Saúde

Novo estudo revela elemento-chave ligado ao início do Alzheimer

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A nova pesquisa sugere o que pode ser um dos gatilhos iniciais da doença de Alzheimer  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Freepik
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 15/08/2025, às 11h33 - Atualizado às 12h56



Um novo estudo da Escola de Medicina de Harvard (EUA) sugere que a perda de lítio no cérebro pode ser um dos gatilhos iniciais da doença de Alzheimer. A pesquisa também indica que compostos à base da substância, em doses muito baixas, foram capazes de reverter a doença em camundongos.

O lítio contribui para a preservação da função normal de todos os principais tipos de células cerebrais e ocorre naturalmente no cérebro, segundo o estudo publicado na revista Nature.

Após a realização de testes em roedores, foi possível perceber que os compostos da substância restauraram a memória, reduziram placas de um dos principais marcadores do Alzheimer, beta-amiloide, além de prevenir danos neuronais, sem causar toxicidade.

Além disso, também foi analisado os tecidos cerebrais humanos post-mortem e observou que níveis mais baixos do lítio estavam associados à presença de placas amiloides. Desta forma, busca-se uma ligação entre o lítio e essas placas, que podem explicar a redução no cérebro, contribuindo para a progressão do Alzheimer.

Lítio no corpo humano

Segundo o psiquiatra e pesquisador do Hospital Santa Lúcia, Maurício Erwin Puhler, o estudo reforça um modelo nutricional ao analisar o equilíbrio de metais no cérebro. "Foram examinados 27 metais no sangue e nos neurônios, em diferentes fases da doença, e o lítio foi o único que se alterou conforme a evolução, especialmente no córtex pré-frontal, região ligada a funções como planejamento, tomada de decisões, controle emocional e comportamento social", explica.

Apesar da empolgação com os resultados, o neurologista Flávio Sekeff Sallem, do Hospital Japonês Santa Cruz (SP), faz uma observação. "Inicialmente, é essencial afirmar que o corpo humano possui lítio em sua composição apenas em doses mínimas. Portanto, não se trata de uma substância ausente, mas de um elemento presente em quantidades muito pequenas”, afirma.

No entanto, de acordo com o neurologista, existem hipóteses interessantes levantadas pelo estudo.

“O Alzheimer tem sido tradicionalmente explicado por acúmulo de beta-amiloide, proteína tau e processos inflamatórios no cérebro. Colocar a falta de lítio como fator causal, ou modulador chave, desloca o foco para a homeostase de micronutrientes e pode conectar mecanismos metabólicos, neuroprotetores e imunomodulatórios", conta.

Resultados ainda são insuficientes

Segundo os especialistas, os dados ainda são insuficientes para uso clínico imediato. “"Análises post-mortem refletem estágios finais, não necessariamente o início da doença", ressalta Sergio Jordy, neurologista e membro da Academia Americana de Neurologia.

Os dados são "intrigantes e biologicamente coerentes", de acordo com Sallem. Ele destaca que os camundongos tratados com lítio tiveram melhora cognitiva e redução de amiloide, enquanto a análise de tecidos humanos revelou uma correlação entre baixo teor de lítio cerebral e presença de placas.

"A robustez é suficiente para abrir novas linhas de pesquisa clínica, mas não para orientar intervenções terapêuticas imediatas", pondera o neurologista. Puhler lembra que pacientes bipolares tratados com lítio têm menor risco de demência, o que reforça a necessidade de aprofundar o estudo de seus efeitos neuroprotetores. 

No entanto, o especialista alerta que é cedo para propor exames como marcadores precoces de risco, pois ainda não se sabe quais parâmetros devem ser seguidos.

Quanto à suplementação, os riscos permanecem, mesmo em doses baixas. "O lítio carrega riscos sérios e só deve ser usado com acompanhamento médico", alerta Puhler.

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Sequestro do lítio

O estudo de Harvard aponta que o lítio seria sequestrado pelas placas de beta-amiloide, perdendo sua função protetora. 

"Sabíamos que o lítio está associado à diminuição de produção das proteínas amiloides. No entanto, esse novo estudo nos sugere que o próprio amiloide sequestra o lítio, diminuindo a disponibilidade desse nutriente que tem propriedades protetoras para o neurônio", observa Maurício Erwin Puhler, psiquiatra e pesquisador do Hospital Santa Lúcia (Brasília).

Jordy aponta que a ligação do lítio com as placas beta-amiloides se trata de um conceito recente e interessante. "A ideia de que o lítio fique 'sequestrado' nas placas ainda não é validada, mas, se comprovada, poderá se tornar uma revolução no tratamento, abrindo a porta até para uma prevenção da doença”, afirma.

Obstáculos?

Transformar a hipótese em estratégia clínica enfrenta obstáculos claros. "O lítio, em doses farmacológicas, tem uma janela terapêutica estreita e pode causar toxicidade renal e tireoidiana", alerta Sallem.

"Hoje faria sentido medir o lítio somente em pesquisa e ainda seria necessário conseguir avaliar as concentrações do lítio no cérebro, uma vez que os níveis séricos (quantidade da substância no sangue) não necessariamente refletem o nível no tecido cerebral; ainda há uma necessidade de muitas respostas antes que possa ter uso clínico.", acrescenta Jordy

Puhler enxerga um potencial para ensaios com compostos diferentes do carbonato nos tratamentos futuros. 

 "Tem uso comprovado e respaldado no tratamento das afecções psiquiátricas, exige cuidado médico por carregar riscos podendo ser mal tolerado em idosos. O estudo atual sugeriu que o orotato de lítio, conhecido por melhor biodisponibilidade e menor risco de toxicidade, apesar de não ter comprovação de uso médico, possa ter algumas vantagens que merecem ser investigadas nesse contexto”, conclui.

Classificação Indicativa: Livre

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