Saúde
por Leonardo Oliveira
Publicado em 30/09/2025, às 11h57 - Atualizado às 13h00
Momentos como os primeiros passos, as primeiras palavras e até mesmo o nascimento são considerados marcos importantes em nossas vidas, mas, curiosamente, não conseguimos nos lembrar deles.
Esse fenômeno tem despertado a atenção de neurocientistas e psicólogos há décadas e ficou conhecido como amnésia infantil. Segundo Nick Turk-Browne, professor de psicologia e neurocirurgia da Universidade de Yale (EUA), a questão se concentra em duas principais hipóteses.
“Criamos memórias nos nossos primeiros anos de vida, mas não conseguimos acessá-las mais tarde, ou simplesmente não criamos memórias até crescermos?”, diz.
Durante muito tempo, a ciência acreditou na segunda hipótese, apontando o hipocampo, que é a região cerebral que armazena memórias, como ainda imaturo nos primeiros anos.
“Ele mais do que dobra de tamanho durante a infância. Talvez as experiências iniciais não possam ser armazenadas porque não temos o circuito necessário para isso”, detalha Turk-Browne.
O que mostram os estudos
Um recente experimento do próprio pesquisador sugere algo diferente. Os bebês podem, sim, formar memórias por volta do primeiro ano de idade. Sua equipe analisou a atividade cerebral de 26 bebês, de quatro meses a dois anos, enquanto viam imagens.
A chance de reconhecerem uma figura antiga era maior quando o hipocampo havia mostrado maior atividade no contato inicial. Mesmo assim, o professor ressalta cautela.
“É um primeiro passo. Se as estamos armazenando, isso levanta questões fascinantes sobre onde estão essas memórias. Elas ainda estão lá? Poderíamos acessá-las?”, questiona.
Pesquisas com animais já indicaram que lembranças podem ser “desativadas”, mas depois reativadas artificialmente, o que abre margem para pensar que algo semelhante ocorra com bebês humanos.
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Até onde a memória vai?
Catherine Loveday, professora de neuropsicologia da Universidade de Westminster (Reino Unido), reforça que crianças pequenas conseguem relatar situações vividas, mas alguns anos depois já não lembram.
“Portanto, as memórias estão lá. Só que não ficam gravadas”, diz ela, que ainda ressalta que talvez o problema não seja a ausência da lembrança em si, mas sua fragilidade.
“A questão é até que ponto essas memórias se mantêm, se desaparecem rapidamente e se são conscientes, ou seja, memórias sobre as quais podemos refletir”.
Outro desafio é diferenciar lembranças reais de reconstruções do cérebro.“A memória é sempre uma reconstrução. Se alguém lhe conta algo, seu cérebro pode recriar um episódio que parece absolutamente verdadeiro”, alerta Loveday.
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Identidade e esquecimento
Mais do que uma questão científica, Turk-Browne acredita que a amnésia infantil toca no sentido de quem somos. “Trata-se da nossa identidade”, afirma. “A ideia de termos um ponto cego nos primeiros anos, em que não lembramos de nada, desafia o modo como pensamos sobre nós mesmos”, finaliza.
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