Saúde
por Cibele Gentil
Publicado em 28/10/2026, às 19h10
O sofrimento mental de crianças e adolescentes é um quadro que tem, cada vez mais, ocupado um espaço de estudo e preocupação entre profissionais da área da educação e da saúde. Conforme levantamentos recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em março de 2026, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe) constatou que três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmaram que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes.
O mesmo levantamento apontou ainda que 18,5% dos alunos entrevistados responderam que pensam sempre, ou na maioria das vezes, que “a vida não vale a pena ser vivida”. Crianças e adolescentes nem sempre conseguem expressar ou até mesmo elaborar o fato de que estão passando por um sofrimento psíquico, mas é muito comum que a condição se manifeste em sua rotina.
Conforme explica Luana Dantas, coordenadora do Programa Infanto Juvenil da clínica psiquiátrica Holiste, em Salvador, os principais sinais comportamentais que indicam que uma criança ou adolescente está passando por um sofrimento psíquico podem ser observados através da sua rotina. “Alterações no sono, na alimentação, no interesse pelas atividades, irritabilidade intensa, afastamento dos amigos e dificuldades escolares merecem atenção”, alertou.
A psicóloga clínica e mestre em educação pontuou que, em crianças menores, o sofrimento também pode aparecer no corpo, nas brincadeiras e na perda de uma autonomia que já havia sido conquistada. “O que me orienta é a intensidade, a persistência e o quanto essas mudanças comprometem a vida. Mesmo uma criança muito quieta, que não incomoda ninguém, também pode estar sofrendo.”
Crianças pequenas, que ainda não conseguem verbalizar o que sentem, requerem uma abordagem que precisa avaliar outras formas de expressão. “A criança se expressa ao brincar, desenhar, inventar histórias, repetir cenas e construir relações. O brincar permite dar alguma forma a experiências que ainda não conseguem ser contadas diretamente”, explicou a especialista.
Para exemplificar, a especialista cita uma situação hipotética em que uma criança vivenciou uma separação. “Ela pode, por exemplo, organizar repetidamente partidas e reencontros numa brincadeira. Isso não significa que cada brinquedo tenha uma tradução fixa também, o sentido é construído ao longo dos encontros, a partir do que aquela criança faz e diz”, contextualizou a psicóloga.
Luana Dantas lembra que a fase da adolescência envolve transformações muito profundas no corpo, nos vínculos e na maneira de se reconhecer. “Há contradições, momentos de recolhimento e mudanças de humor, e isso é esperado, natural”, ponderou.
No entanto, a psicóloga ressalta que é necessário observar se o jovem mantém possibilidades de se interessar, encontrar prazer, construir relações e retomar suas atividades depois dos momentos difíceis. “O desejo pela vida e a forma como esse adolescente continua se implicando ou não com suas atividades de interesse são pontos cruciais a se analisar.”
Nesta fase, os pais devem ficar alertas se ocorreu um isolamento social ou uma queda repentina no rendimento escolar. A psicóloga ressalta que essas mudanças requerem investigação e aproximação. “O adolescente pode precisar de privacidade, mas é diferente quando o recolhimento vem acompanhado de sofrimento, perda de vínculos e abandono de atividades que antes tinham valor”, destacou.
Nesse contexto, uma queda nas notas não deve ser imediatamente entendida pelos pais como preguiça ou falta de compromisso. Luana Dantas orienta que, primeiro, é necessário verificar se existem conflitos na escola, dificuldades de aprendizagem, situações de humilhação, problemas de sono ou mudanças familiares. “Uma abordagem que eu sugiro muito é: ‘Percebi que você tem ficado mais sozinho e que estudar está mais difícil. Como estão as coisas para você?’”.
Conforme analisa a psicóloga, as telas e as redes sociais fazem parte da vida da nova geração e é necessário compreender como elas entram na história de cada criança e adolescente. Contudo, é preciso observar quando o seu uso passa a ocupar tanto espaço que chega a empobrecer outras experiências importantes, como brincar, conversar, dormir e conviver.
“No meu trabalho, procuro investigar o lugar que a tela ocupa. É uma possibilidade de encontro, uma diversão, uma maneira de evitar situações difíceis ou o único recurso que aquele jovem encontra para lidar com a solidão?” Para ela, essas funções podem coexistir e a quantidade de horas, isoladamente, não é suficiente para explicar essa relação.
Especificamente sobre as redes sociais, Luana Dantas pondera que a exposição ao olhar do outro, a comparação e a busca por reconhecimento também podem produzir sofrimento. “É preciso escutar o jovem e conhecer sua rotina, seus vínculos e o que acontece dentro e fora do ambiente digital”, aconselhou a profissional.
A psicóloga acredita que cada família precisa construir suas regras para o uso de tecnologias, considerando a idade dos filhos, suas necessidades e a realidade da casa. “Como psicóloga, meu papel é ajudar a família a compreender os efeitos desse uso e a estabelecer acordos que consiga sustentar”, contextualizou.
Para que os pais possam chegar a uma ideia de como gerir o uso das tecnologias por seus filhos, a especialista sugere buscar respostas para algumas perguntas, que podem servir de roteiro. “Há espaço para convivência? O sono está sendo preservado? A criança consegue se interessar por outras atividades? Como reage quando precisa interromper o uso?”, são alguns dos questionamentos que podem auxiliar nessa avaliação.
Luana Dantas também alerta que os combinados da família precisam ter sentido e alguma previsibilidade. “Com adolescentes, escutar e negociar favorece a participação deles, sem retirar dos adultos a responsabilidade pelo cuidado.” A psicóloga salienta, ainda, a importância de os pais observarem própria relação com o celular e participarem das alternativas que propõem. “Estabelecer limites gera descontentamento, frustração, mas isso faz parte!”
Para alguns pais, reconhecer o sofrimento do filho é "admitir que falharam" e isso pode dificultar a procura por ajuda. Por isso, Luana Dantas defende que é importante que a família encontre um espaço em que também possa falar de seus medos. “O tratamento precisa acolher essa angústia e, ao mesmo tempo, construir responsabilidade pelo cuidado”, explicou.
A psicóloga ainda reforça que procurar ajuda profissional não é receber uma sentença sobre a criança ou sobre a família, mas sim abrir um espaço para compreender o que está acontecendo. “Costumo considerar a participação familiar fundamental, mas ela precisa preservar o lugar de fala e a intimidade do jovem. O filho não deve sentir que o atendimento será mais um lugar em que adultos falarão por ele”, refletiu Luana.
Quando existe sofrimento intenso, prejuízo importante no cotidiano, dúvidas diagnósticas ou situações de risco em quadros moderados ou graves, a psicóloga informa que uma avaliação psiquiátrica é necessária. “Nessas situações, a presença de uma equipe multiprofissional torna-se fundamental”, afirmou.
De acordo com a profissional, psicologia e psiquiatria podem construir o cuidado desde o início. “O medicamento pode ajudar a reduzir sintomas, enquanto a psicoterapia oferece espaço para trabalhar a experiência do jovem, seus conflitos e suas relações. Automutilação, falas de morte ou suspeita de tentativa de suicídio exigem avaliação imediata diante de perigo atual; é necessário atendimento de urgência”, explicou a psicóloga.
Algumas ferramentas de inteligência emocional e práticas diárias podem ser implementadas na rotina de jovens em tratamento. Contudo, Luana Dantas alerta para que esses recursos não acabem por se transformar em mais uma cobrança para que o jovem controle tudo o que sente. “Precisamos ajudá-lo a reconhecer seus afetos, perceber os sinais do corpo e encontrar maneiras de pedir ajuda”, explicou.
Para ajudar o jovem a enfrentar essas questões, a psicóloga orienta o adulto a participar do processo e buscar escutar sem minimizar o problema. Ela também aconselha demonstrar como ele próprio lida com frustrações. Também é importante haver tempo sem exigência de desempenho. “Uma rotina com sono regular, movimento, lazer e convivência oferece sustentação”, acrescentou.
Por fim, a psicóloga aconselha que, em momentos de ansiedade, deve-se diminuir os estímulos e oferecer presença. Se o jovem aceitar, realizar com ele uma respiração lenta e confortável pode ajudar. “Essas práticas podem reduzir a intensidade de alguns episódios, mas não garantem que eles não ocorram nem substituem o tratamento quando necessário”, concluiu.
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