O câncer de mama é considerado uma doença multifatorial, para a qual não há uma causa única determinante. Diversos fatores, como idade, aspectos ambientais, histórico reprodutivo, condições endócrinas, hábitos e comportamentos, além de fatores genéticos e hereditários, podem estar relacionados à incidência da neoplasia.
Um dos elementos mais associados ao câncer de mama é o avanço da idade. As mulheres apresentam um maior risco de desenvolver a doença a partir dos 50 anos. Alterações biológicas decorrentes do processo de envelhecimento e a exposição a outros fatores de risco, de maneira geral, ao longo da vida, aumentam a probabilidade de aparecimento de um tumor.
Diferente da passagem do tempo, alguns dos agentes ligados ao câncer de mama podem ser contidos, ajudando na prevenção. De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 30% e 50% de todos os casos de câncer são evitáveis.
Apesar de o dado da OMS não ser voltado exclusivamente para o câncer de mama, os estudos demonstram que alguns cuidados, hábitos e estilo de vida praticados podem contribuir para que a doença seja evitada. Por outro lado, a estimativa também demonstra que não seria correto acreditar que uma pessoa que desenvolveu a neoplasia tenha, necessariamente, adotado qualquer conduta que a tenha levado à condição.
Alguns hábitos, como os referentes à alimentação, tabagismo, aumento de peso e consumo de álcool, podem interferir diretamente no sentido de evitar ou aumentar os riscos para o aparecimento do câncer de mama. Um estilo de vida considerado mais saudável, logicamente, funciona como uma forma de agir preventivamente contra a neoplasia, assim como o contrário.
Para parte desses fatores, a ciência já conseguiu fazer estudos consistentes sobre a relação com o câncer de mama. “Quando falamos sobre a relação entre os hábitos de vida e o câncer de mama, a gente primeiro precisa entender que existe uma diferença entre o que é associação e evidência científica”, diz Clarissa Gurgel, pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Bahia, que atua em pesquisas sobre algumas formas de câncer, incluindo o câncer de mama.
A doutora em patologia humana e professora da área na Universidade Federal da Bahia (UFBA) explica que, apesar de alguns hábitos apresentarem possível relação com a doença, é necessário ser criterioso para apontar como evidência científica. “Não basta a gente só observar mulheres que têm determinado hábito e que apresentam mais casos ou menos casos de câncer. A gente precisa investigar se essa associação se repete em diferentes populações, se os resultados obtidos são consistentes e explicar essa relação”.
Um dos fatores de risco com evidências mais fortes em pesquisas científicas para o câncer de mama é o consumo de bebidas alcoólicas. De acordo com Clarissa Gurgel, o álcool é listado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), órgão intergovernamental especializado em oncologia que integra a Organização Mundial da Saúde, como pertencente ao “Grupo 1” entre os agentes que são comprovadamente carcinogênicos para seres humanos.
“Hoje, as pesquisas neste tópico indicam que há uma evidência suficiente, uma relação causal suficiente do álcool com o câncer de mama”, afirmou a pesquisadora. De acordo com dados divulgados pela Iarc, o câncer de mama é a neoplasia induzida por álcool mais comum entre as mulheres em todo o mundo e que, quando se trata de prevenção ao câncer, não existe um nível seguro de consumo.
A médica gastroenterologista do Hospital Santo Amaro, Marilea Souza, explica como o álcool atua como um agente cancerígeno para o corpo e aumenta o risco de câncer de mama. “O álcool aumenta a circulação, por exemplo, de estrogênio, que é um combustível que alimenta câncer de mama”, descreveu.
Outro fator é a propriedade que a o álcool tem de irritar a mucosa dos órgãos do sistema digestivo. “Ele também deixa a mucosa do nosso intestino mais permeável. E aí você tem um aumento da possibilidade dos carcinógenos entrarem nessa permeabilidade intestinal”, detalhou Marilea.
Ao contrário do consumo de álcool, existem hábitos que podem ajudar na prevenção ao surgimento da doença. É o caso, por exemplo, de atividade física. A prática, segundo a pesquisadora, contribui como um possível fator protetor, embora não elimine a possibilidade de que a mulher venha a desenvolver um tumor.
“Com relação à atividade física, existem algumas evidências mais consistentes em relação ao fator protetor. Mulheres que são fisicamente ativas mostram uma redução no risco de aproximadamente 10%, 20% para desenvolver o câncer de mama”, explica Clarissa Gurgel.
A propriedade de proteção da atividade física se mostra ainda mais importante com o passar dos anos, especialmente quando a mulher passa pelo processo da menopausa. “Essa proteção é particularmente documentada em mulheres após a menopausa”, afirmou a professora, lembrando que a idade biológica da mulher a partir do período da perimenopausa apresenta diversas nuances e complexidade no metabolismo.
Adotar uma rotina diária mais ativa também passa pela compreensão de há diferenças entre atividade física e exercício físico. Conforme explica a médica e maratonista Marilea Souza, caminhar a pé até o ponto de ônibus ou subir um lance de escadas no trabalho é uma atividade física cotidiana.
Contudo, manter esses hábitos, mesmo que seja saldável, não substitui a prática de exercícios planejados para atender as necessidades e condições individuais. “A OMS recomenda pelo menos 150 minutos por semana de exercício físico dividido nas duas coisas: fortalecimento e cardio-respiratório”, detalhou.
A médica, que é estudiosa da área da longevidade saudável, lembra que o exercício de fortalecimento muscular e o aeróbico são muito importantes. “É o músculo que levanta e senta a gente”, falou. Por outro lado, o exercício cardio-respiratório melhora o condicionamento e o controle de peso.
Marilea ainda lembra de outros benefícios da prática de atividades físicas e trazer novos hábitos ao estilo de vida. “A atividade física vai puxando outras coisas saudáveis, a gente vai adormir melhor, vai comer melhor, entender melhor o nosso corpo e as nossas limitações. No meu exemplo, eu uso o esporte como um remédio para saúde física e mental”, afirmou a maratonista.
Outro ponto bastante estudado e com evidências robustas relacionadas ao aumento do risco de câncer de mama é o excesso de gordura corporal, sobretudo após a menopausa. Embora a obesidade ou o sobrepeso não sejam suficientes para prever a ocorrência da doença, existem dados expressivos de que elevem o risco para o desenvolvimento da neoplasia.
“Com relação à obesidade, ao excesso de gordura corporal e algumas doenças metabólicas, também já há alguns dados convincentes de que há um aumento de risco para o desenvolvimento do câncer de mama, especialmente após a menopausa”, explicou a pesquisadora Clarissa Gurgel. Ela ressaltou que esses estudos, que associam a obesidade e a atividade física, costumam apresentar o fator pós-menopausa como um critério importante.
O tabagismo é um fator de risco para diversos tipos de câncer e a relação com o câncer de mama vem sendo reforçada por estudos recentes. “A relação entre o tabagismo e o câncer é uma das mais bem estabelecidas pela ciência. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer classifica o tabaco como um carcinogênico do Grupo 1, ou seja, aquele que apresenta o maior nível, o mais alto nível de evidência científica sobre a sua capacidade de causar câncer”, descreveu Clarissa Gurgel.
Embora o câncer de pulmão seja o mais associado ao hábito de fumar, a pesquisadora lembrou que o tabagismo também está relacionado a diversos outros tipos de câncer. Ela informou que estudos epidemiológicos internacionais mais recentes, com grandes grupos populacionais, mostram que as mulheres fumantes têm um risco maior de desenvolver câncer de mama.
“Isso é relevante do ponto de vista epidemiológico, porque os estudos mostram que há um aumento de risco em torno de 10 a 15%, e isso também vai depender da intensidade e da duração do tabagismo”, explicou. A professora também esclarece que essa elevação do risco tem muita relação com a questão de o tecido mamário ser mais susceptível aos agentes carcinogênicos como, por exemplo, os presentes no tabaco.
Um aspecto salientado por Clarissa Gurgel, quanto à relação entre o hábito e o aparecimento da doença, é que o período da vida em que a mulher inicia o uso também vai causar impacto. “Este risco parece ser particularmente relevante nas mulheres que começaram a fumar desde a adolescência ou antes da primeira gestação”, esclareceu.
A pesquisadora informou que a associação entre o fumo e o câncer de mama tem sido cada vez mais investigada e que evidências recentes reforçam o aumento do risco para a incidência da doença. Esses estudos também apontam que tanto as mulheres fumantes quanto as que convivem em ambientes onde ficam expostas às substâncias emitidas pela prática são impactadas.
“Isso é algo de 2024 para cá. A própria Iarc reconhece que essas evidências mais recentes sobre a associação do tabagismo com o câncer de mama fortalecem essa hipótese causal entre uma exposição ativa e passiva ao tabaco e ao câncer de mama, especialmente porque o tabagismo é um fator de risco evitável”.
Embora haja estudos que apontem para diversos fatores e substâncias que podem interferir no aparecimento de câncer de mama, nem todos os resultados já se mostraram conclusivos, para que afirmações possam ser feitas de forma segura. Algumas dessas pesquisas envolvem, por exemplo, determinados tipos de alimentos e substâncias que são facilmente encontradas nas rotinas das pessoas.
Um tópico comentado por Clarissa Gurgel se refere a alimentos ultraprocessados, que são produtos industrializados, frequentemente utilizando substâncias modificadas de alimentos e aditivos como corantes e conservantes. Geralmente, esses alimentos são formulados para ter sabor intenso e longa duração, como refrigerantes, salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, macarrão instantâneo e fast-foods.
“Alguns estudos mostram alguma associação entre o consumo de ultraprocessados e o risco de câncer, mas ainda não há um nível de evidência para afirmar que estes alimentos causam diretamente o câncer de mama”, alerta a pesquisadora. Entretanto, ela lembra que esses alimentos estão associados à obesidade que, por sua vez, apresentam evidências mais relevantes.
A mesma cautela deve ser adotada ao analisar se há aumento de risco para a doença quando há exposição a substâncias químicas que são consideradas carcinogênicas para seres humanos. “Quando a gente fala em fatores comportamentais e quando a gente fala sobre substâncias que podem causar câncer, a gente precisa também considerar a duração e a forma dessa exposição”, ponderou a professora.
De maneira prática, a mudança na alimentação pode começar fazendo melhores escolhas na hora de montar o cardápio. Neste caso, a gastroenterologista Marilea Souza recomenda “descascar mais e desembrulhar menos”.
“Você deve ir para os alimentos ricos em fibras, para os cereais, para os legumes. Evitar alimentos ultraprocessados”, sugeriu a médica, fazendo mensão à associação de que esse tipo de alimentação poderia ter com o surgimento que alguns casos de câncer.
Cultivar hábitos saudáveis podem contribuir para a redução do risco de câncer de mama, mas eles não garantem que a doença não vá aparecer. Além da prevenção, é importante que a mulher tenha acesso a informação de qualidade e aos serviços de saúde, com todas essas dimensões atuando de maneira complementar.
Falar de fatores modificáveis que podem interferir no surgimento de um tumor não significa atribuir a responsabilidade pelo desenvolvimento da doença às escolhas de cada mulher. “O câncer de mama é uma doença multifatorial, então a gente não pode atribuir o desenvolvimento do câncer a um único hábito ou a um único comportamento”, afirmou a cientista.
“Quando a gente fala em câncer, a gente não pode esquecer que a prevenção passa pela redução dos fatores de riscos que são considerados modificáveis, mas também pelo acesso à informação, ao diagnóstico precoce, ao acesso aos serviços de saúde”, ressaltou a pesquisadora. A observação enfatiza que o conhecimento deve ser voltado para a promoção da saúde e melhoria da vida das pessoas.
Nesse contexto, Clarissa Gurgel destacou que o papel da ciência não deve ser desviado do seu intuito. “A gente precisa ter a consciência que o cientista não julga as escolhas das pessoas. É uma tentativa mais de auxiliar na prevenção com responsabilidade, sem culpabilização. Oferecer essa informação de qualidade e ampliar a oportunidade para as mulheres que têm câncer de mama e para que as mulheres saudáveis possam reduzir o risco de desenvolvimento da doença” concluiu.
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