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Publicado em 24/10/2026, às 07h30 Cara de Barro - Foto: Divulgação / Warner Bros Cauan Borges
Existe algo essencialmente trágico na ideia de um homem que depende do próprio rosto para existir aos olhos do mundo. Em “Cara de Barro”, novo filme da DC Studios dirigido por James Watkins e com o roteiro assinado por Mike Flanagan, o horror nasce da destruição da identidade e da transformação física de Matt Hagen, um ator em ascensão que vê a própria carreira desmoronar depois de ter o rosto desfigurado por um criminoso.
Interpretado por Tom Rhys Harries, o personagem encontra na medicina experimental uma possibilidade de recuperar a aparência, mas o tratamento com nanocélulas logo transforma a promessa de reconstrução em um pesadelo de proporções grotescas.
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A premissa aproxima o longa de uma tradição do horror corporal, ou ‘body horror’, que compreende a carne como território de conflito, submetida às ambições humanas e à impossibilidade de controlar o próprio corpo. Além da fotografia, que transmite as cores com muita vivacidade, mesmo em planos mais fechados, e com uma direção que consegue explorar os diálogos interpessoais com vigor que transmitem perigo ou vulnerabilidade. O maior mérito de “Cara de Barro” está em compreender que a monstruosidade não precisa surgir de uma criatura externa para provocar repulsa, e que pode nascer daquilo que reconhecemos como familiar.
Na esteira dessa ideia, o filme encontra um diálogo inevitável com “A Mosca” (1986), de David Cronenberg, no qual a transformação física se converte em uma experiência de degradação progressiva, e com “Na Minha Pele” (2002), de Marina de Van, que investiga a relação perturbadora entre identidade, dor e carne. Em ambos, o corpo deixa de ser uma estrutura estável para se tornar uma ameaça.
A mutação de Hagen segue esse princípio, fazendo com que sua pele responda às emoções e aos desejos de vingança. Quando as nanocélulas passam a agir de acordo com os impulsos do protagonista, a busca pela recuperação estética adquire contornos de uma condenação biológica. O horror deixa de ser apenas visual e passa a refletir a incapacidade de separar aquilo que somos daquilo que desejamos nos tornar.
Há também uma dimensão grotesca que aproxima o longa de experiências mais transgressoras do gênero. A lembrança de “Taxidermia” (2006), de György Pálfi, surge na maneira como a carne pode ser convertida em espetáculo e na disposição de levar a deformação humana para além dos limites do que costuma ser tolerado pelo cinema comercial. Em suma, o longa não reproduz necessariamente o surrealismo escatológico dessas obras, mas encontra no desconforto físico uma possibilidade de romper com a assepsia visual que frequentemente domina as produções de super-heróis.
A sequência em que Hagen tenta cortar a pele que cresce sobre os próprios olhos durante um voo é emblemática dessa proposta. A imagem é repulsiva justamente porque transforma uma situação cotidiana em um episódio de violência íntima, no qual o personagem precisa agredir a própria carne para continuar enxergando.
A possibilidade de trabalhar com uma classificação indicativa mais restritiva, uma narrativa centrada em um antagonista e uma abordagem assumidamente vinculada ao horror abre espaço para uma liberdade criativa que nem sempre encontra lugar nas grandes franquias. James Watkins, conhecido por trabalhos como “Eden Lake” (2008), e Mike Flanagan, roteirista associado ao horror psicológico, encontram na mitologia da DC a oportunidade de explorar um imaginário menos interessado em salvar o mundo do que em expor suas feridas.
A própria escolha de transformar Cara de Barro em protagonista de uma história de degradação física rompe com a expectativa de que personagens desse universo precisem funcionar prioritariamente como peças de uma engrenagem narrativa maior. O filme não precisa abandonar os quadrinhos para experimentar. Precisa apenas permitir que o gênero de origem deixe de determinar todas as suas escolhas estéticas. Essa abertura, por si só, é um passo importante para uma indústria que frequentemente confunde reconhecimento de marca com identidade cinematográfica.
A relação entre aparência e identidade também encontra uma expressão particularmente interessante nas cenas do espelho, que evocam “Vanilla Sky” (2001), de Cameron Crowe, estrelado por Tom Cruise. No longa, o reflexo de Cruize participa de uma investigação sobre a imagem que construímos de nós mesmos e sobre a distância entre o corpo e a realidade.
Em “Cara de Barro”, essa relação ganha uma dimensão mais física e brutal. Recuperar o rosto significa restabelecer a possibilidade de ser desejado. Além disso, a máscara usada pelos protagonistas de ambos os filmes é assustadoramente semelhante.
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Existe aqui, mesmo que na superfície da trama, um comentário sobre a indústria da imagem, sobre a dependência da aparência e sobre a crueldade de uma sociedade que transforma o corpo em capital. A monstruosidade do personagem começa muito antes de suas mutações mais extremas, quando o valor de sua existência passa a ser medido pela capacidade de continuar sendo visto como alguém digno de admiração.
A narrativa nem sempre aprofunda as contradições psicológicas que apresenta, e o potencial trágico de Hagen por vezes cede espaço a uma estrutura de vingança mais convencional e extremamente desinteressante dos ‘filmes de boneco’. A transformação física, embora eficaz nos momentos de maior desconforto, nem sempre encontra correspondência em uma investigação igualmente complexa sobre a deterioração emocional do protagonista. Sem contar que a câmera tende a se afastar dos momentos mais interessantes, com pouco foco no que a obra tem de mais instigante, que é o olhar sob o corpo do protagonista, ou as mortes crueis que ele provoca.
Ainda assim, reduzir o filme a essas fragilidades seria ignorar o que sua própria existência representa. Em uma indústria que durante anos apostou na repetição de fórmulas, a disposição de aproximar a DC de Cronenberg, do horror grotesco e da transgressão corporal demonstra que o cinema de heróis ainda pode encontrar caminhos fora do espetáculo habitual e explorar a liberdade artística de seus cineastas.
Até porque, gritos e aplausos no meio das produções de herói não são a explicação da falta de interesse com a obra em si, mas sim com uma extrema necessidade de validação em tela, através do famoso e detestável ‘fan service’
O mais novo longa da ‘rival’ da Marvel Studios tem a oportunidade de transformar um vilão secundário em matéria para uma reflexão sobre autodestruição, mesmo que, em alguns momentos, abrace a genericidade da abordagem cinematográfica dos blockbusters adaptados de quadrinhos.