Vida
por Analu Teixeira
Publicado em 28/11/2025, às 12h03 - Atualizado às 12h47
Nos últimos anos, tornou-se comum encontrar nas redes sociais relatos como “perdi meu emprego”, “tive uma crise na terapia” ou “preciso confessar algo”. Vídeos emocionais no TikTok e no Instagram, muitas vezes acompanhados de lágrimas, filtros suaves e hashtags como #socialmediaisfake, transformaram experiências íntimas em conteúdo público.
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Esse fenômeno, conhecido como oversharing, é marcado pela tendência crescente de expor detalhes pessoais para milhares, ou milhões, de desconhecidos. Na prática, o que antes era tema para um diário trancado ou uma conversa com um amigo agora faz parte da timeline global.
A explosão desse comportamento aparece também em fóruns como o Reddit, onde tópicos começam com “não consigo mais guardar isso” e seguem com desabafos envolvendo solidão, ansiedade, fim de relacionamentos ou inseguranças profundas, desencadeando enxurradas de respostas, algumas empáticas, outras hostis.
Entre pais, o fenômeno ganha uma variação: o sharenting, quando mães e pais expõem a rotina, os desafios e até fragilidades emocionais dos filhos sem consentimento, criando uma identidade digital para alguém que ainda nem compreende o significado de privacidade.
Embora muitos recorram ao oversharing buscando acolhimento, pertencimento ou simplesmente alívio emocional, especialistas apontam que o fenômeno não pode ser explicado apenas como resultado de busca por dopamina gerada por curtidas e comentários.
Motivações culturais, psicológicas e sociais também influenciam a tendência, especialmente após a pandemia, quando as interações digitais se tornaram uma das principais formas de apoio emocional.
De fato, em alguns casos, expor vulnerabilidades online pode gerar sensação de comunidade e permitir trocas construtivas sobre saúde mental, estratégias de enfrentamento e autoconhecimento. No entanto, os riscos são significativos.
A superexposição pode desencadear comparação social, dependência emocional do engajamento e arrependimento posterior. Comentários agressivos, julgamentos e até ameaças contra usuários que compartilham crises pessoais se tornaram comuns, assim como o desconforto de ver conteúdos reaparecendo anos depois em prints ou reportagens, mesmo quando o autor tentou deletá-los.
Há ainda o impacto psicológico de vincular autoestima ao desempenho de uma publicação: quando um desabafo não viraliza, a sensação pode ser de rejeição. Para evitar que a internet se torne uma espécie de diário aberto sem retorno, psicólogos recomendam que usuários façam uma pausa antes de publicar e reflitam: “estou buscando validação ou apoio real?”
Estabelecer limites, seja restringindo quem pode interagir, filtrando temas que não serão expostos ou optando por espaços privados, ajuda a proteger a saúde emocional. Além disso, recursos offline, como conversas presenciais, acompanhamento terapêutico e práticas de registro íntimo, como diários ou gravações pessoais, podem cumprir a mesma função sem riscos permanentes.
No fim, o oversharing revela um paradoxo: em busca de conexão e autenticidade, muitas pessoas entregam à internet partes sensíveis de suas histórias em ambientes onde a empatia convive com julgamento e onde o privado pode se tornar público para sempre.
Em um cenário que recompensa a exposição, talvez a forma mais moderna de autocuidado seja justamente o contrário: aprender o que vale a pena manter apenas para si.
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