Economia & Mercado

Hotel, cemitério, TV e Banco Master: De onde veio o dinheiro de Daniel Vorcaro que virou fortuna bilionária

Daniel Vorcaro começou nos negócios da família, passou pelo mercado imobiliário e chegou ao Banco Master, onde seu patrimônio saltou de R$ 218 milhões para R$ 1,4 bilhão.  |  Divulgação

Publicado em 15/09/2026, às 05h30   Divulgação   Redação Bnews

Antes de construir um império no setor financeiro que hoje atrai o escrutínio implacável da Polícia Federal (PF), o empresário Daniel Vorcaro navegou por um mar de apostas que misturava empreendimentos familiares em Belo Horizonte (MG), editoras, projetos imobiliários frustrados e até emissora de televisão. 

Mas, foi na setor financeiro que aconteceu a guinada que levou o dono do Banco Master de um patrimônio declarado de R$ 218 milhões para R$ 1,4 bilhão entre 2018 e 2023, segundo a Polícia Federal (PF).

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Nos últimos anos, a expansão do grupo passou a ser alvo de investigação, que apontam supostas fraudes bilionárias, envolvendo operações de crédito, recursos de fundos de previdência e títulos que, segundo os investigadores, teriam sido criados ou negociados sem lastro.

Dos negócios da família ao setor imobiliário

Mineiro, Vorcaro é formado em Economia pelo Ibmec e tem MBA em Finanças pela mesma instituição. Filho de Henrique Vorcaro, fundador da construtora Multipar, começou a trabalhar nos negócios da família ainda jovem.

Aos 19 anos, assumiu a administração de uma empresa de cursos educacionais e de uma editora de livros didáticos pertencentes ao pai. Os negócios foram vendidos posteriormente, e Vorcaro passou a atuar com Henrique no setor imobiliário, em empresas como Multipar e Mercatto.

Antes de entrar no sistema financeiro, também investiu em empreendimentos de maior porte. Aos 21 anos, participou de um projeto para construir um hotel de 37 andares em Belo Horizonte, com heliponto e centro de convenções. O investimento superava R$ 200 milhões e contava com incentivos da prefeitura, mas a obra não foi concluída e o empreendimento acabou considerado um fracasso em Minas Gerais.

A diversificação incluiu ainda um fundo voltado a cemitérios. Outro capítulo ocorreu na televisão: o pai de Vorcaro ajudou a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, a comprar uma emissora, onde Daniel chegou a apresentar um programa de música gospel.

A chegada ao Banco Máxima

A entrada de Vorcaro no sistema bancário aconteceu em 2016, depois de negócios mantidos com Saul Sabbá, então controlador do Banco Máxima, em operações relacionadas a fundos imobiliários.

Naquele ano, Sabbá ofereceu uma participação na instituição ao empresário. Vorcaro entrou inicialmente como sócio minoritário, em associação com os irmãos Antônio e Vicente Conte. No ano seguinte, começou o processo para assumir o controle do banco, operação que dependia de autorização do Banco Central do Brasil, concedida em 2019.

O Máxima já atravessava dificuldades financeiras e havia sido inabilitado pelo Banco Central por fraude e rombo de caixa. Vorcaro recorreu a antigos parceiros e fez o aporte necessário para tentar reerguer a instituição.

Em 2021, após uma reestruturação societária, operacional e financeira, o banco passou a se chamar Banco Master. A mudança veio acompanhada de uma capitalização de aproximadamente R$ 400 milhões.

Por isso, Vorcaro não criou o banco do zero. O empresário assumiu o Banco Máxima entre 2016 e 2019 e, posteriormente, transformou a instituição no Banco Master.

O crescimento do Master e o patrimônio de Vorcaro

Sob o comando de Vorcaro, o Master adotou uma estratégia agressiva de expansão. O grupo ampliou sua atuação por meio da aquisição de participações em empresas e instituições financeiras, entre elas a seguradora Kver, o banco Voiter, antigo Indusval, Vipal, Banif Brasil e o banco digital Will Bank.

Em outra frente, Vorcaro investiu R$ 300 milhões no Atlético-MG e passou a deter 26% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do clube mineiro.

O patrimônio pessoal acompanhou esse crescimento. Segundo declarações de Imposto de Renda, passou de R$ 218 milhões em 2018 para R$ 1,4 bilhão em 2023.

O padrão de vida também ganhou escala. Vorcaro mantinha uma casa avaliada em R$ 280 milhões em Trancoso, na Bahia. O imóvel recebia eventos, com aluguel da área externa superior a R$ 500 mil por diária. Em 2023, a festa de 15 anos da filha custou R$ 15 milhões. O empresário também possuía um jatinho avaliado em R$ 200 milhões.

No exterior, o Master chegou a alugar um escritório de cerca de 2.400 metros quadrados no Brickell Plaza, em Miami, nos Estados Unidos, mas o espaço nunca chegou a funcionar. Segundo o Financial Times, Vorcaro também alugou um endereço no Bishopsgate, prédio comercial em Londres onde está instalada a Apple, mas o banco posteriormente desistiu da locação.

O dinheiro por trás da expansão

A investigação da PF passou a examinar não apenas o patrimônio de Vorcaro, mas também a forma como o conglomerado captava e movimentava recursos.

Uma das principais fontes de financiamento do Master eram os Certificados de Depósito Bancário (CDBs), títulos utilizados pelos bancos para captar dinheiro de investidores. A instituição oferecia taxas superiores às praticadas no mercado. Em determinadas operações, o retorno prometido chegava a 40% acima da taxa básica de referência.

Segundo os investigadores, o problema estava no destino desses recursos. Parte dos ativos adquiridos pelo banco não apresentaria rentabilidade suficiente e, em alguns casos, sequer existiria.

A PF afirma que dinheiro captado por meio dos CDBs teria sido direcionado para operações consideradas arriscadas com empresas frágeis e endividadas, em uma estrutura que os investigadores classificam como uma espécie de “originação” fictícia.

As suspeitas contra o Banco Master

Os riscos envolvendo as operações do Master já eram apontados pelo Banco Central desde 2023. A dimensão da crise ganhou contornos maiores durante a tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB).

Segundo as investigações, o Master teria criado uma estrutura complexa para fraudar o mercado financeiro. Uma das principais suspeitas envolve a simulação da venda de carteiras de crédito consignado ao BRB que seriam falsas ou não teriam lastro real.

As fraudes financeiras identificadas nessa etapa da investigação chegam perto de R$ 12 bilhões.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também apontou irregularidades em uma operação envolvendo o Master e uma pequena clínica médica de Contagem. A empresa tinha capital social de R$ 700 mil e emitiu notas comerciais de R$ 361 milhões para o banco entre 2021 e 2025. A defesa da clínica e do banco nega as acusações.

Bilhões de fundos de previdência

A investigação também chegou aos recursos administrados pelos regimes próprios de previdência social (RPPS), sistemas destinados aos servidores públicos titulares de cargos efetivos da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.

Dados do Ministério da Previdência Social indicam que 19 entes federativos fizeram aplicações no Banco Master que, juntas, somam R$ 1,87 bilhão. Os investimentos foram realizados entre outubro de 2023 e dezembro de 2024.

Entre os maiores aportes estão R$ 970 milhões da Rioprevidência, regime previdenciário do estado do Rio de Janeiro, e R$ 400 milhões da Amapá Previdência (Amprev). Maceió informou ter aplicado R$ 97 milhões; São Roque (SP), R$ 93,1 milhões; e Cajamar (SP), R$ 87 milhões.

A PF identificou ainda um padrão de captação junto a institutos de previdência de municípios paulistas. De acordo com a investigação, Vorcaro, acompanhado por quatro advogados, teria percorrido cidades oferecendo promessas de altos retornos e garantias para atrair os aportes.

Um dos casos citados é o instituto de previdência de Santo Antônio de Posse (SP), que aplicou R$ 13 milhões em Letras Financeiras (LFs) emitidas pelo Banco Master.

Os investigadores apontam possíveis violações de normas, excesso de exposição ao risco, fragilidades nos processos decisórios e inadequação dos ativos adquiridos.

A crise e o maior resgate da história do FGC

A crise do Banco Master levou o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a iniciar o maior resgate de sua história, estimado em R$ 41 bilhões. Cerca de 1,6 milhão de credores aguardam ressarcimento.

Entre os atingidos estão fundos de pensão de servidores públicos de cinco municípios paulistas e do governo do Rio de Janeiro.

O Ministério Público Federal (MPF) classificou a conduta atribuída ao Master como “um dos maiores crimes contra o sistema financeiro já documentados”. PF e MPF também afirmam que havia uma “organização criminosa dentro da estrutura formal do banco”.

As acusações ainda estão sob investigação e não representam uma condenação definitiva. A defesa de Vorcaro nega as acusações.

As prisões de Daniel Vorcaro

Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Segundo a investigação, o empresário tentava embarcar em um jato particular com destino final a Dubai.

Naquele momento, era investigado por suspeitas de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Posteriormente, foi solto por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), que determinou o uso de tornozeleira eletrônica.

Em 4 de março de 2026, voltou a ser preso preventivamente em São Paulo, na terceira fase da Operação Compliance Zero, por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Desde 25 de junho de 2026, Vorcaro está custodiado no Centro de Detenção Provisória II (CDP II), no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha, em Brasília. A prisão preventiva permanece vigente.

O que a Operação Compliance Zero investiga

A Operação Compliance Zero apura um esquema envolvendo a emissão e negociação de títulos de crédito falsos e instituições financeiras integrantes do Sistema Financeiro Nacional, entre elas o Banco Master.

As investigações abrangem suspeitas de gestão fraudulenta, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça.

Também são apuradas suspeitas de ameaças, coerção e intimidação de adversários, ex-funcionários e jornalistas, além de invasão de dispositivos informáticos e monitoramento ilegal de pessoas.

A PF investiga ainda a existência de uma estrutura chamada “A Turma”, descrita pelos investigadores como uma espécie de “milícia privada” que teria sido utilizada para vigiar e intimidar opositores do banco.

Vorcaro tenta colaborar com a investigação

O caso entrou em uma nova etapa com as tentativas de colaboração de Vorcaro. A defesa apresentou propostas de colaboração premiada à PF, mas duas versões teriam sido rejeitadas por falta de elementos considerados suficientes para o avanço das negociações.

Em 28 de agosto de 2026, Vorcaro prestou novo depoimento à PF por videoconferência, diretamente da Papudinha. A oitiva ocorreu no inquérito que investiga a suspeita de que ex-servidores do Banco Central teriam recebido propina para favorecer o Banco Master durante a supervisão da instituição.

A defesa afirma que Vorcaro pretende colaborar, mas sustenta que a PF não teria demonstrado interesse em ouvi-lo. A corporação, por sua vez, afirma que o empresário pode negociar diretamente com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e que as propostas anteriores foram recusadas por não apresentarem provas suficientes. Até o momento, não há acordo de delação premiada homologado.

Para esta quarta-feira (15), está prevista uma sessão extraordinária do plenário do STF para analisar a investigação envolvendo mensagens atribuídas a Vorcaro e ao ministro Alexandre de Moraes, além de um pedido da PGR para declarar nula parte da apuração conduzida por Mendonça. A análise do Supremo, contudo, não representa, por si só, uma decisão sobre a soltura do empresário. A prisão preventiva e as acusações relacionadas às operações financeiras seguem em discussão separadamente.

Classificação Indicativa: Livre


TagsBanco MasterDaniel VorcaroOperação Compliance Zero

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