Vida

'Pai é quem cuida': Conheça histórias de baianos que mostram que paternidade vai muito além do DNA

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As histórias de quem, seja pela adoção ou pelo laço socioafetivo, assume a decisão diária de estar presente e cuidar, assumindo a paternidade sem vínculos de sangue  |   Bnews - Divulgação Foto: Ilustrativa / Pexels
Cibele Gentil

por Cibele Gentil

Publicado em 09/08/2026, às 04h00



O Dia dos Pais é uma celebração que, bem mais do que festejar o genitor, comemora todo o afeto e cuidado envolvidos na criação dos filhos. Para uma criança, a presença e o amor se tornam muito mais determinantes em sua formação do que necessariamente o laço sanguíneo. Nem sempre a figura masculina atuante durante o desenvolvimento infantil vem da genética. O convívio, a dedicação e, sobretudo, a decisão são os fatores que mais vão formar e fortalecer os vínculos das relações entre pais e filhos.

O desejo de paternar e o vínculo que vem do convívio

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Para Aline Santana, psicóloga de Salvador especializada em adoção, o desejo de adotar ou de assumir uma criança precisa nascer, antes de tudo, do desejo de paternar. “Ter um filho é uma coisa, ser pai é outra”, salienta, ao lembrar que alguns homens, apesar de serem genitores, não exercem o papel para além da questão biológica. “Tem muito homem que só tem filho, mas não é pai”, diz.

De acordo com a psicóloga, antes de se decidir por ter um filho, é necessário ter a convicção de que se pretende estabelecer uma relação de cuidado, carinho e afeto. Ela lembra que o papel implica em ser uma referência e de proporcionar o melhor ao alcance para o futuro para outra pessoa.

Conforme explica a psicóloga, o vínculo entre pais e filhos não nasce especificamente pela genética, o que ela chama de “mito da biologia” e que precisa ser quebrado. ​"O vínculo não nasce com a biologia ou no dia em que se vê a criança pela primeira vez. Ele é criado e mantido no cotidiano, com cuidado, carinho e presença."

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Cada momento faz evoluir a relação e faz com que o vínculo seja criado e fortalecido no dia a dia. “Esse vínculo vai se criando, inclusive, com o cuidado diário, a necessidade de manter essa criança viva, salva, saudável”, explica Aline, ressaltando que a adoção pode ser entendida de forma muito mais ampla do que apenas o conceito formal comumente utilizado.

“A adoção acontece na nossa vida o tempo inteiro, como um novo amigo, um companheiro”, disse a responsável pelo espaço Mundo da Adoção. Ela explica que, seja através de uma adoção formal ou de relações socioafetivas, como um recasamento, é o tempo e a convivência que vão, de fato, estabelecer a relação pai-filho ou mãe-filho.

Paternidade para além de modelos tradicionais

A sociedade tem, nos últimos anos, derrubado antigos preconceitos e famílias formadas fora dos parâmetros tradicionais têm se tornado cada vez mais comuns. O professor Pedro Paulo, 40 anos, e o médico Davidson, 34 anos, são um exemplo dessa realidade. “Nós somos uma família homoafetiva e interracial. Nós somos homens brancos e que adotamos, em 2024, duas crianças negras, que na época tinham 4 aninhos”, contou Pedro Paulo.

O desejo de se tornar pai era algo alimentado pelo professor havia muito tempo e ele já planejava adotar uma criança mesmo antes de conhecer o companheiro. O processo de adoção foi aberto por Pedro Paulo em 2022, iniciando a habilitação. “Eu conheci Davidson no início desse processo. Desde quando a gente começou a namorar, ele já sabia que era um desejo meu e que eu já tinha dado entrada na habilitação para adoção. Logo quando nós fizemos a união estável, ele também se colocou nesse processo”, contou.

Havia se passado por volta de um ano depois do deferimento da habilitação, quando o casal recebeu a notícia de que havia duas crianças gêmeas, um menino e uma menina, com quatro anos na época, aptas para adoção. “Nós tínhamos planejado adotar uma criança, só que quando soubemos que eram irmãos gêmeos, nosso coração se abriu para essa possibilidade de adotar duas crianças. E aí, quando chegamos a conhecer, a gente percebeu que realmente não tinha como ser diferente. Desde o primeiro contato, a gente já percebeu que eles eram nossos filhos”, lembrou Pedro Paulo.

“Dois papais”

No entanto, o professor relatou que nem tudo foi simples ou fácil logo de início. “Não foi uma coisa como é apresentada em novela e filmes, que chegam os pais no abrigo e as crianças vão te receber com amor todo, com vontade de serem adotadas, porque isso não é a realidade. A realidade é mais complicada, é mais difícil”, disse.

Embora ainda pequenos, os filhos de Pedro Paulo e Davidson já carregavam a sua própria vivência e questões. Além das necessidades comuns, história das crianças deixou algumas marcas psicológicas que também precisaram ser trabalhadas. “Na vivência, no dia a dia, a gente foi começando a conhecer as crianças e a entender as suas necessidades e a gente foi trabalhando com isso. Essa adaptação não foi tão rápida, mas ela foi se dando de forma natural”, relatou.

Pedro Paulo também conta que desde o começo o casal se identificou para as crianças como seus dois pais e que tudo foi acolhido pelas crianças com muita naturalidade. “Desde o início elas nos chamaram de ‘papai Pedro’ e ‘papai Davidson’ e elas têm grande orgulho e apreço por isso. Elas falam ‘nós temos dois pais’ abertamente e com felicidade para todo mundo”, contou.

Ao longo dos dois anos, a família tem construído uma rotina que, além de buscar a formação e o desenvolvimento das crianças, também vai tornando os vínculos mais fortes e enriquecendo as experiências. A agenda semanal das crianças é preenchida com escola, terapia, aula de música e esportes. Também contempla momentos de convivência e lazer entre família. “Recentemente, eles até participaram de um campeonato de judô e eles amaram. Foram dormir com a medalha no peito, super felizes. Eles estão adaptados a uma rotina de família”, disse Pedro Paulo.

“O pai da casa de cá”

Algumas relações de pai-filho acabam se constituindo exatamente por conta da convivência e da rotina, como foi para a família dos influenciadores Davi e Fernanda, do perfil Nosso Costa Azul. O novo casamento trouxe para Davi a oportunidade de nascer um vínculo afetivo mais profundo e uma presença participativa na vida das crianças do relacionamento anterior de sua mulher.

Fernanda já era mãe de duas crianças, um menino e uma menina, quando eles iniciaram o namoro. Davi logo foi incluído na rotina familiar. “Quando a gente começou a namorar, eu sabia que era um pacote único. Então depois, quando você casa, mesmo tendo a figura do pai presente, gente entende que acaba sendo um outro pai que também está lá, eu sou um pai também”, explicou ele.

Para as duas crianças, a aceitação não veio de forma igual. Para Maria, que no início do novo relacionamento tinha apenas 1 ano, houve receptividade da nova figura paterna bem no começo e logo ela o chamava de “paizinho”. Já para Gabriel, que na época tinha 4 anos, foi a convivência e a identificação de interesses em comum, como a música, que fez com que surgisse a afeição e estreitou a relação.

Atualmente, Gabriel e Maria, respectivamente com 12 e 9 anos, têm suas guardas compartilhadas entre os pais biológicos e passam uma semana em cada residência. Eles entendem que em cada casa existe uma figura paterna, que cuida, protege e provê, e que também impõe limites e regras. “Fernanda preza muito por essa autoridade”, diz Davi, falando sobre como é a filha deles faz referência aos dois: “pai da casa de cá” e “pai da casa de lá”.

Conforme descreve Davi, o relacionamento entre ele e as crianças é como qualquer outro. “Tem os desafios, comparações, dores... mas tem todo um lado de coisas boas, de amor, carinho e reconhecimento”, disse ele. “Tem os dias que eles dizem ‘eu te amo’ e tem os dias de ‘eu te odeio’, né?”, brincou Davi. Ele destaca que o mais gratificante é ter a oportunidade de, mesmo não sendo o pai biológico, ser um pai de verdade. “Como eu não tenho outros filhos, acho que o melhor de tudo é a oportunidade de viver de verdade a paternidade. Mesmo sem ser o original, mas é igualzinho”, afirmou.

Classificação Indicativa: Livre

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