Saúde

Idosos podem sofrer em silêncio: Especialista alerta para sinais que muitos ignoram

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Entenda como o envelhecimento e o isolamento social afetam a saúde mental dos idosos e quais cuidados são essenciais  |   Bnews - Divulgação Foto: Ilustrativa / Pexels
Cibele Gentil

por Cibele Gentil

Publicado em 29/10/2026, às 15h00 - Atualizado às 15h49



As questões relacionadas à saúde mental têm ganhado cada vez mais espaço nas discussões públicas, diante do impacto que provocam na vida das pessoas e na sociedade. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados pelas Nações Unidas em 2025, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais. Outro estudo, publicado em 2023, apontou que cerca de metade da população mundial poderá desenvolver algum tipo de transtorno mental até os 75 anos.

Na velhice, a depressão e a ansiedade estão entre os problemas que exigem atenção. Segundo o psiquiatra Alex Goes, coordenador de Psicogeriatria da clínica psiquiátrica Holiste, o isolamento e a perda de conexões sociais estão entre os fatores que merecem atenção quando se fala em saúde mental da população idosa.

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O médico explica que as pessoas constroem diferentes papéis sociais ao longo da vida e que a sociedade costuma atribuir valor aos indivíduos com base nas funções que desempenham. “Ao longo do envelhecimento, a perda da participação social e a perda de papéis, antes centrais na vida do indivíduo, levam a uma desconexão social. A pessoa se mantém viva em uma sociedade, mas com a sensação de pouco pertencimento”, explicou.

Quando o quadro vai além do envelhecimento natural
De acordo com o especialista em psicogeriatria, mudanças nas relações e na forma de interação são esperadas durante as diferentes fases da vida. “Com o envelhecimento é esperado que ocorra uma redução gradual na atenção a múltiplas tarefas, uma redução na velocidade de processamento de informações e maior lentificação do ponto de vista motor”, pontuou o médico.

No processo natural de envelhecimento, essas mudanças tendem a ocorrer gradualmente, sem comprometer de forma significativa a capacidade de adaptação do idoso. No entanto, a perda de habilidades, as alterações de comportamento e os esquecimentos frequentes que prejudicam as interações sociais podem indicar a necessidade de avaliação especializada.

“Quando há perda de habilidades, alterações de comportamento, esquecimentos frequentes que comprometem as interações, prejuízos na funcionalidade ou perda da independência, torna-se fundamental avaliação médica especializada”, alertou o psiquiatra.

Diante de alterações que prejudicam a qualidade de vida e a autonomia, é importante não atribuir automaticamente os sintomas ao envelhecimento. Reconhecer os sinais e buscar atendimento especializado são medidas fundamentais para identificar possíveis problemas e iniciar o tratamento adequado.

Os desafios da saúde mental na terceira idade
Segundo Alex Goes, pessoas idosas podem ter mais dificuldade para identificar e relatar alguns sintomas relacionados ao sofrimento emocional. Isso ocorre, em parte, porque muitas cresceram em períodos nos quais a saúde mental recebia menos atenção e os transtornos psiquiátricos eram cercados por preconceitos.

“Existem estigmas relacionados à saúde mental que a população idosa assimilou em um momento histórico de menor atenção a esses sinais. Relatar sintomas como tristeza, angústia e ansiedade pode ser um desafio geracional”, explicou.

Para o médico, o preconceito e o estigma ainda são barreiras importantes para que muitos idosos procurem ajuda psiquiátrica. “Muitas vezes o indivíduo incorpora ideias negativas sobre o envelhecimento e passa a acreditar que sofrer emocionalmente, perder o interesse pela vida ou viver com tristeza é parte do processo de envelhecer”, refletiu o especialista.

Outro fator de risco é o sofrimento provocado por perdas sucessivas, especialmente quando há a morte de companheiros, familiares e amigos. Segundo o psiquiatra, essas experiências, somadas à perda de papéis sociais e ao afastamento de outras pessoas, podem intensificar o isolamento.

Quando as perdas se acumulam e o idoso passa a se sentir inútil ou sem espaço na sociedade, o sofrimento emocional pode se agravar, aumentando a necessidade de acolhimento e acompanhamento especializado.

Alex Goes - Crédito da foto: Joilson Pereira
Alex Goes - Crédito da foto: Joilson Pereira

Incentivo e apoio familiar

Alex Goes ressalta a importância de acompanhar a saúde mental da população idosa e incentivar a manutenção dos vínculos sociais, familiares e afetivos. Sempre que possível, também é importante estimular a participação em atividades de interesse, incluindo o trabalho, quando fizer parte da rotina e dos planos da pessoa.

Segundo a The Lancet Commission, comissão científica ligada à revista médica britânica The Lancet, cerca de 45% dos fatores associados ao risco de demência são potencialmente modificáveis. O isolamento social está entre os fatores que podem ser enfrentados por meio de mudanças no estilo de vida e de iniciativas de integração social.

“A falta de contato social pode aumentar a preocupação, a sensação de insegurança e o medo de enfrentar situações, o que reduz a confiança e a autonomia do indivíduo”, afirmou o psiquiatra. Segundo ele, esses aspectos podem contribuir para o aumento da ansiedade e para a piora da capacidade de realizar atividades cotidianas.

O médico também alerta que o excesso de proteção por parte da família pode prejudicar a autonomia do idoso. Na tentativa de ajudar, alguns familiares acabam assumindo tarefas que a pessoa ainda consegue realizar sozinha.

“Na tentativa de ajudar o idoso ou a idosa e fornecer assistência e cuidado, o familiar passa a assumir todas as funções antes desempenhadas pela pessoa. Cuidar não significa fazer tudo pelo outro, mas ajudá-lo a continuar realizando com segurança todas as funções que ele ainda consegue fazer”, destacou.

Mesmo quando apresenta limitações funcionais, o idoso deve ser tratado como um adulto com história, experiências e capacidade de participar das decisões que afetam sua vida.

“Explicar as decisões, envolvê-lo como parte integrante do núcleo familiar e respeitar sua privacidade, sem infantilizar o idoso na fala ou nas atitudes, são cuidados fundamentais para preservar a sua dignidade”, acrescentou o psiquiatra.

Hábitos que ajudam a manter a mente saudável

A prática regular de atividade física é uma das estratégias recomendadas para reduzir sintomas de depressão e ansiedade, além de contribuir para a manutenção da capacidade funcional. A OMS recomenda que adultos e idosos realizem pelo menos 150 minutos semanais de atividade física aeróbica de intensidade moderada, além de exercícios de fortalecimento muscular em dois ou mais dias da semana, respeitando as condições individuais.

A estimulação cognitiva, o sono adequado e a alimentação equilibrada também fazem parte dos cuidados com a saúde mental. Entre as atividades que podem contribuir para manter a mente ativa estão ler, escrever, aprender um idioma, tocar instrumentos musicais, jogar cartas e desenvolver novas habilidades.

“Também é fundamental manter alimentação equilibrada, priorizar o sono regular e adotar um estilo de vida que incorpore estímulos cognitivos de forma contínua, como ler, escrever, aprender um idioma, tocar instrumentos, jogar cartas e aprender habilidades novas. É importante manter a convivência social, os vínculos afetivos e estabelecer um propósito de vida independente da idade”, recomendou o psiquiatra.

Classificação Indicativa: Livre

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