Saúde

Setembro Amarelo: Terapia funciona; confira os benefícios do acompanhamento psicológico

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Entenda o papel da terapia e do acompanhamento psicológico na vida das pessoas  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Freepik
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 12/09/2025, às 06h00



Em meio às intensas discussões do Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio em todo o Brasil, é importante ressaltar o papel da terapia e do acompanhamento psicológico na vida das pessoas. Para além do tabu e da desinformação, histórias de quem já fez terapia revelam na prática como o suporte profissional pode ser o diferencial decisivo para o bem-estar e a superação.

Como funciona e qual seu impacto

Especialistas explicam que a terapia é um processo estruturado de escuta, acolhimento e intervenção profissional, voltado não só ao tratamento, mas ao desenvolvimento de ferramentas de autoconhecimento.

“A terapia é um encontro entre duas pessoas: o paciente e o terapeuta. É um espaço de fala e escuta, onde o paciente compartilha sua vida, medos, inseguranças, conquistas e desafios. O terapeuta acolhe, questiona e ajuda a organizar pensamentos e emoções, facilitando a elaboração psíquica e abrindo espaço para novas compreensões. O que diferencia a terapia de outras formas de cuidado é justamente esse lugar seguro, protegido pelo sigilo, onde a pessoa pode se expressar livremente, na sua própria verdade, sem julgamentos”, explica Mayla Araújo, psicóloga da Holiste Psiquiatria, em entrevista ao BNews Setembro Amarelo.

A especialista esclarece como ocorrem as reuniões iniciais. “Nas primeiras sessões, o foco é no acolhimento e na escuta atenta do que levou o paciente a buscar ajuda. O terapeuta apresenta informações práticas, como sigilo, frequência, horários, valores e acordos, e, a partir daí, começa-se a construir o vínculo terapêutico, que é a base de todo o processo. Esse vínculo, feito de confiança e presença, permite que o paciente vá se abrindo aos poucos”, conta.

Mayla Araújo conta que é um processo contínuo de compreensão e empatia. “Ao longo dos encontros iniciais, o terapeuta busca compreender a história de vida, relações familiares, experiências de infância, adolescência e vida adulta, sempre em sintonia com a demanda que o paciente traz. É um processo de descoberta conjunta, que vai se aprofundando com o tempo”, diz a especialista da Holiste Psiquiatria.

Antônio Félix, designer, foi uma das pessoas que enfrentou a depressão e viveu onze anos de acompanhamento terapêutico. O isolamento social foi um dos fatores determinantes para o surgimento da depressão. Ele reforça que o autoconhecimento desenvolvido na terapia o ajudou a entender e lidar melhor com situações de afastamento ou sofrimento. A rede de cuidado, que inclui familiares, amigos e até o ambiente de trabalho, é fundamental, mas o acompanhamento profissional segue sendo o eixo central de mudança e superação.

Segundo ele, esse encontro fez com que ele tivesse uma vida melhor. “Foi uma experiência altamente positiva em minha vida, pois me ajudou nos processos de autoconhecimento, autovalorização, autoaceitação e diversos outros quesitos que contribuíram para que eu pudesse ter uma vida mais leve e feliz”, relata. 

Mais do que uma abordagem

A psicóloga Mayla explica que há vários métodos no processo terapêutico. “Existem diversas abordagens em psicoterapia, como a psicanálise, a junguiana, a TCC, a gestalt, entre outras, cada uma com suas ferramentas e formas de trabalhar”, diz. No entanto, mais do que a abordagem em si, o fator decisivo para o processo terapêutico é o vínculo entre paciente e terapeuta. 

Segundo ela, é esse encontro, chamado em termos técnicos de “transferência”, que sustenta o processo e permite que o sujeito se abra de verdade. "A abordagem dá a estrutura, mas é o modo como o profissional a aplica, junto com a identificação e confiança estabelecida, que faz a terapia funcionar. Ou seja: mais do que escolher a ‘abordagem certa’, é importante encontrar o terapeuta com quem você se sente à vontade para caminhar ", salienta.

O acompanhamento psicológico promove ganhos que extrapolam o benefício individual: “A terapia influencia os ambientes nos quais circulamos (trabalho, relacionamentos etc.), na medida em que permite que investiguemos a nós mesmos”, reforça Antônio.

Resistência

A resistência cultural e ideias equivocadas ainda cercam a saúde mental, mas Antônio faz um convite ao enfrentamento desse tabu. “Incentivo fortemente que aqueles que desejam buscar a terapia o façam sem receios, pois isto não diminui em nada o valor daquele que deseja ser atendido por um terapeuta. Muito pelo contrário: buscar terapia é um indício de coragem e reconhecimento de que todos temos questões, angústias e sentimentos que precisam ser elaborados para o nosso próprio bem. E não há vergonha alguma nisso”, destaca.

O designer nunca recebeu críticas por buscar ajuda profissional e faz questão de pontuar: “É um equívoco entender terapia como bobagem. Buscar terapia é sinal de coragem, não de fraqueza”.

Como a terapia contribui especificamente para a prevenção do suicídio

A terapia é um espaço de confiança e sigilo, onde o paciente pode falar abertamente sobre seus sofrimentos mais profundos, inclusive sobre 'ideação suicida', sem medo de julgamento. O terapeuta acolhe, ajuda a organizar os pensamentos e a elaborar as dores, mas também avalia o risco de forma cuidadosa. Quando necessário, pode intervir acionando familiares, orientando uma busca de emergência psiquiátrica, ou seja, flexibilizando o sigilo em prol da proteção da vida.

“Além do manejo de crises, a terapia fortalece recursos internos, auxilia na construção de estratégias para lidar com os momentos de maior angústia e ajuda o paciente a se comunicar com familiares e amigos, ampliando e fortalecendo sua rede de apoio. É um processo que oferece não só escuta, mas também proteção e cuidado. Em longo prazo, trabalha a reconstrução do sentido de vida, o fortalecimento da autoestima e a ressignificação do sofrimento, elementos fundamentais para que a pessoa volte a se sentir pertencente e capaz de viver”, conclui a especialista Mayla Araújo, da Holiste Psiquiatria.

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Centro de Valorização da Vida

O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail e chat 24 horas, todos os dias.

Ao ligar para o número 188, é possível ser atendido por um voluntário, com respeito, anonimato, que guardará estrito sigilo sobre tudo que for dito. Os voluntários treinados para conversar com todas as pessoas que procuram ajuda e apoio emocional.

Atendimento gratuito

Para buscar apoio através de atendimento com profissionais de saúde mental, de forma gratuita, na capital baiana, basta recorrer aos serviços oferecidos pela prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Atualmente, o município, através da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), dispõe de vários pontos de atenção à saúde mental.

Classificação Indicativa: Livre

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