Economia & Mercado

A nova geração do trabalho: jovens recusam empregos tradicionais em busca de autonomia

Estudo revela que 68% dos jovens preferem ser autônomos a ter emprego CLT e reflete uma mudança nas prioridades profissionais no trabalho  |  Foto: Divulgação / Unsplash

Publicado em 08/09/2026, às 06h00   Foto: Divulgação / Unsplash   Cauan Borges

Para parte da Geração Z, pessoas que nasceram entre 1990 e 2010, a carteira assinada deixa de representar o principal símbolo de sucesso profissional. Consequentemente, liberdade, criatividade e possibilidade de construir o próprio caminho ganham espaço nas escolhas. Por muito tempo, ter um emprego CLT foi associado à ideia de estabilidade, segurança e sucesso profissional

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No entanto, para uma parcela da nova geração, essa relação trabalhista começa a mudar. Entre jovens brasileiros, a possibilidade de controlar a própria rotina, trabalhar com aquilo que gostam e construir uma trajetória profissional independente passou a pesar tanto quanto, ou até mais do que, a garantia de um salário fixo no fim do mês.

Uma pesquisa do Datafolha, publicada em 2025, aponta que 68% dos jovens brasileiros entre 16 e 24 anos preferem trabalhar de forma autônoma a seguir o modelo tradicional de emprego com carteira assinada, mesmo que isso represente uma remuneração menor. O levantamento expõe uma transformação na maneira como a chamada Geração Z enxerga o trabalho e evidencia o crescimento de uma lógica profissional baseada na autonomia.

Carteira de Trabalho - Foto: Divulgação / Pixabay
Carteira de Trabalho - Foto: Divulgação / Pixabay
Carteira de Trabalho - Foto: Divulgação / Pixabay
Carteira de Trabalho - Foto: Divulgação / Pixabay
Carteira de Trabalho - Foto: Divulgação / Pixabay
Carteira de Trabalho - Foto: Divulgação / Pixabay

Não significa, necessariamente, que esses jovens rejeitem qualquer possibilidade de emprego formal. A mudança está, sobretudo, naquilo que passou a ser considerado prioridade. Se antes estabilidade e carreira dentro de uma empresa apareciam como objetivos centrais, agora liberdade, identificação pessoal, criatividade e controle sobre a própria trajetória também entram nessa equação.

Em Salvador, essa transformação pode ser observada nas histórias de jovens que decidiram construir suas próprias alternativas profissionais enquanto estudam, produzem conteúdo, trabalham com arte ou desenvolvem projetos independentes.

Entre a liberdade e a instabilidade

É o caso de Felipe Gabriel que, aos 21 anos, é estudante de Pedagogia, fotógrafo e artista independente. Nascido e criado em Salvador, o jovem decidiu experimentar diferentes possibilidades profissionais em vez de concentrar sua trajetória em um único modelo de carreira.

Entretanto, a escolha não significa ignorar as dificuldades de viver de trabalhos independentes. Para Felipe, existe uma contradição permanente entre a liberdade proporcionada pela autonomia e a instabilidade financeira que acompanha esse caminho.

O modelo tradicional de emprego, apesar de trazer uma certa estabilidade, muitas vezes coloca a pessoa dentro de uma estrutura muito rígida, com horários, funções e limites que nem sempre correspondem ao que ela quer construir para a própria vida. No meu caso, eu queria ter mais autonomia para experimentar diferentes caminhos e transformar aquilo que eu gosto em trabalho. Ao mesmo tempo, não acho que isso signifique que o mercado convencional seja ruim ou que eu não possa fazer parte dele um dia. A questão é que, hoje, eu me identifico mais com a possibilidade de construir meu próprio caminho. E acho que o principal limite que vejo no modelo tradicional é justamente essa sensação de que você precisa se adaptar ao trabalho, quando eu prefiro buscar formas de fazer o trabalho se adaptar também aos meus interesses, à minha criatividade e aos meus objetivos”, iniciou Felipe

A trajetória do estudante também expõe outra característica dessa nova relação com o trabalho, que é a tentativa de combinar diferentes áreas de conhecimento e atuação. Felipe transita entre a Pedagogia, a fotografia e a produção artística. Em vez de enxergar essas atividades como caminhos separados, o jovem busca justamente encontrar pontos de encontro entre elas.

Na verdade me traz uma grande liberdade de transição, mas vejo também no sentido de unir essas duas áreas, foi um questionamento que tive logo no início da minha vida como fotografia, mas que trago para o meu TCC a união do audiovisual e educação. Vendo também de um ponto de vista que tenho muito visível da união dessas duas areas. Então, para mim, é um equilíbrio entre liberdade e responsabilidade. A autonomia me motiva, mas também me exige planejamento, organização e consciência de que construir uma carreira independente leva tempo, pensando que ainda é uma area que pode ser nova”, prosseguiu.

A experiência revela que a rejeição ao modelo convencional não significa necessariamente uma rejeição à estabilidade. O que aparece é uma tentativa de encontrar um equilíbrio entre segurança financeira e liberdade para desenvolver projetos próprios. Para Felipe, o conceito de sucesso também deixou de estar necessariamente associado a um cargo, uma empresa ou a um contrato formal.

Vai muito do sonho de cada pessoa, mas esse “dar certo”, enxergo como conseguir viver daquilo que eu faço sem precisar abrir mão de quem eu sou e da minha autonomia. Essa ideia de sucesso não exatamente precisa ser de uma carteira assinada, ou algum cargo específico ou uma profissão considerada tradicional, mas do sonho que cada pessoa tem, e conseguir realiza-lo. Eu quero poder olhar para o que estou construindo e sentir que existe propósito naquilo.Ao mesmo tempo, eu não romantizo a falta de estabilidade. Eu gostaria, sim, de ter uma segurança financeira, mas não a ponto de precisar abrir mão da minha liberdade. Acho que, se em algum momento eu tiver que escolher entre uma estabilidade que me prende e uma autonomia que me permite continuar criando e construindo meu próprio caminho, eu provavelmente escolheria a autonomia. Para mim, o verdadeiro sucesso seria conseguir transformar essa liberdade em uma vida profissional sustentável”, completou.

Quando a própria página vira profissão

A transformação também aparece entre jovens que encontraram na internet uma possibilidade de construir carreira sem necessariamente passar pelos caminhos tradicionais do mercado.

Aos 21 anos, Allan Alcantara, estudante de Jornalismo e responsável pela página “Vou de Bahêa”, que reúne mais de 60 mil seguidores no Instagram e produz conteúdo sobre o Esporte Clube Bahia, decidiu apostar na produção independente.

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Nesse modelo, Allan não trabalha sob o regime tradicional de carteira assinada nem estrutura sua atividade como um trabalho convencional para terceiros. O principal projeto profissional é a própria página e, consequentemente, a própria marca.

A escolha oferece liberdade para definir pautas, formatos e estratégias, mas também coloca sobre o jovem a responsabilidade de fazer o projeto crescer e transformá-lo em uma fonte de renda sustentável.

Particularmente, me sinto muito bem. Claro, é difícil, até porquê a internet tem muitos altos e baixos, exige muita resiliência, mas é o que eu escolhi pro meu futuro. Sempre quis enchergar uma maneira de ter mais liberdade pra exercer o que tenho de melhor: minha criatividade. E foi nesse caminho que consegui extrair o meu melhor. Tem também a questão de estar fazendo o que gosta, isso facilita pro desenvolvimento e, inevitavelmente, a parte financeira, que não tem como deixar de fora. Sabemos o quanto o jornalismo tradicional é injusto de maneira geral, com muita carga de trabalho, pouca escolha de se ampliar individualmente e a baixa remuneração”, iniciou Allan.

Nesse cenário, a internet  aparece não apenas como ferramenta de divulgação, mas como espaço profissional. Redes sociais deixam de ser apenas ambientes de entretenimento e passam a funcionar como plataformas para criação, construção de audiência, formação de marca pessoal e, para alguns jovens, geração de renda.

Morador da Ilha de Bom Jesus dos Passos, situada na Baía de Todos-os-Santos entre as ilhas de Madre de Deus e dos Frades, Allan aponta a distância de Salvador como um dos obstáculos para ampliar a atuação presencial da página. Ainda assim, os planos incluem transformar o projeto digital em uma operação cada vez mais ampla.

Minha principal meta é fazer desse trabalho o meu sustento. Um dos maiores entraves que tenho hoje é morar longe da capital, o que me deixa distante de realizar alguns projetos. Mas, quero crescer profissionalmente expandindo a marca para outras redes sociais, como o Youtube (principalmente), começar a fazer coberturas presencialmente nos jogos e não só cobrir a equipe masculina do Bahia, como também a feminina, porque entendo hoje a relevância do Vou de Bahêa e é mais uma forma de ampliar o futebol feminino no Brasil e, obviamente, também crescer a página. Existe mais alguns planejamentos que pretendo pro futuro, mas isso ainda está no papel, precisando ser melhor pensando (e desenvolvido)”, completou Allan.

As histórias de Felipe e Allan apresentam trajetórias diferentes, mas partem de uma mesma inquietação, que é a busca por um modelo profissional que não seja definido exclusivamente pelos padrões estabelecidos pelas gerações anteriores.

Classificação Indicativa: Livre


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