Saúde

Outubro Rosa: Mulheres pretas e pardas são maioria na batalha contra o câncer na Bahia

Foto: Leonardo Rattes / Saúde GovBA
Realidade alarmante levanta questões sobre acesso à saúde e diagnóstico precoce.  |   Bnews - Divulgação Foto: Leonardo Rattes / Saúde GovBA
Vitória Oliveira

por Vitória Oliveira

vitoria.oliveira@bnews.com.br

Publicado em 01/10/2024, às 05h00 - Atualizado às 10h47



No mês dedicado ao Outubro Rosa, é fundamental abordar a grave disparidade racial na mortalidade por câncer de mama, que afeta desproporcionalmente as mulheres pretas e pardas.

Segundo dados da Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab), entre 2021 e 2024, as mulheres pardas representaram 56% dos óbitos por câncer de mama, seguidas pelas brancas (22,2%) e pretas (18,5%). Essa realidade alarmante levanta questões sobre acesso à saúde e diagnóstico precoce.

Em entrevista ao BNEWS, Jocineide dos Santos Papa, 46 anos, moradora de Nova Brasília de Valéria, em Salvador, que trabalha em serviços gerais, compartilhou sua experiência dolorosa com o câncer. À reportagem, ela relatou os desafios do tratamento e as dificuldades que muitas mulheres enfrentam ao buscar atendimento na rede pública de saúde.

A Descoberta e o Tratamento

Jocineide relata que a descoberta do câncer ocorreu em 2007, quando percebeu um caroço em sua mama. “Fiquei preocupada, pois várias pessoas da minha família tiveram câncer. Minha patroa pagou a consulta e os exames, o que facilitou muito o processo,” explica. Após um tratamento que incluiu quimioterapia e radioterapia, ela foi considerada curada.

Jocieneide após ficar curada do primeiro câncer. Arquivo Pessoal

Entretanto, em 2016, Jocineide enfrentou um novo diagnóstico. “Dessa vez, o tumor já estava grande, do tamanho de uma laranja. O tratamento foi mais complicado, pois eu já estava debilitada”, conta. A situação melhorou um pouco, pois ela tinha um plano de saúde. Contudo, em 2019, após perder o plano, enfrentou novos desafios com um terceiro câncer na mesma mama, o que dificultou o acesso a exames e consultas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Jocineide e a filha Lorena durante o tratamento do terceiro câncer / Arquivo pessoal.

Fiquei um ano sem acompanhamento médico. Precisei da ajuda de desconhecidos para conseguir uma consulta. Os exames demoravam meses para serem liberados”, revela Jocineide. 

Apesar de todos os desafios, ela conseguiu vencer o câncer mais uma vez, no entanto, agora lida com problemas de saúde decorrentes dos tratamentos anteriores.

Desigualdade no Acesso à Saúde
A trajetória de Jocineide ilustra uma realidade compartilhada por muitas mulheres, especialmente entre aquelas pretas e pardas. De acordo com André Dias, coordenador do Serviço de Mastologia do Hospital da Mulher, as mulheres negras frequentemente recebem diagnósticos em estágios mais avançados da doença, o que contribui para uma maior taxa de mortalidade.

“Em estudo intitulado Ethnic Disparities in Breast Cancer Patterns in Brazil: Examining Findings from Population-Based Registries, publicado em abril de 2024 pela prestigiada revista internacional Breast Cancer Research and Treatment, foi evidenciado que, embora a taxa mediana de incidência da doença seja maior entre mulheres brancas, as mulheres negras recebem o diagnóstico em estágios mais avançados (60,1% em relação a 50,6%) e têm uma taxa de mortalidade 3,83 vezes maior”, explicou o oncologista.

Segundo Dr. André Dias, também membro do Comitê de Diversidade da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), “embora a taxa mediana de incidência do câncer de mama no Brasil seja maior entre as mulheres brancas—101,3 por 100 mil mulheres brancas contra 59,7 por 100 mil mulheres negras—, as mulheres negras têm maior probabilidade de viver em áreas subdesenvolvidas, ter níveis de escolaridade mais baixos, viver sem parceiro e consumir mais álcool em comparação com as mulheres brancas”.

O câncer de mama é o tipo de câncer que mais acomete as mulheres no Brasil. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 4.230 casos para este tipo de câncer somente na Bahia. A prevenção primária e a detecção precoce contribuem para a redução da incidência e da mortalidade por essa neoplasia.

"A prevenção primária do câncer de mama consiste em reduzir os fatores de risco modificáveis e promover fatores de proteção para a doença. A prática de atividade física, a manutenção do peso corporal adequado, por meio de uma alimentação saudável, e evitar o consumo de bebidas alcoólicas estão associadas à redução do risco de desenvolver câncer de mama. A amamentação também é considerada um fator protetor", detalha Mônica Hupsel, médica e superintendente estadual de Regulação.

Os dados de mortalidade entre 2021 e 2024 reforçam essa desigualdade: enquanto as mulheres pardas representam a maior porcentagem de óbitos, as mulheres pretas também enfrentam uma crescente mortalidade, subindo de 17,7% em 2021 para 21% em 2024. Essa realidade está relacionada a fatores socioeconômicos, ao acesso desigual ao sistema de saúde e às disparidades no diagnóstico precoce.

Iniciativas em Andamento
Diante desse cenário, o Ministério da Saúde informou que a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra tem implementado estratégias voltadas para a promoção da saúde. Um dos principais objetivos da iniciativa é ampliar o acesso à detecção precoce do câncer no Sistema Único de Saúde (SUS), fortalecendo ações preventivas. Além disso, o Ministério apoia financeiramente e tecnicamente estados e municípios para aprimorar as iniciativas de prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama.

Na Bahia, a Secretaria da Saúde do Estado (SESAB) está implementando várias iniciativas para melhorar o acesso ao diagnóstico e tratamento em Salvador e no interior do estado. O Programa Mais Acesso a Especialistas (PMAE) visa reduzir a burocracia e acelerar o atendimento para promover a detecção precoce do câncer de mama.

Neste Outubro Rosa, o Governo do Estado da Bahia está oferecendo cerca de 30 mil exames de mamografia. Os exames podem ser agendados através do site http://outubrorosa.saude.ba.gov.br, onde a população poderá escolher o dia, local e turno. No entanto, é importante estar atento aos requisitos: não ter realizado o exame nos últimos 12 meses, não ter passado por cirurgia na mama e estar na faixa etária de 40 a 69 anos. No dia do exame, é necessário levar o RG, CPF, Cartão do SUS e comprovante de residência. Não é exigida requisição médica.

“A campanha busca ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e conscientizar sobre a importância da prevenção”, afirma Roberta Santana, secretária da Saúde do Estado.

Classificação Indicativa: Livre

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