Saúde
Mais da metade dos jovens LGBTQIAPN+ sofrem com ansiedade, depressão ou estresse pós-traumático. Especialistas alertam que a rejeição familiar, o isolamento e a ausência de referências positivas aumentam as vulnerabilidades e são os principais vilões para a saúde mental desse público.
Segundo levantamento realizado pelo projeto “Being LGBT in Brazil”, desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e publicado em 2023, 61% dos jovens LGBTQIAPN+ relataram já ter sofrido discriminação dentro da própria família, e 72% afirmaram ter sido vítimas de violência verbal ou física em ambientes escolares.
A diversidade de experiências dentro da comunidade é grande. Ana Luiza, de 24 anos, uma mulher transsexual, relata ter sido expulsa de casa após revelar sua identidade de gênero.
“No começo, tudo parecia impossível. Passei horas sem saber para onde ir, sem apoio, sentindo que não tinha lugar no mundo, foi um período de muita solidão e medo constante. Uma amiga me recebeu na casa dela por uma noite, depois eu fiquei em um albergue onde sofri os piores tipos de violência que você pode imaginar”, relembrou.
Hoje, Ana está se reerguendo com a ajuda de uma rede de apoio inesperada. “O dono de uma padaria me ofereceu emprego e foi quando eu vi esperança em mudar de vida. No primeiro mês eu até pedi a ele para dormir no galpão alguns dias, por medo de voltar para o albergue. Ele cedeu, mas assim que recebi o primeiro salário, procurei um espaço pra mim e tô vivendo minha vida”, completou.
Sobre os “privilegiados”
Por outro lado, há jovens que tiveram trajetórias mais acolhedoras, como Lucas Almeida, de 21 anos, gay e com total aceitação da família. “Posso viver minha vida sem medo ou vergonha, porque eu tenho um lugar seguro com os meus. Reconheço meu privilégio e sinto que tenho as mesmas oportunidades que qualquer outro jovens gays”, afirma.
Nem todos, porém, encontram espaço seguro dentro do núcleo familiar. Adriano, de 29 anos, vive com o parceiro há cinco anos, mas mantém a relação em segredo para a família. “Eles acham que moro sozinho. Se soubessem da minha vida afetiva, não aceitariam. É estranho ter que dividir minha vida em duas partes, ser eu mesmo em alguns lugares e omitir coisas em outros”, revela. Apesar da dificuldade, André valoriza a relação: “Dentro de casa e entre amigos próximos, posso ser autêntico. Fora disso, preciso manter o cuidado para evitar conflitos maiores. Mas sei que é uma briga que vou precisar comprar em breve”.
De onde vem a rede de apoio?
Para o psicólogo e ativista LGBTQIAPN+ Hamilton Kida, fundador da Rainbow Psicologia, os desafios mais relatados nos atendimentos vão além da violência explícita. “Os maiores desafios no atendimento à comunidade estão relacionados ao enfrentamento dos preconceitos e discriminações e também pela falta de modelos nos meios de comunicação e redes sociais”, afirma, em entrevista ao BNews.
O ambiente familiar aparece como um ponto de atenção recorrente. “A rejeição familiar é uma das grandes responsáveis pela internalização dos preconceitos e isso faz com que as pessoas LGBTQIAPN+ desenvolvam problemas de auto-estima e dificuldades nos relacionamentos interpessoais”, completa Kida.
Especialistas destacam que a criação de espaços ajudam a reverter esse quadro. Um relatório da Trevor Project, ONG internacional de apoio a jovens LGBTQIAPN+, publicado em 2022, revelou que jovens que encontram apoio de pelo menos um adulto de confiança têm 40% menos chances de desenvolver sintomas depressivos graves. Essa rede de apoio pode estar na escola, em grupos de amigos ou até mesmo em espaços virtuais de acolhimento.
Além do apoio externo, o autocuidado também é apontado como ferramenta indispensável. Kida ressalta: “As principais estratégias de autocuidado estão relacionadas à busca de redes de apoio nas relações familiares quando possível, amizades e terapia. Além disso, há necessidade de informação e letramento sobre as questões LGBTQIAPN+, resultando em sentimento de pertencimento e orgulho de si”.
O debate sobre empatia e acolhimento não é restrito à comunidade LGBTQIAPN+, mas à sociedade como um todo. A pesquisa do PNUD mostra que o desconhecimento sobre questões de gênero e sexualidade é apontado por 68% dos entrevistados como o principal combustível para os preconceitos.
“Assim como para as próprias pessoas LGBTQIAPN+, a sociedade em geral também precisa de letramento a respeito dos assuntos relacionados à gênero e sexualidade. A melhor forma de combate aos preconceitos e quebra de tabus é o conhecimento”, defende Kida.
Centro de Valorização da Vida
O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail e chat 24 horas, todos os dias.
Ao ligar para o número 188, é possível ser atendido por um voluntário, com respeito, anonimato, que guardará estrito sigilo sobre tudo que for dito. Os voluntários são treinados para conversar com todas as pessoas que procuram ajuda e apoio emocional.
Atendimento gratuito
Para buscar apoio através de atendimento com profissionais de saúde mental, de forma gratuita, na capital baiana, basta recorrer aos serviços oferecidos pela prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Atualmente, o município, através da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), dispõe de vários pontos de atenção à saúde mental.
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