Saúde
O Setembro Amarelo traz à tona a importância de discutir, principalmente, duas práticas muitas vezes negligenciadas: o autocuidado e a empatia. Especialistas apontam que, ao contrário do senso comum que associa o autocuidado apenas à estética, trata-se de um hábito para a prevenção de sofrimentos emocionais e para a construção de relações mais saudáveis.
Em entrevista ao BNews, a psicóloga Laís Veloso, especialista em Psicologia Organizacional e Psicanálise Clínica, explica que ainda existe uma compreensão limitada do que significa cuidar de si.
“No Brasil, muitas vezes o autocuidado é associado apenas à estética ou ao lazer, e isso tem muito a ver com fatores culturais também. Vivemos em um país marcado pela ideia de ser sempre alegre, ‘um país feliz’, e nesse movimento acabamos deixando pouco espaço para olhar de forma mais consciente para nossas emoções”, afirma.
Ela ressalta que reduzir o autocuidado a algo superficial gera confusões e impede avanços no debate sobre saúde mental:
“O autocuidado é muito mais amplo. Não se trata de estar feliz o tempo todo, e sim de reconhecer as próprias necessidades emocionais, físicas e sociais, e agir a partir disso. É aprender a estabelecer limites saudáveis, tanto com você quanto com os outros; é organizar sua rotina de forma a respeitar seu corpo e sua mente; e compreender que não existe autocuidado sem considerar o contexto social, as condições e as oportunidades de cada pessoa”, defende.
Na visão da psicóloga, cuidar de si é um direito básico e uma atitude de coragem, não de fraqueza. “O autocuidado deve ser entendido como algo essencial para saúde mental e qualidade de vida. Afinal, saúde não é apenas a ausência de doença, mas a construção ativa de bem-estar e equilíbrio no cotidiano”, afirma.
“Ninguém precisa passar pela dor sozinho”
Outro ponto destacado pela especialista é a relevância da empatia e da escuta qualificada em momentos de crise emocional. “A escuta sem julgamentos abre um espaço seguro para que a pessoa seja ela mesma, sem precisar se defender. Em crises emocionais, esse acolhimento valida o que está sendo vivido e ajuda a reorganizar sentimentos, diminuindo a confusão interna”, diz Laís Veloso.
De acordo com ela, quando essa escuta é feita por profissionais de saúde mental, os resultados podem ser ainda mais significativos. “A escuta é um fator de proteção porque fortalece vínculos, previne o isolamento e transmite confiança de que ninguém precisa passar pela dor sozinho.
Quando feita por um profissional qualificado, além de acolher, o psicólogo oferece recursos técnicos para auxiliar no manejo das emoções, ampliar o autoconhecimento e criar estratégias de enfrentamento”, explica.
O medo dos estigmas
Apesar dos avanços, ainda existem barreiras que dificultam o acesso à terapia. “Na prática clínica, percebo que os maiores obstáculos para buscar ajuda ainda são o estigma — a ideia de que ‘só procura psicólogo quem está muito mal’ —, o medo do julgamento, as dificuldades financeiras e a falta de informação sobre o que realmente acontece em uma terapia”, aponta a especialista.
Segundo Laís, essas dificuldades estão ligadas a questões culturais e ao imediatismo da sociedade atual. “Muitas pessoas cresceram sem referências de que falar sobre sentimentos é saudável e acabam carregando sozinhas aquilo que poderia ser compartilhado. Outro ponto importante é que nem sempre as pessoas conseguem sustentar o processo terapêutico porque ele pode ser desconfortável. A terapia não oferece respostas prontas ou imediatas; ela exige tempo, reflexão e abertura para olhar para si”.
Ela também observa uma tendência recente: a busca por respostas rápidas na internet e até mesmo em ferramentas de inteligência artificial. “É comum que as pessoas busquem conteúdos rápidos nas redes sociais, que generalizam situações complexas, em vez de se aprofundar no que de fato sentem. Hoje, também temos um novo cenário: muitas pessoas recorrem à inteligência artificial como se fosse terapia. Embora a IA possa oferecer acolhimento inicial, informações e até apoio em alguns momentos, ela não substitui a experiência clínica de um psicólogo”, alerta.
Para Veloso, a principal diferença está na construção do vínculo humano. “A terapia envolve um vínculo humano, um olhar ético, técnico e singular sobre a história de cada pessoa, algo que nenhuma ferramenta automatizada consegue reproduzir de forma integral”, afirma.
Por isso, ela reforça que a família, os colegas de trabalho e a comunidade são a principal rede no incentivo ao cuidado. “Eles podem ajudar a quebrar esse tabu validando a importância da saúde mental, compartilhando suas próprias experiências de cuidado e oferecendo apoio prático. Mais do que isso, podem ajudar a criar ambientes em que buscar ajuda não seja visto como fraqueza, mas como coragem e um ato essencial de saúde”.
Centro de Valorização da Vida
O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail e chat 24 horas, todos os dias.
Ao ligar para o número 188, é possível ser atendido por um voluntário, com respeito, anonimato, que guardará estrito sigilo sobre tudo que for dito. Os voluntários são treinados para conversar com todas as pessoas que procuram ajuda e apoio emocional.
Atendimento gratuito
Para buscar apoio através de atendimento com profissionais de saúde mental, de forma gratuita, na capital baiana, basta recorrer aos serviços oferecidos pela prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Atualmente, o município, através da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), dispõe de vários pontos de atenção à saúde mental.
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